Após dois anos consecutivos de retração, a produção científica brasileira demonstrou uma significativa recuperação em 2024, registrando um crescimento de 4,5% em comparação ao ano anterior. Este avanço representa um alento para a comunidade acadêmica nacional, indicando uma inflexão positiva na trajetória da pesquisa no país. Com mais de 73 mil artigos científicos elaborados no período, o Brasil se aproxima dos patamares de alta produtividade observados em 2021, quando foram publicados mais de 82 mil trabalhos. A constatação, que ecoa tendências globais de retomada pós-pandemia, sugere que o investimento em pesquisa e o arrefecimento dos impactos da crise sanitária são fatores determinantes para o revitalizado dinamismo da ciência nacional. A análise aprofundada desses dados revela não apenas um aumento quantitativo, mas também a resiliência e o potencial latente do ecossistema de pesquisa brasileiro.
A Trajetória da Produção Científica Brasileira
Análise dos Picos e Quedas Recentes
O aumento de 4,5% na produção de artigos por instituições de pesquisa brasileiras em 2024 marca um ponto de virada crucial após um período desafiador. Nos anos anteriores, o cenário para a ciência nacional foi de declínio constante, gerando preocupações sobre o futuro da pesquisa no país. Em 2022, a quantidade de artigos científicos brasileiros diminuiu em 7,4% em relação ao ano precedente. A tendência negativa persistiu em 2023, com uma nova queda de 7,2% na produção, comparativamente a 2022. Essas reduções consecutivas representaram uma significativa perda de volume na geração de conhecimento e na visibilidade internacional da pesquisa brasileira.
Apesar do crescimento observado em 2024, que resultou em mais de 73 mil trabalhos publicados, é importante contextualizar que o país ainda não alcançou o pico registrado em 2021, quando mais de 82 mil artigos foram elaborados. Este dado sugere que, embora a recuperação seja um sinal promissor, ainda há um caminho a ser percorrido para restaurar plenamente a capacidade produtiva e a projeção que a ciência brasileira demonstrou em seu período de maior efervescência. A análise da série histórica revela que os impactos de fatores externos e de políticas de financiamento costumam ter um efeito defasado na produção científica. Períodos de menor investimento ou de grandes rupturas, como a pandemia de Covid-19, frequentemente se refletem nas estatísticas de publicação alguns anos depois, explicando a persistência das quedas em 2022 e 2023, mesmo com eventuais melhorias no financiamento em anos mais recentes.
Fatores Impulsionadores e o Cenário Global
O Papel dos Investimentos e a Recuperação Pós-Pandemia
A recuperação da produção científica brasileira em 2024 não é um fenômeno isolado, mas sim parte de uma tendência mais ampla de retomada da ciência em nível mundial. Um levantamento recente, que analisou o desempenho de dezenas de países, demonstra que a maioria das nações apresentou crescimento em seus volumes de publicação em relação a 2023. Essa sincronia global reforça a hipótese de que o arrefecimento da pandemia de Covid-19 foi um fator crucial para a revitalização da pesquisa. Durante o auge da crise sanitária, laboratórios foram fechados, projetos foram suspensos, viagens e colaborações internacionais foram severamente restringidas, e muitos pesquisadores redirecionaram seus esforços para o combate direto ao vírus, impactando a produção em diversas outras áreas.
Contudo, a recuperação não foi universal. Países em conflito, como Rússia e Ucrânia, registraram quedas notáveis na produção científica — 6,3% e 0,6%, respectivamente. Este dado sublinha o impacto devastador que instabilidades geopolíticas e guerras têm sobre a infraestrutura de pesquisa, o financiamento, a mobilidade de pesquisadores e a capacidade de colaboração internacional, servindo como um alerta para a fragilidade do ecossistema científico diante de crises de grande escala.
No caso específico do Brasil, especialistas envolvidos na análise ressaltam o papel fundamental da retomada de investimentos em ciência. De acordo com analistas, o volume de publicações de um país reflete, entre outros fatores, a magnitude dos investimentos em pesquisa realizados anos antes. Diante de um melhor nível de aporte financeiro e de recursos dedicados à ciência nos últimos anos, era esperado que a produção nacional mostrasse sinais de recuperação e crescimento. Adicionalmente, o fim dos reflexos mais pesados da Covid-19 sobre a rotina de pesquisa, combinado com a recuperação do financiamento, ajudou a destravar projetos paralisados, a reativar linhas de pesquisa e a manter a produtividade das instituições acadêmicas e de pesquisa. A metodologia empregada no levantamento para avaliar a produção científica considerou artigos publicados entre 1996 e 2024 por países que publicaram mais de 10 mil artigos no ano anterior, com a coleta de dados realizada em julho deste ano, focando exclusivamente em trabalhos classificados como “artigo científico”, o que garante uma base comparativa robusta e consistente.
Desafios e o Futuro da Ciência Nacional
Apesar do cenário positivo de crescimento na produção científica brasileira, a análise detalhada revela que a recuperação não é uniforme em todo o território nacional nem entre todas as instituições. Ao avaliar a variação de produtividade de 32 instituições de pesquisa brasileiras, o levantamento identificou que algumas entidades, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Universidade Federal de Goiás (UFG) e a Universidade Estadual de Maringá (UEM), ainda apresentaram números negativos. Essa heterogeneidade sublinha a necessidade de políticas públicas mais direcionadas e estratégicas, capazes de identificar e apoiar as instituições e regiões que enfrentam maiores desafios para recuperar o fôlego e impulsionar suas atividades de pesquisa.
A continuidade e a robustez do crescimento dependem de um compromisso constante com o financiamento e com a criação de um ambiente propício à pesquisa de alta qualidade. Relatórios e levantamentos periódicos, como o que demonstrou essa retomada, são ferramentas indispensáveis para o mapeamento da realidade da ciência no país. Eles permitem não apenas celebrar avanços, mas também identificar lacunas, desigualdades e áreas que demandam atenção prioritária. Ao fornecer um panorama claro do desempenho nacional e internacional, esses estudos ajudam a formular políticas públicas eficazes, garantindo que os investimentos em ciência sejam aplicados de forma estratégica para maximizar o retorno em termos de conhecimento, inovação e impacto social.
A sustentabilidade da produção científica brasileira é crucial para o desenvolvimento do país, impulsionando a inovação tecnológica, a competitividade econômica, a melhoria da saúde pública e a formação de capital humano qualificado. Portanto, a retomada observada em 2024, embora encorajadora, deve ser vista como um ponto de partida para um esforço contínuo e integrado, visando consolidar a posição do Brasil como um ator relevante no cenário da pesquisa global e assegurar que a ciência continue a ser um pilar fundamental para o progresso nacional.
Fonte: https://www.metropoles.com

