Com a intensificação das temperaturas durante o verão japonês, o governo metropolitano de Tóquio lançou uma iniciativa ambiciosa para aliviar o desconforto térmico dos trabalhadores. Liderada pela governadora Yuriko Koike, a campanha 'Tokyo Cool Biz' de 2024 expandiu o conceito de vestuário casual no ambiente corporativo, introduzindo uma mudança notável: a permissão para que homens usem bermudas no escritório. O objetivo principal é proporcionar maior conforto e combater o calor implacável, ao mesmo tempo em que se busca a economia de energia. No entanto, o que parecia uma solução prática para o clima tem gerado um inesperado debate social e cultural, revelando as complexidades das normas de etiqueta e das percepções de gênero no Japão.
A Iniciativa 'Cool Biz' e a Flexibilização do Traje Formal
A campanha 'Tokyo Cool Biz', reeditada anualmente, visa romper com o tradicional traje formal de terno e gravata, que domina o ambiente corporativo japonês. Em abril, a governadora Koike chancelou oficialmente o uso de camisetas, tênis e, pela primeira vez de forma mais ampla, bermudas. Essa medida busca oferecer aos trabalhadores mais opções de vestuário que proporcionem alívio em meio ao calor intenso, promovendo um ambiente de trabalho mais confortável e, consequentemente, reduzindo a necessidade de refrigeração excessiva dos edifícios.
O 'Sunehara': Um Novo Termo para um Velho Desconforto
Apesar da intenção de conforto, a política de bermudas tem polarizado a opinião pública. Enquanto muitos homens e algumas mulheres celebram a flexibilidade e o bem-estar proporcionados pelas novas regras, um segmento significativo, majoritariamente feminino, expressa insatisfação. A crítica central reside na percepção de que a medida é injusta: mulheres ainda são socialmente pressionadas a usar meias-calças ou outros acessórios que cubram as pernas, mesmo em dias quentes, enquanto a liberdade de vestuário masculino é ampliada. Esse desequilíbrio levou à cunhagem do termo 'sunehara', uma fusão de 'sune' (pernas) e 'harassment' (assédio), que descreve o desconforto sentido por algumas mulheres ao serem 'obrigadas' a visualizar os pelos das pernas de seus colegas homens.
Noboru Watanabe, funcionário da área ambiental do governo metropolitano de Tóquio, defende a iniciativa, enfatizando que o objetivo é 'oferecer mais opções, não ditar o que as pessoas devem vestir'. Para ele, a aceitabilidade do vestuário deve ser baseada na ausência de ofensas, uma linha tênue que o 'sunehara' parece ter cruzado para alguns.
Estética, Pesquisas e a Pressão por Depilação Masculina
Uma pesquisa realizada em junho pela Gorilla Clinic, especializada em tratamentos estéticos, corroborou a divisão de opiniões: 53,5% dos entrevistados se opuseram ao uso de bermudas no trabalho, contra 46,5% que apoiaram. O motivo mais citado para a oposição, tanto por homens quanto por mulheres, foi a preocupação com a 'aparência do corpo e dos pelos'. A clínica destacou que a resistência feminina foi particularmente notável, sugerindo uma maior aversão à exposição dos pelos masculinos em um ambiente profissional.
Embora o Japão tenha visto uma crescente informalização do vestuário corporativo nos últimos anos, especialmente em setores como tecnologia, a chancela governamental legitimou essa tendência. Paradoxalmente, a nova liberdade de usar bermudas gerou uma pressão estética inesperada para alguns homens, que passaram a sentir-se constrangidos com os pelos das pernas. Akifumi Funatsu, diretor da Gorilla Clinic, observou um aumento na procura por depilação a laser entre homens, motivados não apenas por razões estéticas pessoais, mas também por uma 'etiqueta social ao usar bermudas', buscando evitar o desconforto alheio.
Um Histórico de Adaptação: As Campanhas Contra o Calor
A política 'Cool Biz' não é nova no Japão. Sua origem remonta a 2005, quando Yuriko Koike, então Ministra do Meio Ambiente, lançou uma campanha nacional para economia de energia, incentivando o uso de camisas de manga curta. A iniciativa ganhou força com o apoio de líderes governamentais, como o então primeiro-ministro Junichiro Koizumi, frequentemente visto sem gravata, o que ajudou a normalizar o estilo mais casual.
Anos depois, em resposta ao terremoto e tsunami de Tohoku em 2011, o governo japonês ampliou o escopo das recomendações com a campanha 'Super Cool Biz'. Essa evolução visava promover uma redução ainda maior no consumo de energia, tanto no ambiente de trabalho quanto em casa, demonstrando a adaptabilidade e a resiliência do país diante de crises e desafios climáticos.
Japão Diante do Calor Extremo: Urgência e Inovação
O contexto atual das discussões sobre vestuário é a realidade alarmante de temperaturas recordes que o Japão, assim como outras nações, tem enfrentado. Agravado pelos crescentes preços da energia, impulsionados pela instabilidade global, o calor extremo tornou-se uma preocupação nacional. A Agência Meteorológica do Japão, inclusive, popularizou o termo 'kokusho-bi' ('dia de calor extremo') para alertar a população quando as temperaturas superam os 40°C.
As consequências do calor são severas: dados recentes da Agência de Gestão de Incêndios e Desastres revelaram que, em apenas uma semana de julho, sete pessoas morreram de insolação e 4.580 foram hospitalizadas. Essa urgência tem levado os moradores a adotar, além das recomendações básicas de hidratação e uso de ar-condicionado, uma série de produtos e tecnologias inovadoras, como roupas com ventiladores embutidos, toalhas umedecidas descartáveis, guarda-chuvas com proteção UV e ventiladores portáteis, que se tornaram itens essenciais no cotidiano japonês.
Nesse cenário, especialistas da Rede Acadêmica Japonesa para Redução de Desastres sublinham a importância da aclimatação ao calor, um processo que o corpo leva várias semanas para completar, ressaltando que a adaptação não é apenas tecnológica, mas também fisiológica e cultural.
A campanha para incentivar o uso de bermudas no trabalho no Japão ilustra a complexa interseção entre a necessidade prática de adaptação climática, as normas culturais enraizadas e as expectativas sociais. O que surge como uma solução para o conforto térmico e a economia de energia, paradoxalmente, gera debates sobre equidade de gênero, etiqueta e padrões estéticos. O 'sunehara' é um sintoma de como políticas bem-intencionadas podem desenterrar tensões sociais e culturais mais profundas, desafiando o Japão a encontrar um equilíbrio entre o pragmatismo moderno e as tradições que definem sua sociedade.
Fonte: https://g1.globo.com

