Uma história que mobilizou a comunidade e as forças de bem-estar animal em Ribeirão Preto (SP) teve um desfecho positivo na noite da última quinta-feira. Lilica, uma cadela que havia sido recentemente resgatada de uma situação de maus-tratos, foi encontrada sã e salva após escapar das instalações da Divisão de Bem-Estar Animal (DBEA). Sua jornada, marcada por vulnerabilidade e uma inesperada fuga, ressalta a complexidade dos cuidados pós-resgate e a solidariedade da população.

O Resgate e a Inesperada Evasão do Abrigo

A saga de Lilica começou em 17 de março, quando moradores de um condomínio na zona Norte da cidade registraram cenas perturbadoras de maus-tratos. Thallison Henrique Soares da Silva, tutor da cadela na época, foi filmado desferindo chutes e arremessando duas cachorras contra o chão no pátio residencial. Após a denúncia e a repercussão das imagens, as autoridades agiram prontamente, realizando o resgate dos animais, que foram encaminhados à Divisão de Bem-Estar Animal para receber atendimento veterinário e os primeiros cuidados.

No entanto, poucas horas após ser acolhida pela DBEA, Lilica conseguiu escapar das instalações. O desaparecimento da cadela, que já estava em uma situação de fragilidade, gerou grande preocupação entre as equipes de resgate e mobilizou uma imediata força-tarefa em sua busca, temendo por sua segurança nas ruas de Ribeirão Preto.

A Busca Incansável e o Encontro Decisivo

A fuga de Lilica desencadeou uma operação de busca intensiva na região próxima à Divisão de Bem-Estar Animal. Equipes da própria DBEA e da Guarda Civil Metropolitana (GCM) se uniram na procura, que incluiu o uso de um drone para vasculhar áreas de difícil acesso. Surpreendentemente, até mesmo a família do ex-tutor, Thallison, juntou-se à força-tarefa, demonstrando preocupação com o paradeiro do animal.

O desfecho feliz veio na noite daquela mesma quinta-feira, quando a aposentada Reni Pereira Rosa avistou Lilica em uma rua do bairro Adelino Simioni. O local era, por coincidência, próximo ao condomínio onde a cadela vivia antes de seu primeiro resgate. Reni descreveu a experiência à EPTV, afiliada da TV Globo: 'Eu estava voltando do pilates e antes de chegar à avenida que sobe para o Simioni, ela ficou para trás, daí meu marido deu ré, fui lá, pegar ela, ela rosnou, entrou no meio do mato, eu entrei também e peguei por trás. Ela estava perdida, medrosa, não sabia para onde andava. Foi com jeitinho. Chamei ela pelo nome. Falei: 'vem, Lilica'. Daí ela ficou mais amável, e eu peguei ela'.

Após acolher Lilica em sua casa, Reni acionou a GCM, que prontamente encaminhou a cadela de volta à DBEA para os cuidados veterinários necessários, garantindo que o animal recebesse toda a atenção após sua aventura.

O Contexto dos Maus-Tratos e as Implicações Legais

O incidente que levou ao resgate inicial de Lilica e da outra cadela é objeto de investigação. Thallison Henrique Soares da Silva foi encaminhado à delegacia para prestar depoimento, onde alegou que sua agressão visava separar uma briga entre os animais. No entanto, as imagens amplamente divulgadas e a análise das autoridades contradizem essa versão.

O delegado seccional Sebastião Piccinato foi enfático ao abordar o caso: 'A gente vê que tem um excesso, que embora os cães estivessem sido separados, a gente vê um ataque canino, posteriormente há uma agressão desnecessária. Chutes, arremesso contra o solo, isso é uma conduta típica de quem maltrata animal'. A declaração do delegado sublinha a gravidade da conduta e as implicações legais para casos de violência contra animais.

O Futuro de Lilica e a Polêmica da Tutela

Atualmente, Lilica permanece sob os cuidados da Divisão de Bem-Estar Animal, onde recebe acompanhamento veterinário e se recupera das recentes experiências. Contudo, o futuro da cadela ainda é incerto, pois não há uma definição clara sobre quem será seu tutor permanente. O caso levanta questões importantes sobre a responsabilidade no pós-resgate e a necessidade de garantir um lar seguro e amoroso para animais que já sofreram.

A fuga de Lilica também gerou críticas à administração pública por parte da família do ex-tutor. Thallison, após o sumiço do animal, expressou sua preocupação: 'Eu não consigo acreditar nisso, Deus me livre ela ser atropelada. Não sei nem o que eu faço'. Essa manifestação, apesar do histórico de maus-tratos, reflete a complexidade emocional e legal que cerca a tutela de animais em situações de vulnerabilidade.

A saga de Lilica, de vítima de maus-tratos a fugitiva e finalmente encontrada, sublinha não apenas a resiliência dos animais, mas também a importância da vigilância comunitária e da atuação das instituições na proteção e no bem-estar animal. O desfecho desta história aguarda a determinação de um lar seguro e amoroso para Lilica, que já enfrentou mais desafios do que muitos em sua curta vida, e serve como um lembrete constante da responsabilidade humana para com todas as criaturas.

Fonte: https://g1.globo.com

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