A história da ditadura militar no Brasil guarda em Ribeirão Preto (SP) um de seus capítulos mais pungentes, personificado na figura de Madre Maurina Borges da Silveira. Sua vida, dedicada à fé e à caridade no Lar Santana, no bairro Campos Elíseos, foi abruptamente alterada em 1969, quando se tornou alvo do regime por suposta colaboração com grupos de oposição. A saga de Madre Maurina transcendeu as paredes do convento, transformando-a em um símbolo perene de resistência, defesa dos direitos humanos e luta contra os arbítrios de um período sombrio.

O Refúgio da Resistência e o Engajamento da Religiosa

Natural de Minas Gerais e membro da Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição, Maurina Borges da Silveira assumiu a direção do Lar Santana em Ribeirão Preto no ano de 1969. Coincidindo com os anos mais repressivos da ditadura militar, o orfanato sob sua liderança tornou-se, inadvertidamente ou não, um ponto de apoio para a juventude engajada na resistência. Nesse ambiente, uma sala específica era utilizada para a confecção de jornais clandestinos e a realização de reuniões políticas.

Pesquisas, como a que embasou o trabalho 'Versões de Maurina: a trajetória de Maurina Borges da Silveira em narrativas literárias', indicam que a religiosa possuía conhecimento das atividades relacionadas à produção dos periódicos de oposição. Contudo, relatos da época sugerem que ela não estava ciente da atuação armada de integrantes da organização Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN), diferenciando seu engajamento de uma participação direta em atos de violência.

A Prisão, a Tortura e a Reação Inesperada da Igreja

Em novembro de 1969, após a detenção de membros do grupo de resistência, Madre Maurina foi presa por agentes da repressão. Acusada de subversão, a freira passou a ser investigada por suposta colaboração com organizações consideradas inimigas do regime. O período de encarceramento na Penitenciária de Tremembé expôs a religiosa a violências extremas, conforme ela própria denunciaria em cartas e depoimentos posteriores.

As sessões de tortura relatadas pela religiosa incluíam choques elétricos, ameaças psicológicas, humilhações e assédio durante os interrogatórios. A brutalidade do caso alcançou repercussão nacional e provocou uma reação sem precedentes da Igreja Católica. Em Ribeirão Preto, o então arcebispo Dom Felício da Cunha Vasconcelos tomou a drástica decisão de excomungar publicamente os dois delegados apontados como responsáveis pelas atrocidades sofridas pela freira. Este episódio é considerado um marco na mudança de postura de setores da Igreja, que, a partir de então, intensificaram as denúncias contra as violações dos direitos humanos cometidas pelo regime militar.

Do Exílio ao Triunfo da Justiça

Em 1970, o destino de Madre Maurina foi selado por um evento de grande visibilidade política: ela foi incluída na lista de presos políticos libertados em troca do cônsul japonês Nobuo Okuchi, que havia sido sequestrado por grupos de resistência armada. Como consequência, a religiosa foi enviada para o México, onde permaneceu em exílio forçado por quatorze anos, longe de sua pátria e de sua comunidade religiosa.

Seu primeiro retorno ao Brasil ocorreu em 1979, motivado pelo acompanhamento do processo judicial que resultaria em sua absolvição, por falta de provas, demonstrando a injustiça das acusações. O retorno definitivo à sua vida religiosa e ao país aconteceu somente em 1984, ano em que a anistia já permitia a plena reintegração de perseguidos políticos. Madre Maurina seguiu sua missão de fé e caridade até seu falecimento, em 2011, aos 84 anos, deixando um legado inestimável de coragem e integridade.

Memória Viva: O Legado de Madre Maurina e o Futuro do Lar Santana

Mais de uma década após sua desativação, o antigo Lar Santana, que abrigou a freira e serviu de palco para a resistência, exibe atualmente claros sinais de abandono. Salas, corredores e áreas externas sofrem com a deterioração causada pelo tempo e pela ausência de uso. No entanto, apesar do estado físico precário, o imóvel permanece como um dos principais e mais potentes símbolos da memória da ditadura militar em Ribeirão Preto, testemunha silenciosa da luta de Madre Maurina.

Recentemente, o prédio foi ocupado por diversos grupos defensores da preservação da história dos perseguidos políticos. A iniciativa visa transformar o antigo orfanato em um espaço de memória vibrante, dedicado às vítimas da repressão e, de forma central, à trajetória singular de Madre Maurina. Essa proposta busca assegurar que a história da freira e de tantos outros que resistiram não seja esquecida, mantendo viva a chama da memória e alertando as futuras gerações sobre a importância da defesa intransigente da liberdade e dos direitos humanos.

Fonte: https://g1.globo.com

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