O setor sucroenergético do Centro-Sul do Brasil foi surpreendido pelo anúncio do pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, gigante do açúcar, etanol e distribuição de combustíveis. Com uma dívida que soma expressivos R$ 65,1 bilhões, a medida gerou um clima de apreensão entre os mais de mil produtores independentes de cana-de-açúcar, especialmente com a proximidade do início da nova safra.
O Vulto da Raízen e o Medo dos Fornecedores
A Raízen detém uma posição estratégica no agronegócio nacional, sendo responsável pelo processamento de mais de 70 milhões de toneladas de cana anualmente, volume que representa cerca de 10% da produção total do Centro-Sul. Desse montante, uma parcela significativa, 35 milhões de toneladas, é fornecida por produtores parceiros. Este cenário torna a saúde financeira da empresa um fator crucial para a estabilidade de uma vasta cadeia de suprimentos.
Conforme dados da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), a solicitação de renegociação de dívidas fora do âmbito judicial, um acordo direto com credores para alongar prazos ou obter melhores condições de pagamento, despertou um imediato sinal de alerta. Apesar das garantias da empresa de que suas obrigações com fornecedores não seriam afetadas, o CEO da Orplana, José Guilherme Nogueira, enfatiza que a cautela predomina no campo.
Impactos Imediatos e a Incerteza Contratual
A principal preocupação dos produtores reside em potenciais atrasos nos pagamentos ou na necessidade de renegociar termos contratuais. A possibilidade de uma redução na moagem de cana ou, em um cenário mais extremo, o fechamento de unidades, são fantasmas que rondam o planejamento da próxima safra. Tal incerteza leva os produtores a reconsiderarem a extensão de contratos de fornecimento de longo prazo com a Raízen, adotando uma postura mais conservadora até que a situação se estabilize.
O Fantasma da Recuperação Judicial no Meio da Safra
Um dos pontos de maior apreensão, segundo Nogueira, é o risco de a recuperação extrajudicial evoluir para uma recuperação judicial. Este processo, que implica intervenção da Justiça para reorganizar as dívidas da empresa e suspender cobranças, representaria um momento de alta tensão para os produtores. A preocupação é que essa transição ocorra em um período crítico, como o meio da safra 2026/27, que se inicia em abril, gerando um ambiente de instabilidade ainda maior.
Desafios Adicionais para a Safra 2026/27
Paralelamente à crise da Raízen, os produtores de cana enfrentam um cenário de desafios múltiplos para a safra 2026/27. Projeções da consultoria agrícola Datagro indicam um volume de 635 milhões de toneladas no Centro-Sul, um aumento em relação aos 610 milhões de toneladas da safra atual. Este crescimento, no entanto, é atribuído principalmente à recuperação da produtividade em função de chuvas mais regulares no final do ano passado e início deste, e não a uma expansão de área cultivada.
Contudo, os custos de produção experimentaram um aumento significativo de 25% na comparação com a safra anterior. Fatores como a valorização de fertilizantes nitrogenados, impactada por conflitos no Oriente Médio, e o preço do diesel, elevam consideravelmente as despesas dos produtores. Além disso, a estagnação do preço do açúcar no mercado internacional desestimula investimentos em adubação e expansão, levando os produtores a adotarem uma postura de retração e cautela em relação a novos aportes.
Vigilância e Perspectivas do Setor
A situação da Raízen, somada ao aumento dos custos de produção e à instabilidade do mercado internacional de açúcar, configura um momento de grande vulnerabilidade para os produtores de cana-de-açúcar. A vigilância sobre o desenrolar da recuperação extrajudicial é constante, assim como a busca por estratégias que minimizem os riscos. O setor aguarda com expectativa os próximos passos da Raízen e as possíveis reconfigurações nas relações comerciais, em um esforço contínuo para garantir a estabilidade e a sustentabilidade da produção.
Fonte: https://g1.globo.com

