A região da Alta Mogiana, em Franca (SP), tradicionalmente reconhecida pela excelência de seu café, está presenciando uma transformação significativa em suas práticas agrícolas. Longe dos monocultivos convencionais, produtores locais demonstram que é possível aliar alta qualidade a um profundo respeito pelo meio ambiente. Por meio de sistemas agroflorestais e da produção orgânica em larga escala, a região aponta novos e promissores caminhos para uma cafeicultura verdadeiramente sustentável.

A Agrofloresta: Um Retorno às Raízes Naturais do Café

Em Patrocínio Paulista (SP), o Sítio Santa Terra se destaca como um case exemplar da agrofloresta. Uma área outrora degradada foi revitalizada e hoje abriga um ecossistema produtivo onde o café prospera em harmonia com dezenas de outras espécies. Este modelo, que se inspira em práticas ancestrais e na observação meticulosa da natureza, reproduz os complexos processos de uma floresta, oferecendo um ambiente ideal para o cultivo do grão.

Conforme explica o agricultor Anderson Arcanjoleto, o café, originário das regiões sombrias da Etiópia, beneficia-se enormemente da luz filtrada e da proteção oferecida por árvores companheiras. O sistema agroflorestal vai além da simples diversidade: ele cria um microclima equilibrado, onde espécies como banana, eucalipto, leguminosas, jatobá, jequitibá, guanandi, amora e pitanga desempenham funções vitais. Essas plantas contribuem para o enriquecimento do solo, a manutenção da umidade e a atração de organismos benéficos, resultando em um cultivo que dispensa totalmente o uso de agrotóxicos, fertilizantes químicos e, inclusive, irrigação.

Qualidade Superior e Impacto Além da Lavoura

Os resultados do modelo agroflorestal do Sítio Santa Terra transcendem a sustentabilidade ambiental. A qualidade do café produzido é notável, com 97% da colheita sendo classificada como café especial. Mesmo os lotes com pontuação inferior superam os 84 pontos, um patamar elevado para cafés de alta qualidade. Essa diversificação de espécies também oferece uma importante segurança econômica aos pequenos agricultores, que não dependem exclusivamente de uma única cultura e iniciam a safra sem a necessidade de adquirir insumos externos.

O sucesso do sítio transformou-o em um centro de referência. A proprietária Angélica Martins Fassirolli detalha que o espaço atrai turistas, estudantes e produtores, oferecendo visitas, vivências e cursos focados em agrofloresta e educação ambiental. Esses programas não apenas promovem a conscientização, mas também capacitam outros produtores a replicar o sistema, expandindo o impacto do Sítio Santa Terra muito além de seus limites físicos e consolidando-o como um polo de conhecimento e inovação na cafeicultura regional.

Orgânico em Grande Escala: Uma Fazenda Centenária como Pioneira

Em Franca, a abordagem sustentável se manifesta em outra dimensão: uma fazenda centenária que se destaca por ser uma das maiores áreas de café orgânico da região. Com 120 hectares e quase meio milhão de pés de café, a propriedade cultiva grãos especiais sem qualquer uso de agrotóxicos, fertilizantes sintéticos ou sementes transgênicas, demonstrando a viabilidade do orgânico em larga escala.

Administrada por Gustavo Leonel, representante da terceira geração da família, a fazenda passa por rigorosas auditorias e certificações que atestam a conformidade com os protocolos ambientais. Como Gustavo Leonel enfatiza, a certificação garante que o café nunca teve contato com agroquímicos, refletindo um compromisso com a conservação do solo, da planta e da água. O cuidado com esses recursos e com a vegetação nativa é uma prática arraigada na história da fazenda, antecedendo até mesmo a oficialização da certificação, e hoje representa um desafio constante para a manutenção da produção orgânica em tal magnitude.

Um Horizonte de Inovação e Sustentabilidade para a Alta Mogiana

Os exemplos do Sítio Santa Terra e da fazenda centenária em Franca ilustram a diversidade de abordagens para uma cafeicultura sustentável na Alta Mogiana. Seja através da reinvenção de paisagens pela agrofloresta ou da gestão orgânica de vastas plantações, a região reafirma seu papel de vanguarda, não apenas na produção de cafés especiais, mas também na promoção de um modelo agrícola que valoriza o equilíbrio ecológico e a resiliência econômica.

Essas iniciativas demonstram que é possível conciliar produtividade com conservação, inspirando outros produtores e consolidando a Alta Mogiana como um celeiro de inovação e um farol para o futuro do café no Brasil e no mundo. O caminho do plantio à xícara se transforma, revelando não apenas um produto de qualidade superior, mas uma história de respeito e harmonia com a terra.

Fonte: https://g1.globo.com

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