Em um cenário de intensa apuração sobre a destinação de verbas públicas, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), manifestou-se em defesa de Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”. A servidora foi alvo de mandados de busca e apreensão expedidos pela Polícia Federal na última sexta-feira, em uma operação que investiga irregularidades no chamado “orçamento secreto” e o uso de emendas parlamentares. Motta ressaltou a competência e o compromisso de Mariângela Fialek com a gestão pública, ao mesmo tempo em que argumentou que a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), não evidencia desvio de verbas públicas. A polêmica levanta questões sobre a transparência e a fiscalização dos recursos federais.

A defesa de Mariângela Fialek e o papel da Câmara

Elogios à técnica e responsabilidade
Hugo Motta, em nota oficial, elogiou a servidora Mariângela Fialek, descrevendo-a como uma “técnica competente, responsável e comprometida com a boa gestão da coisa pública”. Ele enfatizou que Mariângela foi uma peça fundamental no “aprimoramento dos sistemas de rastreabilidade da proposição, indicação e execução de emendas parlamentares”, uma função crucial na administração do Legislativo. A declaração de Motta surge em um momento delicado, buscando dissociar a atuação técnica da servidora de qualquer eventual irregularidade no manuseio de fundos públicos.

Motta fez questão de sublinhar a importância de distinguir a “mera indicação de emendas parlamentares” da “efetiva execução dessas verbas pelos destinatários finais”. Segundo o presidente da Câmara, a indicação, por si só, não seria impositiva, e a responsabilidade pela correta aplicação dos recursos recairia sobre quem os recebe. Ele ponderou que a execução adequada das transferências governamentais, incluindo emendas e verbas do Poder Executivo, deve ser rigorosamente acompanhada pelos órgãos de controle, sugerindo que a fiscalização final é a chave para evitar desvios. Essa distinção proposta por Motta busca clarificar as diferentes etapas do fluxo de recursos e as responsabilidades envolvidas.

O contexto das emendas parlamentares e o “orçamento secreto”
A investigação da Polícia Federal, que teve Mariângela Fialek como um de seus alvos, concentra-se nas obras financiadas com emendas parlamentares e, especificamente, no controverso “orçamento secreto”. Este mecanismo ficou conhecido pela destinação de verbas públicas onde a identificação do político que fez a indicação e dos beneficiários finais era frequentemente opaca ou inexistente. Alega-se que Mariângela Fialek, que trabalhou para o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, teria um papel central nesse esquema.

As apurações indicam que a servidora seria responsável por enviar ordens às comissões da Câmara, determinando a liberação de emendas parlamentares associadas ao “orçamento secreto”. A sua posição estratégica e a proximidade com a liderança da Casa à época levantaram suspeitas sobre a influência exercida na alocação de recursos. O “orçamento secreto” foi um tema de grande debate no cenário político nacional, com críticas severas pela falta de transparência e potencial para a prática de clientelismo e desvios. A investigação atual reacende a discussão sobre a necessidade de maior controle e rastreabilidade dos gastos públicos.

A investigação da Polícia Federal e as observações de Flávio Dino

Autorização judicial e o ponto de partida das apurações
As diligências da Polícia Federal contra Mariângela Fialek foram autorizadas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Contudo, Hugo Motta, ao defender a servidora, declarou em nota não ter encontrado na decisão do ministro “nenhum ato de desvio de verbas públicas. Nenhum”. Apesar de sua observação, Motta reconheceu que eventuais desvios devem ser “devidamente apurados”. Esta ressalva indica uma postura de cautela, ao mesmo tempo em que tenta atenuar a gravidade das acusações sobre a servidora.

A investigação que culminou nos mandados de busca e apreensão teve como ponto de partida depoimentos cruciais de seis parlamentares e uma servidora da própria Câmara. Entre os depoentes estão os deputados Glauber Braga (Psol-RJ), José Rocha (União-BA), Adriana Ventura (Novo-SP), Fernando Marangoni (União-SP), Dr. Francisco (PT-PI), e o senador Cleitinho (Republicanos-MG). Seus relatos, segundo as investigações, apontaram que Mariângela Fialek, apelidada de Tuca, encaminhava ofícios da Presidência da Câmara às comissões, ordenando a liberação de emendas, com especial direcionamento para Alagoas, estado do então presidente da Casa, Arthur Lira.

Indícios, quebra de sigilo e a questão da transparência
A ex-assessora de Arthur Lira, que atualmente ocupa um cargo no gabinete da presidência do PP na Câmara, já havia tido o sigilo telemático quebrado. No entanto, a Polícia Federal identificou a necessidade de realizar as buscas e apreensões após constatar a ausência de mensagens salvas em seus aparelhos ou nuvens de dados, apesar de ter encontrado indícios da prática de crimes. Esta lacuna levantou suspeitas sobre a ocultação de informações relevantes para a investigação.

Diante desse cenário, o ministro Flávio Dino autorizou as buscas, citando a “concreta possibilidade de que a representada tenha adotado condutas voltadas a impedir a realização de backup de seus dados mais sensíveis em ambiente de nuvem, mantendo acervo em meios físicos (papéis, máquinas, etc)”. Dino enfatizou que os indícios apontam para uma “atuação contínua, sistemática e estruturada” na organização do orçamento secreto. É importante ressaltar que Flávio Dino é também relator de uma ação em que o Supremo Tribunal Federal vedou as práticas do orçamento secreto, exigindo que a Câmara dos Deputados adotasse critérios mínimos de transparência e rastreabilidade do dinheiro público até o destinatário final, reforçando a seriedade das acusações.

O “redirecionamento forçado” e as “contas de padaria”
As falas e os indícios coletados reforçam a suspeita de que havia um “redirecionamento forçado” de recursos de emendas por parte de Arthur Lira, orquestrado através da atuação da servidora Mariângela Fialek, conforme sublinhado pelo ministro Flávio Dino. Em um relatório parcial, a Polícia Federal detalhou como, desde 2020, Tuca ocupou diversos cargos estratégicos em empresas públicas e no Poder Legislativo, sempre por indicação de Lira. Estas posições, segundo a PF, a teriam permitido manipular o direcionamento das emendas parlamentares, evidenciando um padrão de atuação.

Um dos pontos mais curiosos da investigação foi a descoberta de uma anotação manuscrita que coincidia com o direcionamento de emendas. Os investigadores destacaram o “incomum desapego à formalidade” na formulação do Orçamento da União, que possibilitava tal prática. A Polícia Federal descreveu a situação de forma impactante: “Uma anotação à mão, realizada de maneira rudimentar, foi responsável pela realocação de recursos de um Município para outro. Lamentavelmente, não há como não comparar a maneira de controlar e organizar o orçamento secreto coordenado por TUCA a uma ‘conta de padaria'”. Essa metáfora ressalta a aparente informalidade e a falta de controle rigoroso na gestão de vultuosas somas de dinheiro público.

Conclusão

A defesa enfática de Mariângela Fialek pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, contrasta com as graves suspeitas levantadas pela Polícia Federal e as observações do ministro Flávio Dino. Enquanto Motta ressalta a competência técnica da servidora e a ausência de desvios na decisão judicial, as investigações apontam para um papel central dela na orquestração do “orçamento secreto” e no “redirecionamento forçado” de emendas. Os indícios de manipulação, a quebra de sigilo e a analogia com “contas de padaria” evidenciam a complexidade e a seriedade das acusações. A situação sublinha a necessidade contínua de transparência e fiscalização rigorosa na gestão dos recursos públicos, especialmente em mecanismos como as emendas parlamentares, para garantir a correta aplicação do dinheiro do contribuinte e combater quaisquer práticas de desvio.

Perguntas frequentes

Quem é Mariângela Fialek e qual seu papel na investigação?
Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, é uma servidora pública que trabalhou para o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, e foi alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal. Ela é investigada por seu suposto papel na or liberação de emendas parlamentares do “orçamento secreto”, com suspeitas de “redirecionamento forçado” de recursos.

O que é o “orçamento secreto” e por que ele é investigado?
O “orçamento secreto” é o nome dado a um mecanismo de destinação de verbas públicas onde a identificação dos políticos que fizeram a indicação e dos beneficiários finais era frequentemente obscura. Ele é investigado por falta de transparência, potencial para desvios e manipulação de recursos públicos, levantando sérias preocupações sobre a integridade da gestão fiscal.

Qual a posição de Hugo Motta sobre o caso?
O presidente da Câmara, Hugo Motta, defendeu Mariângela Fialek, elogiando sua competência técnica e ressaltando que, em sua análise, a decisão do ministro Flávio Dino não aponta “nenhum ato de desvio de verbas públicas”. Ele também diferenciou a indicação de emendas da responsabilidade pela sua execução final.

O ministro Flávio Dino encontrou desvio de verbas, segundo a decisão que autorizou as buscas?
Segundo a interpretação de Hugo Motta, a decisão de Flávio Dino que autorizou as buscas não aponta explicitamente desvios de verbas públicas. No entanto, o ministro Dino justificou as buscas pela “concreta possibilidade” de Mariângela Fialek ter ocultado dados e apontou indícios de uma “atuação contínua, sistemática e estruturada” na organização do orçamento secreto, sugerindo a existência de práticas criminosas.

Mantenha-se informado sobre os desdobramentos desta e de outras investigações que buscam garantir a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos. Acompanhe as notícias e exija responsabilidade na gestão do dinheiro que é de todos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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