O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou o relatório final sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), ocorrida em agosto de 2024, que resultou na morte de 62 pessoas. O documento minucioso detalha uma complexa rede de eventos e decisões que culminaram na tragédia. Ao todo, 19 pontos foram considerados no relatório, sendo que 15 deles foram categorizados como fatores que contribuíram diretamente para o acidente, enquanto outros quatro foram identificados como possíveis contribuintes, mas sem uma conclusão definitiva nas apurações.
A Cultura de Normalização de Desvios na Empresa
Uma das revelações mais contundentes do Cenipa é a existência de uma "cultura de normalização de desvios" na Voepass. O tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado, afirmou que uma análise de 1.206 voos da companhia no ano anterior à queda corroborou essa constatação. Essa cultura, que abrange a cultura do grupo de trabalho, cultura organizacional, processos organizacionais e supervisão gerencial, foi um fator contribuinte crucial, indicando que falhas e não conformidades eram toleradas ou se tornavam rotineiras, impactando a segurança operacional da empresa como um todo.
Falhas Críticas na Cabine de Comando
O relatório aprofundou-se nas ações da tripulação, identificando diversas deficiências que contribuíram para o desfecho fatal. A "atenção" dos pilotos foi comprometida por conversas não relacionadas ao controle da aeronave, resultando em uma perda de foco nos avisos críticos e no acúmulo de gelo. Esse fenômeno é descrito como "cegueira por desatenção", onde o perigo é visível, mas não percebido pelo cérebro devido à distração. A "atitude" da tripulação também foi questionada, pois, apesar de conhecerem as falhas no sistema de degelo das asas e a previsão de gelo severo, optaram por manter o plano de voo original, desrespeitando normas de segurança e expondo a aeronave a um risco inaceitável. Quando o alerta de estol (perda de sustentação) disparou, a "aplicação dos comandos" foi equivocada, com os pilotos puxando o nariz da aeronave para cima, agravando a situação em vez de corrigi-la. A "coordenação de cabine" foi considerada ineficiente, marcada por gerenciamento inadequado de tarefas, falha na comunicação e inobservância de procedimentos operacionais.
Condições Meteorológicas Adversas e Deficiências da Aeronave
As condições meteorológicas desempenharam um papel significativo, configurando um cenário desfavorável. A exposição prolongada a gelo severo comprometeu drasticamente a performance da aeronave. Além disso, a "manutenção da aeronave" foi apontada como um fator contribuinte, já que o avião apresentava um erro no limpador de para-brisa. Segundo o Cenipa, essa falha deveria ter impedido a aeronave de decolar em condições com previsão de chuva, evidenciando uma falha grave na avaliação pré-voo e na conformidade com os padrões de segurança. A interação entre as condições ambientais e a falha do equipamento criou um ambiente operacional ainda mais arriscado.
Aspectos Indeterminados e o Papel da Fiscalização
Entre os fatores que o Cenipa não conseguiu determinar com certeza, mas que podem ter contribuído, estão a "capacitação e treinamento" dos pilotos, o "estado emocional" da tripulação, "influências externas" e o "projeto" da aeronave. Embora os pilotos tivessem recebido todos os treinamentos obrigatórios, incluindo procedimentos para voo em gelo e recuperação de emergência, suas ações durante a crise não corresponderam ao esperado de profissionais treinados. O relatório também criticou a "atuação da Anac" (Agência Nacional de Aviação Civil), apontando-a como um fator contribuinte para o acidente, indicando falhas na fiscalização e supervisão regulatória da empresa aérea.
Repercussões e Respostas Oficiais
A Voepass, em comunicado, classificou o acidente como o evento mais grave de sua história, reafirmando o apoio às famílias das vítimas e a colaboração transparente com as investigações. A Anac, por sua vez, declarou que realizará uma análise técnica detalhada das recomendações apresentadas pelo Cenipa. O relatório, ao expor uma combinação de falhas humanas, operacionais e regulatórias, sublinha a complexidade dos acidentes aéreos e a imperatividade de um sistema de segurança robusto e vigilante em todas as suas camadas.
Fonte: https://g1.globo.com

