Três semanas se passaram desde que um vendaval com ventos de até 160 km/h atingiu Ribeirão Preto (SP) e região, deixando um rastro de destruição. Para Claudete da Silva e José Valter Pereira, ambos de 71 anos, o tempo não trouxe alívio, mas sim a árdua tarefa de tentar reerguer o que sobrou de sua casa. O casal de aposentados, que viu seu imóvel ser parcialmente destruído pela queda de uma árvore, enfrenta agora não apenas os danos físicos da residência, mas também a exaustão financeira e emocional de um recomeço inesperado, em meio a um cenário de calamidade que afetou milhares na cidade e arredores.
A Luta Pessoal Pela Reconstrução do Lar
No Jardim Jóquei Clube, Zona Norte de Ribeirão Preto, a residência de Claudete e José Valter é um testemunho silencioso da fúria do temporal de 24 de julho. Com parte do teto arrancada e visíveis rachaduras estruturais, o imóvel tornou-se inabitável, forçando o casal a buscar refúgio improvisado no próprio carro nos dias seguintes ao desastre. Embora um pedreiro tenha iniciado os trabalhos de recuperação, a limitação da aposentadoria tem sido um entrave intransponível para a continuidade da reforma, especialmente a do telhado, deixando o futuro do lar em suspenso.
José Valter expressa a angústia que consome o casal. "A gente nem dorme direito, né? A gente dorme um pouquinho, acorda nervoso, estressado. Eu tenho problema de coração, né, já tive infarto. E eu não tinha condições de fazer de novo. Que nós vai fazer agora?", questiona, evidenciando o profundo abalo psicológico. Claudete reforça a frustração de ver a moradia, construída com o esforço de uma vida inteira, ameaçada por um evento natural, e a insuficiência dos rendimentos para arcar com os custos de um reparo tão vultoso.
Desafios na Limpeza Urbana e Resposta Municipal
Além dos problemas internos da casa, o casal também se deparou com a persistência de galhos e troncos de árvores caídos nas imediações de sua residência, mesmo semanas após o incidente. Essa demora na remoção do entulho externo, conforme relato de Claudete, somava-se à sensação de desamparo. Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Ribeirão Preto informou que os serviços de limpeza na rua da família de Claudete e José Valter foram iniciados e a expectativa era de que a remoção completa do material seria concluída até a sexta-feira seguinte à reclamação.
Ribeirão Preto Sob o Olhar da Calamidade
O vendaval da madrugada de 24 de julho não poupou Ribeirão Preto, gerando um cenário de calamidade generalizada que extrapolou a tragédia individual do casal. A tempestade resultou na morte de um homem de 75 anos, vítima do desabamento de um galpão sobre sua casa, e causou danos estruturais massivos. A cidade contabilizou a queda de 1.300 árvores, bloqueando importantes vias como as avenidas Nove de Julho, Dom Pedro – onde um pórtico colapsou sobre um veículo de aplicativo – e Francisco Junqueira.
O impacto social foi igualmente severo: 1.800 pessoas foram desalojadas e 12 ficaram desabrigadas. Adicionalmente, o Centro Pop, unidade de assistência social fundamental para o município, foi completamente destruído, comprometendo os serviços de apoio a populações vulneráveis. A dimensão dos prejuízos se estendeu também ao setor produtivo, com um produtor de amendoim estimando perdas em R$ 35 milhões.
Impacto Regional e Esforços de Apoio Governamental
A onda de destruição se espalhou além dos limites de Ribeirão Preto, atingindo pelo menos outras cinco cidades na região: Guariba, Taquaritinga, Pradópolis, Barrinha e Dumont. Em Dumont, o prefeito chegou a descrever o quadro como um "cenário de guerra" tamanha a devastação. Diante da magnitude dos estragos, os governos estadual e federal prontamente confirmaram apoio financeiro para auxiliar na reconstrução das áreas afetadas. Uma das medidas imediatas para mitigar o sofrimento das famílias foi a liberação do saque calamidade do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), oferecendo um respiro financeiro para aqueles que tiveram seus bens comprometidos.
Enquanto as estruturas da cidade são gradualmente restabelecidas e os esforços de recuperação avançam em nível macro, a realidade de Claudete e José Valter reflete a persistência de uma crise que vai além dos números. Sua casa, um símbolo de uma vida de trabalho, permanece um canteiro de obras paralisado, ecoando a necessidade contínua de apoio e solidariedade para que os afetados possam, de fato, virar a página e reconstruir não apenas suas moradias, mas também a tranquilidade e a segurança perdidas no vendaval.
Fonte: https://g1.globo.com

