Minneapolis, um dos centros da vibrante comunidade somali-americana nos Estados Unidos, tem sido palco de crescentes tensões após uma série de operações agressivas realizadas por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Essas ações, que mobilizaram milhares de pessoas às ruas e geraram um estado de apreensão generalizada, reacenderam o temor de intimidação e vigilância estatal que muitos acreditavam ter deixado para trás ao se reassentar no país. Lideranças comunitárias e ativistas apontam para a possibilidade de que essas batidas, no contexto de um ano eleitoral, busquem suprimir a participação política de uma população influente.
Mobilização Comunitária Diante da Intensificação das Operações
A resposta da comunidade somali de Minnesota foi imediata e organizada. Kowsar Mohamed, uma estudante de doutorado da Universidade de Minnesota, emergiu como figura central, liderando uma equipe improvisada que percorre o sul de Minneapolis, distribuindo cartilhas informativas de “Conheça seus direitos” e prestando apoio a idosos amedrontados. Mais de cem voluntários se engajaram nesse esforço de base, que inclui patrulhamento, filmagem de prisões e organização de protestos pacíficos.
Essas iniciativas visam confrontar o que muitos descrevem como táticas agressivas e constitucionalmente questionáveis por parte dos agentes do ICE. Relatos indicam que indivíduos são abordados na rua e instados a provar sua cidadania, um cenário que a comunidade, composta por aproximadamente 80 mil somalis — uma das maiores populações refugiadas do país —, considerava inconcebível sob a proteção da Constituição dos EUA.
Acusações de Perseguição Política e Supressão de Eleitores
A ofensiva do governo federal, marcada pelo envio de 3.000 agentes por determinação do então presidente republicano Donald Trump, intensificou as acusações de que as operações estariam mirando uma comunidade com crescente influência política às vésperas de importantes eleições. Democratas e líderes locais expressaram preocupação de que as batidas configurem uma tática de intimidação para desestimular a participação eleitoral dos somalis.
Trump, conhecido por sua retórica hostil que já classificou somalis como “lixo”, justificou as operações como necessárias para combater o crime e, em parte, pelo desvio de recursos federais destinados a programas de assistência social no estado. No entanto, muitas das pessoas detidas não possuíam acusações ou condenações criminais, levantando dúvidas sobre a real motivação por trás da ação. O histórico de retórica racista do ex-presidente contra negros e outros imigrantes não brancos é visto como um fator que encorajou ativistas de extrema direita e contribuiu para a desestabilização da sensação de segurança da comunidade.
Impacto Social e Econômico na Comunidade Somali
As operações do ICE tiveram um impacto profundo e multifacetado na vida da comunidade somali. Muitos de seus membros são refugiados que fugiram de conflitos em seus países de origem, e a atual situação em Minneapolis evoca dolorosas memórias. Abdulahi Farah, copresidente da Somali American Leadership Table, comparou o clima de tensão a uma “zona de guerra”, descrevendo o efeito desestabilizador sobre pequenos negócios e o bem-estar geral dos cidadãos.
No vibrante bairro de Cedar-Riverside, conhecido como West Bank, a atividade comercial diminuiu visivelmente desde a chegada dos agentes. Rashid Jama, gerente de um mercado local, observou uma queda acentuada no movimento, com fornecedores latinos, por exemplo, receosos de virem trabalhar devido ao temor de detenção. A tensão foi ainda mais acentuada após o tiroteio fatal de Renee Good, de 37 anos, por um agente de imigração, em 7 de janeiro, colocando Minneapolis em alerta máximo.
O Debate Sobre Direitos e o Devido Processo Legal
A controvérsia em Minneapolis ressalta um embate fundamental sobre direitos constitucionais e o devido processo legal. Enquanto líderes comunitários acusam os agentes de assediar manifestantes pacíficos, praticar perfilamento racial e realizar buscas em residências sem mandado, a porta-voz do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin, afirmou à Reuters que imigrantes que recebem mandados administrativos ou ordens de remoção I-205 passaram por “pleno devido processo legal e uma ordem final de remoção emitida por um juiz de imigração”.
Essa divergência acentua a sensação de vulnerabilidade entre os somali-americanos, que esperavam que a Constituição oferecesse uma proteção mais robusta contra esse nível de interrogatório e ação arbitrária. A questão central permanece: se as operações são legítimas medidas de aplicação da lei ou se constituem uma forma de coação política.
Conclusão: Resiliência e Luta por Justiça em Meio à Incertidão
As batidas do ICE em Minneapolis revelam uma complexa intersecção entre a política migratória, o cenário eleitoral e os direitos civis de comunidades minoritárias. A mobilização da comunidade somali, com iniciativas que vão desde a ajuda jurídica até o engajamento eleitoral, demonstra uma forte resiliência diante da adversidade. O temor de que essas operações sejam uma tentativa de suprimir o comparecimento às urnas nas eleições futuras é um alerta para a integridade do processo democrático e para a proteção das liberdades individuais. A batalha em Minneapolis, portanto, não é apenas por direitos de imigração, mas pela garantia de que todas as vozes sejam ouvidas e respeitadas no panorama político americano.
Fonte: https://g1.globo.com

