O cenário diplomático internacional ganhou um novo contorno nesta terça-feira, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou o convite ao presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, para integrar um inédito “Conselho da Paz”. Este colegiado, idealizado e presidido pelo próprio chefe de Estado norte-americano, visa supervisionar os esforços de reconstrução e governança da Faixa de Gaza, uma região palestina devastada por conflitos prolongados que resultaram em mais de 68 mil mortes nos últimos anos.

A Estrutura e os Objetivos da Iniciativa Americana

O “Conselho da Paz” proposto por Donald Trump é uma peça central na segunda fase de um plano de paz para Gaza, assinado em outubro do ano passado sob mediação dos EUA. Sua principal função será guiar o trabalho de um “Comitê Nacional para a Administração de Gaza” (NCAG), uma estrutura anunciada pela Casa Branca na semana anterior. O NCAG foi concebido com a missão explícita de liderar a reconstrução da Faixa de Gaza, que sofreu extensos danos em decorrência de operações militares israelenses. Apesar da expectativa de um cessar-fogo mediado pelo acordo inicial, relatórios recentes de agências das Nações Unidas na região ainda apontam para a continuidade de bombardeios e tiroteios, evidenciando a complexidade do desafio a ser enfrentado por essas novas estruturas.

Repercussão do Convite e Outros Líderes Envolvidos

A confirmação do convite a Lula foi feita por Trump durante uma coletiva de imprensa onde o presidente americano fazia um balanço do que seria o primeiro ano de seu segundo mandato, previsto para se estender até janeiro de 2029. Na ocasião, Trump expressou sua admiração pelo líder brasileiro, afirmando: “Eu gosto dele. Lula terá um grande papel no conselho da paz de Gaza”. Até o momento, o Palácio do Planalto não se pronunciou oficialmente sobre a aceitação, embora fontes do Ministério das Relações Exteriores já tivessem confirmado o recebimento da proposta via Embaixada do Brasil em Washington.

Além de Lula, outros chefes de Estado sul-americanos e de diferentes regiões do globo também foram convidados a integrar o conselho. Entre eles, o presidente argentino, Javier Milei, que publicou a carta de Trump em suas redes sociais expressando honra, e o presidente paraguaio, Santiago Peña, que também agradeceu publicamente. Há ainda relatos de convites a Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, e a líderes da Europa e do Egito, sinalizando a ambição de uma composição internacional diversificada para o colegiado.

Desafios, Críticas e a Ausência Palestina

A formação dessas novas instâncias de governança para Gaza, no entanto, não está isenta de controvérsias e desafios significativos. A composição do comitê executivo que governará Gaza, anunciada pelo governo Trump na última sexta-feira, inclui figuras como o enviado dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff, o secretário de Estado, Marco Rubio, Jared Kushner, genro do presidente, e o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, entre outros. Este comitê visa refletir as diretrizes estabelecidas pelo Conselho da Paz. Contudo, chama a atenção a ausência de representantes palestinos indicados para compor essas estruturas, um ponto sensível considerando o foco na administração de Gaza.

Adicionalmente, o gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, criticou abertamente o anúncio da Casa Branca, afirmando que a iniciativa não foi coordenada com Israel e contraria a política do país. A imprensa estrangeira, incluindo veículos israelenses, destacou essa desaprovação, sublinhando a complexidade de se construir consenso na região. Um rascunho de estatuto do conselho, veiculado pela Bloomberg, chegou a sugerir que os EUA estariam pedindo um bilhão de dólares para garantir assento permanente, informação prontamente desmentida pela Casa Branca, conforme noticiado pela Reuters.

A Posição de Lula e as Tensões na Diplomacia Global

Em um contexto de crescente fricção diplomática, a potencial participação de Lula no conselho ganha novas camadas. Enquanto o convite era oficializado, o presidente brasileiro, durante um evento no Rio Grande do Sul, criticou o estilo de governança de Donald Trump. Lula questionou a tentativa de Trump de “governar o mundo” por meio de publicações em redes sociais, referindo-se ao ex-presidente americano como alguém que “todo dia fala uma coisa e todo dia o mundo fala ainda o que ele falou”.

Essa observação de Lula se insere em um cenário mais amplo de tensões, com o governo Trump enfrentando resistência de líderes europeus, exemplificada por discussões anteriores sobre a Groenlândia. O presidente brasileiro, conhecido por sua postura crítica ao uso excessivo de dispositivos digitais na diplomacia, afirmou, inclusive, não permitir a entrada de celulares em seu próprio gabinete, sublinhando uma divergência de abordagens em relação à comunicação e governança internacional.

A iniciativa de Donald Trump para Gaza, com a criação do “Conselho da Paz” e o convite a líderes globais como Luiz Inácio Lula da Silva, marca um esforço ambicioso para influenciar a reconstrução e a estabilização de uma das regiões mais conflagradas do planeta. No entanto, o caminho à frente é permeado por obstáculos, desde a ausência de vozes palestinas nas estruturas propostas até a aberta oposição de Israel e as críticas de outros líderes mundiais. A decisão de Lula e a aceitação ou recusa de outros chefes de Estado serão cruciais para delinear a legitimidade e a eficácia de um colegiado que aspira a um papel central na busca por uma paz duradoura na Faixa de Gaza.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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