Pesquisadores brasileiros alcançaram um marco significativo na prevenção de desastres naturais ao desenvolver um método estatístico inovador para prever com maior precisão o risco de deslizamentos de terra, especialmente aqueles desencadeados por chuvas intensas. Essa evolução científica, fruto da colaboração entre a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foi detalhada em um artigo publicado na renomada revista científica Scientific Reports no final de outubro. A nova abordagem promete mitigar os impactos devastadores desses eventos, que frequentemente resultam em perdas humanas e materiais. Ao refinar a análise de fatores de risco, o método oferece uma ferramenta mais robusta para autoridades e comunidades se prepararem melhor frente às ameaças geológicas.

A revolução do AHP gaussiano na previsão de deslizamentos

Superando a subjetividade: do AHP tradicional ao AHP gaussiano

Tradicionalmente, a previsão de áreas suscetíveis a deslizamentos de terra tem se baseado em abordagens que, embora úteis, carregam consigo um grau de subjetividade. O método mais amplamente utilizado globalmente, o Processo de Hierarquia Analítica (AHP, na sigla em inglês), opera listando uma série de fatores de risco críticos. Esses fatores incluem, por exemplo, a proximidade de corpos d’água e estradas, o tipo de relevo, a inclinação do terreno e outras características geográficas e ambientais. Posteriormente, equipes de especialistas analisam e comparam cada um desses elementos para determinar sua relevância relativa no desencadeamento de um deslizamento. No entanto, essa técnica, por depender da opinião humana e do julgamento especializado, pode introduzir ambiguidades e variações significativas na avaliação, gerando resultados que nem sempre refletem a realidade de forma consistente. A interpretação individual dos pesos de cada fator pode levar a discrepâncias e a uma menor acurácia na identificação de zonas de alto risco.

Em resposta a essa limitação, a equipe de pesquisadores brasileiros introduziu o AHP Gaussiano, uma versão aprimorada e significativamente mais objetiva. Esta nova abordagem substitui a avaliação baseada na opinião humana por métodos estatísticos avançados, notadamente a curva de Gauss. Ao empregar algoritmos para analisar e ponderar o peso de cada fator de risco, o AHP Gaussiano minimiza drasticamente a possibilidade de erro e a subjetividade inerente ao processo. Rômulo Marques-Carvalho, primeiro autor do estudo, enfatiza a relevância dessa mudança: “Embora os ganhos quantitativos possam parecer modestos à primeira vista, o método apresenta vantagens significativas: ele reduz ambiguidades e demonstra um alinhamento muito maior com o comportamento real dos deslizamentos no território.” Essa objetividade estatística assegura que as avaliações de risco sejam mais consistentes e cientificamente embasadas, potencializando a eficácia das medidas preventivas.

Aplicação prática e resultados promissores em São Sebastião

Teste real e novos fatores críticos identificados

Para validar a eficácia do AHP Gaussiano, os pesquisadores o aplicaram em uma situação real e de grande impacto: os devastadores deslizamentos ocorridos em São Sebastião, litoral norte de São Paulo, em fevereiro de 2023. Essa escolha permitiu um teste rigoroso do método em um cenário onde as consequências da falta de previsão adequada foram trágicas. A metodologia de validação incluiu a análise minuciosa de imagens aéreas capturadas após os desastres, que forneceram dados cruciais sobre os locais exatos onde os processos de descida da terra se iniciaram e as áreas que foram mais severamente afetadas pelo fenômeno natural. Ao comparar a previsão do modelo com os eventos reais, foi possível quantificar a sua precisão.

Os resultados obtidos revelaram a superioridade do AHP Gaussiano. Enquanto a abordagem tradicional estimou que 23,52% da área analisada apresentava um risco muito alto de deslizamentos, o novo método apontou uma porcentagem de 26,31% para a mesma categoria de risco. Embora a diferença percentual possa parecer pequena, os pesquisadores ressaltam que, em cenários de risco de desastres naturais, mesmo uma pequena variação pode significar a identificação de comunidades inteiras ou de infraestruturas críticas que, de outra forma, estariam subestimadas em sua vulnerabilidade. O estudo também trouxe à luz a importância de avaliar cada fator individualmente, um diferencial do novo método. Enquanto a variação da inclinação das encostas e a posição delas eram mais relevantes na avaliação mais antiga, o AHP Gaussiano destacou a importância das formas do relevo na superfície (geomorfologia) e a distância da área afetada em relação a rios e estradas como fatores mais decisivos. A coautora do estudo, Cláudia Maria de Almeida, explica a relevância da proximidade de estradas: “A proximidade de estradas é importante porque sua construção em locais de relevo acidentado pressupõe a execução de obras de movimento de terra, como cortes e aterros, que geralmente levam a uma instabilidade das encostas.” Essa nova compreensão dos fatores contribuintes permite intervenções mais direcionadas e eficazes.

Versatilidade e acessibilidade: um futuro mais seguro

Além dos deslizamentos: aplicações diversas e simplicidade operacional

O potencial do AHP Gaussiano transcende a previsão de deslizamentos de terra. De acordo com os pesquisadores, a metodologia desenvolvida pode ser adaptada e utilizada para monitorar e prevenir outros tipos de desastres e fenômenos ambientais críticos. Entre as aplicações futuras vislumbradas, destacam-se o monitoramento de incêndios florestais, a avaliação do risco de desmatamento, a detecção de rebaixamento de solo e o combate à desertificação. Essa versatilidade o torna uma ferramenta valiosa para a gestão territorial e a proteção ambiental em diversas frentes, oferecendo um leque de soluções para desafios complexos. A capacidade de um único método estatístico auxiliar em tantas áreas reforça sua importância e o investimento na pesquisa.

Um dos aspectos mais promissores do AHP Gaussiano é a sua simplicidade de aplicação e acessibilidade. Diferentemente de modelos complexos que exigem infraestrutura tecnológica avançada e equipes altamente especializadas, o método brasileiro foi concebido para ser prático e de fácil implementação. Rômulo Marques-Carvalho sublinha essa característica, afirmando que “Uma prefeitura precisaria apenas dos dados geoespaciais básicos e de um computador comum com QGIS (software livre de análise de dados georreferenciados)”. Isso significa que órgãos municipais, mesmo aqueles com recursos limitados, podem adotar e operar o sistema sem a necessidade de grandes investimentos em equipamentos ou softwares proprietários. A democratização do acesso a ferramentas de prevenção de desastres é fundamental para proteger comunidades em todo o país, permitindo que mais localidades possam se beneficiar de uma previsão mais precisa e, consequentemente, reduzir a vulnerabilidade de suas populações frente a eventos naturais adversos, construindo um futuro mais seguro e resiliente.

Contribuição brasileira para a segurança global

A inovação brasileira no desenvolvimento do método AHP Gaussiano representa um avanço crucial na luta contra os desastres naturais. Ao oferecer uma abordagem mais objetiva e alinhada com a realidade dos fenômenos, esta pesquisa não apenas aprimora significativamente a capacidade de prever deslizamentos de terra, mas também abre caminho para a prevenção de uma gama mais ampla de riscos ambientais. A simplicidade e acessibilidade do método garantem que ele possa ser implementado por uma variedade de instituições, desde grandes centros de pesquisa até prefeituras em regiões mais vulneráveis. Este trabalho sublinha o papel vital da ciência e da tecnologia na construção de comunidades mais seguras e resilientes, demonstrando o impacto transformador da pesquisa nacional na proteção da vida e do meio ambiente.

Perguntas frequentes

O que é o método AHP Gaussiano e como ele se diferencia do AHP tradicional?
O AHP Gaussiano é uma metodologia estatística desenvolvida para prever o risco de deslizamentos de terra com maior precisão. Diferencia-se do AHP tradicional por substituir a avaliação subjetiva baseada na opinião de especialistas por métodos estatísticos, como a curva de Gauss, para ponderar os fatores de risco, o que reduz ambiguidades e aumenta a objetividade.

Quais são os principais fatores de risco identificados pelo AHP Gaussiano como mais decisivos para deslizamentos?
Em sua aplicação, o AHP Gaussiano destacou a geomorfologia (formas do relevo na superfície) e a distância da área afetada em relação a rios e estradas como fatores mais decisivos para o risco de deslizamentos, em contraste com o AHP tradicional, que dava mais relevância à inclinação e posição das encostas.

Onde o método AHP Gaussiano foi testado e quais foram os resultados?
O método foi testado nos deslizamentos ocorridos em São Sebastião (SP) em fevereiro de 2023. Os resultados mostraram que o AHP Gaussiano apontou uma área ligeiramente maior (26,31%) com risco muito alto de deslizamentos em comparação com o método tradicional (23,52%), demonstrando maior acurácia na identificação de zonas de perigo.

Para quais outros tipos de desastres ambientais o AHP Gaussiano pode ser aplicado?
Além de deslizamentos de terra, os pesquisadores indicam que o método pode ser adaptado para monitorar e prevenir incêndios florestais, desmatamento, rebaixamento de solo e desertificação, dada a sua versatilidade na análise de dados geoespaciais e fatores de risco.

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Fonte: https://www.metropoles.com

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