Uma complexa rede de lavagem de dinheiro, supostamente movimentando valores que podem atingir a impressionante marca de R$ 500 milhões, foi o alvo da Operação 'Quebrando a Banca', deflagrada pela Polícia Civil em cinco cidades do interior de São Paulo. A investigação revelou um sofisticado esquema que utilizava jogos de azar, principalmente o jogo do bicho, como ponto de partida para a legitimação de fortunas, chamando a atenção para a disparidade entre a renda declarada de alguns envolvidos e a vultosa movimentação financeira identificada.

A Teia Financeira: Do Jogo do Bicho a Empresas de Fachada

O núcleo da fraude consistia na conversão de lucros obtidos com a exploração de jogos de azar em capital aparentemente lícito. Segundo as apurações do delegado Ivan Luis Constâncio, da Divisão Especializada em Investigações Criminais (Deic) de Piracicaba, os valores ilícitos eram meticulosamente inseridos no sistema financeiro por meio de uma vasta gama de empresas. Construtoras, firmas de importação e exportação, comércios de diversos setores, como o de peixes e agropecuário, serviam como elos em uma cadeia de transações. Essa circulação de recursos visava 'limpar' o dinheiro, que em grande parte era direcionado a uma empresa de apostas (bet) sediada em Ribeirão Preto, e posteriormente retornava ao CPF do principal investigado.

Embora a empresa de apostas esteja legalmente constituída e o alvo principal figure como um de seus acionistas, a investigação policial se concentra na origem dos fundos aplicados. A suspeita é de que esses valores, inicialmente estimados em R$ 97 milhões apenas nos jogos de azar, fossem ocultados e dissimulados através dessas operações, com o objetivo final de transformá-los em capital lícito. A aquisição de bens pelos investigados pode elevar a movimentação total a meio bilhão de reais, evidenciando a grandiosidade da operação criminosa.

Perfís Suspeitos e as Descobertas Iniciais da Operação

A Operação 'Quebrando a Banca' foi desencadeada após o Setor de Inteligência da Polícia Civil identificar movimentações financeiras atípicas de indivíduos que, em tese, não possuíam capacidade econômica para tal. Um dos casos mais emblemáticos envolve um operador de caixa com salário declarado de apenas R$ 1,8 mil, mas que realizou transações via Pix na casa dos milhões nos últimos meses. A polícia acredita que a quadrilha se valia de pessoas de origem humilde, com pouca visibilidade financeira, para atuar como 'laranjas' e, assim, evitar levantar suspeitas.

Outro investigado demonstrou movimentar R$ 25 milhões em espécie, além de ter adquirido um imóvel avaliado em R$ 800 mil, pago integralmente em dinheiro. Este mesmo indivíduo recebeu quase R$ 40 milhões de uma única pessoa, também sob investigação em Mogi Mirim. Ao todo, oito pessoas estão sendo investigadas, e embora não tenha havido prisões até o momento, 14 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Ribeirão Preto, Mogi-Mirim, Santa Rosa de Viterbo, São João da Boa Vista e São Paulo. Entre os bens apreendidos estão dez carros, incluindo modelos de luxo, além de R$ 40 mil em espécie, celulares, notebooks, tablets e computadores, materiais que serão cruciais para aprofundar a investigação.

Conexões Históricas e o Próximo Capítulo da Investigação

A investigação revelou que o esquema de lavagem de dinheiro pode ter raízes profundas, possivelmente operando desde 2013, e não cessou suas atividades mesmo após condenações de indivíduos ligados ao jogo do bicho. A Polícia Civil suspeita que parte dos alvos da atual operação esteja conectada a réus de um processo criminal cujas condenações estão previstas para junho de 2025. Relatórios de inteligência financeira indicaram que, nos últimos cinco anos (de 2020 em diante), vários desses réus mantiveram ou realizaram movimentações bancárias e financeiras que geraram apontamentos de supostas irregularidades, sinalizando a continuidade das práticas ilícitas.

Com base nas apreensões realizadas e na análise dos documentos e equipamentos eletrônicos recolhidos, a polícia agora busca identificar elementos de fraude e rastrear o destino final do dinheiro arrecadado ilegalmente. Os investigados deverão responder por crimes como lavagem ou ocultação de bens, associação criminosa e exploração de jogos de azar. Os nomes dos envolvidos não foram divulgados, preservando-se o sigilo da investigação enquanto as autoridades trabalham para desarticular completamente essa complexa organização criminosa.

Fonte: https://g1.globo.com

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