A cidade de Ribeirão Preto (SP) está no centro de uma controvérsia envolvendo a Divisão de Bem-Estar Animal (DBEA) da prefeitura. A cachorra Lilica, resgatada recentemente por policiais civis e agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) após uma denúncia de maus-tratos, desapareceu das dependências do órgão. O incidente provocou uma onda de indignação por parte da família que tutelava o animal, que agora exige respostas claras e responsabilização da administração pública.
O Resgate e as Controvérsias da Acusação de Maus-Tratos
Lilica vivia em um condomínio na zona Norte de Ribeirão Preto com seu tutor, Thallison Henrique Soares da Silva. Em meados de março, imagens capturadas por moradores circularam, mostrando Thallison agredindo os animais no pátio do residencial, incluindo chutes e arremessos. Diante da repercussão, uma denúncia de maus-tratos foi formalizada, levando ao resgate da cachorra na última quinta-feira.
Em depoimento à delegacia, Thallison Henrique Soares da Silva defendeu-se, alegando que sua intenção era apenas separar uma briga entre as duas cachorras que possuía. Segundo ele, as mordidas durante a tentativa de separação o teriam levado a soltar e pegar os animais de forma abrupta. O tutor afirmou, ainda, que uma visita policial ao seu apartamento não identificou qualquer sinal de maus-tratos, reforçando que as cachorras recebiam cuidados como alimentação, tosa mensal e acompanhamento veterinário.
Contudo, a versão de Thallison é contestada pela Polícia Civil. O delegado seccional Sebastião Piccinato afirmou que, embora o vídeo pudesse ter iniciado com uma briga entre os animais, as ações subsequentes do tutor configuram agressão. Segundo Piccinato, os chutes e o arremesso contra o solo são indicativos claros de conduta de maus-tratos, caracterizando um excesso desnecessário e típico de quem inflige sofrimento a animais.
A Fuga Inexplicável da Divisão de Bem-Estar Animal
Após serem resgatadas, as duas cachorras foram encaminhadas à Divisão de Bem-Estar Animal (DBEA) da Prefeitura de Ribeirão Preto, onde deveriam receber atendimento veterinário, conforme o protocolo para casos de denúncia. No entanto, horas depois de sua chegada, Lilica conseguiu escapar das instalações. As circunstâncias exatas da fuga não foram detalhadas pela prefeitura, gerando um vácuo de informações sobre o ocorrido.
A família tutora de Lilica expressou profunda revolta e preocupação com o desaparecimento. Lorraine, integrante da família, criticou a administração pública pela falta de comunicação e pela negligência que levou à fuga. A família alega não ter sido notificada oficialmente sobre o incidente, tendo tomado conhecimento da fuga através de um jornalista. A principal preocupação reside na segurança de Lilica, com o receio de que possa sofrer um acidente grave na rua.
Busca Desesperada e Implicações Legais para a Prefeitura
Ciente da fuga de Lilica, Thallison, acompanhado de sua namorada e irmão, uniu-se a uma força-tarefa da DBEA e da GCM para procurar o animal no bairro Adelino Simioni. A operação de busca contou, inclusive, com o uso de um drone na tentativa de localizar a cachorra, porém, até o momento da última atualização da matéria, Lilica não havia sido encontrada.
A situação do desaparecimento de Lilica após o resgate levanta sérias questões sobre a responsabilidade da Prefeitura de Ribeirão Preto. Fabíola Coelho, presidente da Comissão de Direito Animal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Ribeirão Preto, classificou a fuga como um fato gravíssimo. Ela enfatizou que, uma vez sob os cuidados da Divisão de Bem-Estar Animal, o órgão assume total responsabilidade pela segurança e bem-estar do animal, devendo responder por qualquer incidente ocorrido sob sua tutela.
A Defesa Familiar e o Contexto dos Acusados
A família de Thallison Henrique Soares da Silva reforça a tese de que o vídeo que motivou a denúncia de maus-tratos foi retirado de contexto. Jefferson Soares da Silva, irmão de Thallison, argumentou que a família possui um histórico de longa data de cuidado e respeito pelos animais, e que o incidente capturado pelas câmeras foi um 'fato isolado'. Ele lamentou o mal-entendido e afirmou que a família é a maior interessada em esclarecer a situação, descrevendo seu irmão como uma pessoa de boa índole e sempre bondosa com os animais.
Além disso, a família reitera a afirmação de Thallison de que os policiais, ao visitarem a residência, não detectaram qualquer evidência de maus-tratos, como a ausência de ração ou um local inadequado para os animais dormirem. Esta narrativa busca pintar um quadro de uma família que, apesar do vídeo polêmico, sempre se preocupou com a saúde e o conforto de seus pets, contrastando com a imagem de agressor.
Conclusão: Um Chamado à Transparência e Responsabilidade
O desaparecimento de Lilica da Divisão de Bem-Estar Animal de Ribeirão Preto, após um resgate motivado por denúncias de maus-tratos, transformou-se em um caso emblemático. A situação expõe a fragilidade dos protocolos de segurança do órgão público e a necessidade de maior transparência e comunicação com os envolvidos. Enquanto a cachorra permanece desaparecida, a família clama por respostas e responsabilização, e a comunidade espera que a Prefeitura de Ribeirão Preto assuma sua responsabilidade integral para localizar Lilica e garantir que tais falhas não se repitam, reafirmando seu compromisso com a proteção animal.
Fonte: https://g1.globo.com

