O Brasil, e especialmente a comunidade afro-brasileira, chora a perda de uma de suas mais veneradas líderes espirituais. Na noite da última sexta-feira, 26 de janeiro, faleceu, aos 98 anos, Mãe Carmen de Oxaguian, a respeitada ialorixá do centenário Terreiro do Gantois, em Salvador, Bahia. A notícia de seu passamento gerou uma onda de pesar e homenagens por todo o país, ecoando desde o Palácio do Planalto até os mais diversos círculos culturais e religiosos. O Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e a Primeira-Dama, Janja Lula da Silva, expressaram profunda tristeza, destacando o papel fundamental de Mãe Carmen na preservação e difusão da espiritualidade africana no Brasil. Sua liderança, marcada por mais de duas décadas de dedicação ao Gantois, consolidou um legado de amor, acolhimento e compromisso com as tradições ancestrais que moldaram a identidade cultural brasileira.
A Repercussão Nacional e o Legado de Fé
A Voz Presidencial e o Reconhecimento Oficial
O falecimento de Mãe Carmen de Oxaguian mobilizou importantes figuras do cenário político e cultural brasileiro, sublinhando a relevância de sua figura para a nação. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em comunicado oficial, não apenas lamentou a perda, mas fez questão de enaltecer a trajetória da ialorixá. Em suas palavras, o presidente, acompanhado da primeira-dama Janja, expressou que a partida de Mãe Carmen de Oxaguian os deixou “profundamente tristes”. Lula destacou que ela “liderou com muito amor, por mais de 20 anos, um dos mais importantes terreiros de candomblé do Brasil, o Ilé Ìyá Omi Àse Ìyamase, conhecido em prosa e verso como o Terreiro do Gantois”. Essa menção presidencial ressalta não apenas o reconhecimento pessoal, mas também o valor institucional e histórico do Terreiro do Gantois como um bastião da fé e da cultura afro-brasileira.
A mensagem do presidente foi além do lamento pela perda, transformando-se em um tributo à sua dedicação. Lula enfatizou que Mãe Carmen cultivou com maestria a tradição ancestral, um legado sagrado que lhe foi transmitido por matriarcas como Mãe Menininha. Essa linhagem de sabedoria e resistência, mantida acesa por Mãe Carmen, é, segundo o presidente, a “chama da espiritualidade africana que fez uma nova casa no Brasil e permeou a cultura e o coração dos brasileiros”. Tal afirmação sublinha a profunda interconexão entre a religiosidade de matriz africana e a formação da identidade cultural do país. Adicionalmente, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania também emitiu uma nota de pesar, solidarizando-se com a comunidade do Gantois e reforçando o impacto de sua vida e obra. A nota oficial do ministério afirmou que “sua partida representa uma grande perda para o povo de santo, para a Bahia e para o país”, e que “sua vida permanece como legado de sabedoria, firmeza espiritual e compromisso com a ancestralidade”, demonstrando o reconhecimento do Estado à sua contribuição inestimável para a cultura e os direitos humanos no Brasil.
A Vida e Obra de uma Matriarca Espiritual
A Trajetória de Mãe Carmen e sua Influência Cultural
Nascida Carmen Oliveira da Silva, em 29 de dezembro de 1926, Mãe Carmen teve seu berço no próprio Terreiro do Gantois, um dos mais tradicionais e respeitados centros de candomblé do Brasil, localizado em Salvador. Sua vida foi intrinsecamente ligada à religião desde a mais tenra idade, sendo iniciada nos ritos sagrados aos sete anos. Sua ascensão à posição de ialorixá, a mãe de santo, do Ilé Ìyá Omi Àṣẹ Ìyámase – nome formal do Terreiro do Gantois – ocorreu em 2002, quando assumiu o comando após a partida de sua irmã carnal, Mãe Cleusa, e de sua mãe espiritual, a lendária Mãe Menininha do Gantois. Durante mais de duas décadas, Mãe Carmen Oxaguian manteve viva e pujante a chama de uma tradição secular, honrando a memória de suas antecessoras e garantindo a continuidade de um patrimônio cultural e religioso inestimável.
A influência de Mãe Carmen estendeu-se muito além dos muros do terreiro. Sua liderança exemplar foi um farol para a comunidade de matriz africana, representando a resistência, a sabedoria e a força de uma ancestralidade que, apesar dos desafios históricos e do preconceito, persiste e floresce no Brasil. O Terreiro do Gantois, sob sua regência, continuou a ser um espaço de acolhimento, aprendizado e celebração da fé, atraindo não apenas adeptos do candomblé, mas também acadêmicos, artistas e figuras públicas interessadas em sua rica cultura. Mãe Carmen era uma contadora aposentada por profissão, mas sua verdadeira vocação e missão de vida se manifestaram na zeladoria das tradições orais e rituais de seu povo. Ela deixa um legado familiar composto por duas filhas, três netos e quatro bisnetos, que agora carregam a responsabilidade de honrar sua memória e perpetuar os ensinamentos. O velório da líder religiosa, que teve início na sexta-feira, estendeu-se até o sábado, 27 de janeiro, culminando no sepultamento em Salvador, em cerimônia que reuniu centenas de pessoas para uma última despedida.
O Significado da Perda para a Cultura e a Espiritualidade Brasileira
A partida de Mãe Carmen de Oxaguian representa não apenas a perda de uma líder religiosa, mas o encerramento de um capítulo de vital importância para a cultura e a espiritualidade do Brasil. Sua vida foi um testemunho da resiliência e da riqueza das religiões de matriz africana, muitas vezes marginalizadas, mas intrinsecamente ligadas à formação da identidade nacional. Ela personificou a figura da matriarca, guardiã de um saber ancestral que transcende o tempo e as gerações, e sua ausência deixará um vazio imenso no coração do povo de santo e de todos aqueles que reconhecem a profundidade de sua contribuição.
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, em suas redes sociais, resumiu o sentimento de muitos: “Tive o privilégio de conhecê-la como autoridade espiritual, mas também como uma grande mulher de fé que cultivou amor, acolhimento e a força de quem lidera pelo exemplo”. Essa declaração destaca a dimensão humana e o impacto pessoal que Mãe Carmen exercia sobre aqueles que a conheciam. O músico Gilberto Gil, outra figura icônica da cultura brasileira e de profunda ligação com a Bahia e as tradições afro-brasileiras, também se manifestou em lamento, escrevendo: “Partiu hoje deixando muitas saudades. Descanse em paz! Que Obatalá nos proteja”. Tais homenagens de personalidades públicas reforçam a capilaridade da influência de Mãe Carmen, que ia muito além das fronteiras religiosas, alcançando o âmago da expressão artística e cultural brasileira. Seu legado é um lembrete perene da necessidade de valorizar, proteger e celebrar a diversidade religiosa e cultural que constitui a alma do Brasil, um país onde a chama da espiritualidade africana, como Mãe Carmen tão bem manteve acesa, continuará a iluminar e guiar as futuras gerações.

