Uma intricada e arriscada operação secreta permitiu que a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, deixasse a Venezuela clandestinamente e chegasse em segurança a Oslo, na Noruega, a tempo de receber seu Prêmio Nobel da Paz. Batizada de “Operação Dinamite Dourada”, a missão envolveu disfarces, travessias marítimas turbulentas e um voo, conforme detalhado pelo veterano das forças especiais americanas Bryan Stern, fundador da Fundação Grey Bull Rescue, responsável pela ação. Machado, que vivia na clandestinidade desde as últimas eleições controversas em seu país, não era vista publicamente desde janeiro e não via seus filhos adultos há dois anos. A complexidade da operação ressalta os perigos enfrentados por figuras de oposição na região.

A complexidade da Operação Dinamite Dourada
A jornada que levou María Corina Machado de sua clandestinidade na Venezuela até o palco do Nobel da Paz em Oslo foi meticulosamente planejada e executada sob condições extremas. Bryan Stern, líder da Fundação Grey Bull Rescue, uma organização especializada em missões de resgate e evacuação em zonas de conflito e desastre, descreveu a “Operação Dinamite Dourada” como longa, fria e úmida, mas bem-sucedida.

O planejamento meticuloso: A presença da Grey Bull na região
A Grey Bull Rescue não improvisou. Stern revelou que a fundação vinha consolidando sua presença no Caribe há meses, com operações e infraestrutura estabelecidas tanto na Venezuela quanto na ilha vizinha de Aruba. Essa preparação visava não apenas a evacuação de cidadãos americanos e aliados em caso de conflito, mas também a retirada de figuras-chave, como Machado. Stern enfatizou que a infraestrutura construída em solo venezuelano foi projetada para lidar com a evacuação de uma “segunda pessoa mais popular do país, com um alvo nas costas”, referindo-se à proeminência e ao risco que Machado corria. Especulações sobre uma possível ação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela aumentaram após declarações do então presidente Donald Trump, acusando o presidente venezuelano Nicolás Maduro de enviar narcóticos e criminosos aos EUA. Nesse contexto de alta tensão, a missão de retirar Machado ganhou contornos ainda mais críticos. O contato com a equipe de Machado ocorreu no início de dezembro, através de um intermediário conhecido, marcando a segunda tentativa de retirá-la do país, após o fracasso de um plano inicial. A operação foi batizada de “Dinamite Dourada” em homenagem a Alfred Nobel, inventor da dinamite e criador do prestigiado prêmio.

A jornada clandestina: Mar agitado e disfarces
A execução da missão foi rápida e decisiva. Em questão de dias – do contato inicial na sexta-feira à conclusão na terça-feira seguinte – Machado foi movida do esconderijo para a liberdade. A equipe da Grey Bull explorou diversas rotas de saída, optando por uma travessia marítima arriscada. Machado foi transportada por terra até um ponto de recolhimento, onde uma pequena embarcação a aguardava. Esta a levou até o litoral, onde se encontrou com Stern em um barco maior. A viagem marítima foi caracterizada por “mares muito agitados”, com ondas que chegavam a três metros de altura, realizada em completa escuridão. “A viagem não foi agradável. Fazia frio, chovia muito, estávamos encharcados e as ondas eram muito fortes”, relatou Stern, que acrescentou que as condições climáticas adversas foram estrategicamente aproveitadas para a dissimulação e para dificultar a detecção. Medidas rigorosas foram tomadas para ocultar a identidade e o perfil digital de Machado, uma figura política extremamente conhecida. A “ameaça biométrica é muito real”, explicou Stern, indicando que foram empregados recursos para evitar qualquer forma de rastreamento via telefone celular ou reconhecimento facial que pudesse comprometer a segurança da operação e da própria ativista. Após a difícil travessia marítima, Machado foi levada para terra firme, onde um avião particular a aguardava para o voo final até a Noruega.

Perigos, resiliência e o futuro incerto
A operação para resgatar María Corina Machado foi carregada de perigos inerentes a qualquer missão clandestina em território hostil, mas a resiliência da líder opositora e a precisão da Grey Bull Rescue foram fatores determinantes para o sucesso. A colaboração de uma rede de apoio na Venezuela, cujas identidades foram protegidas, também se mostrou crucial.

Desafios da missão e a postura de Machado
Bryan Stern descreveu a travessia marítima como extremamente perigosa. “A água não perdoa. Se eu dirigir um barco e o motor quebrar, precisarei nadar até a Venezuela”, exemplificou, sublinhando os riscos para sua equipe e para Machado. Apesar das condições adversas – frio intenso, chuva constante e o balanço violento do barco – a postura de María Corina Machado foi “impressionante”. Stern relatou que ela aceitou um casaco quando oferecido, mas não fez nenhuma queixa ou pedido adicional, mesmo estando “gelada e ensopada”. Sua calma, determinação e espírito resiliente em face das dificuldades foram notáveis para os operadores, que viram nela uma “formidável” aliada. A segurança dos venezuelanos que auxiliaram na operação foi uma preocupação primordial. Stern assegurou que as identidades dos colaboradores foram mantidas em sigilo absoluto, e muitas das ações foram camufladas para que nem todos os envolvidos tivessem a real dimensão da missão. Isso incluiu a criação de narrativas alternativas, onde pessoas pensavam estar ajudando em outras causas, mas suas ações eram cruciais para a “Operação Dinamite Dourada” e a garantia de um resgate bem-sucedido.

O financiamento e a coordenação internacional
Stern esclareceu que a operação não foi financiada pelo governo dos Estados Unidos. Ele afirmou que a Grey Bull Rescue nunca recebeu apoio financeiro nem qualquer tipo de reconhecimento formal do governo americano, embora tenham havido contatos “informais” e um alerta “informal” sobre a missão. O financiamento da “Operação Dinamite Dourada” veio exclusivamente de doadores privados, ressaltando a independência da organização. Apesar da ausência de apoio governamental direto, Stern confirmou a coordenação da operação com “alguns Estados nacionais e com os serviços diplomáticos e de inteligência de diversos países”, indicando um complexo arranjo internacional para facilitar a evacuação e garantir a segurança do trajeto aéreo. A chegada de Machado a Oslo, pouco antes da meia-noite, para se reunir com seus filhos adultos após dois anos de separação, marcou o fim bem-sucedido de uma saga que exemplifica os desafios enfrentados por ativistas políticos em regimes autoritários e a capacidade de operações humanitárias clandestinas.

O legado da Operação Dinamite Dourada
A bem-sucedida Operação Dinamite Dourada não apenas garantiu a presença de María Corina Machado na cerimônia do Prêmio Nobel da Paz, mas também lançou luz sobre a complexa rede de apoio clandestino a opositores políticos e a dedicação de organizações como a Grey Bull Rescue. A ativista, agora em segurança em um novo ambiente, manifestou sua intenção de regressar à Venezuela, um desejo que Bryan Stern, por sua vez, desaconselhou veementemente, reconhecendo os perigos ainda existentes. “Eu disse a ela: ‘Não volte. Você é mãe. Precisamos de você'”, relatou Stern, destacando a preocupação com a segurança e o bem-estar de Machado. Contudo, ele reconheceu a forte motivação da líder opositora: “Ela fará o que tiver que fazer… Entendo por que ela quer voltar, porque é uma heroína para seu povo. Eu gostaria que ela não voltasse, mas tenho a sensação de que irá retornar.” A história de sua fuga destaca o alto preço da dissidência política e a coragem daqueles que buscam a liberdade em ambientes repressivos, servindo como um potente símbolo de resistência.

Perguntas frequentes sobre a operação

Quem é María Corina Machado e por que ela precisou ser resgatada?
María Corina Machado é uma proeminente líder da oposição venezuelana e agraciada com o Prêmio Nobel da Paz. Ela vivia na clandestinidade em seu próprio país desde as últimas eleições controversas, não aparecendo em público há meses e enfrentando sérios riscos à sua segurança devido à sua posição política.

Qual organização esteve por trás da “Operação Dinamite Dourada”?
A Fundação Grey Bull Rescue, liderada pelo veterano das forças especiais americanas Bryan Stern, foi a responsável pela organização e execução da missão. A Grey Bull é especializada em resgates e evacuações em zonas de conflito e desastre, utilizando sua experiência em ambientes complexos para garantir a segurança dos envolvidos.

Como a operação foi financiada e qual o envolvimento de governos?
Bryan Stern afirmou que a “Operação Dinamite Dourada” foi financiada por doadores privados, e não pelo governo dos Estados Unidos. Embora não houvesse apoio financeiro direto do governo americano, Stern mencionou ter havido contatos “informais” e coordenação com serviços diplomáticos e de inteligência de “alguns Estados nacionais”.

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Fonte: https://g1.globo.com

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