À medida que um memorando de entendimento de 60 dias para resolver o conflito entre Estados Unidos e Irã se aproxima do fim, Washington elevou o tom de suas ameaças, prometendo um isolamento econômico contra Teerã "como o mundo nunca viu". Essa escalada verbal, proferida pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, sinaliza um endurecimento drástico da postura americana, especialmente em relação ao estratégico Estreito de Ormuz, fundamental para o comércio global de petróleo.

A retórica assertiva surge em um momento de crescente tensão, com o conflito, iniciado no final de fevereiro após uma ofensiva de Israel e dos Estados Unidos contra a República Islâmica, completando quase seis meses. A nova estratégia americana parece focar em uma asfixia financeira e um bloqueio físico para forçar o Irã a ceder.

A Nova Estratégia de Washington: Bloqueio e Asfixia

Scott Bessent detalhou que a combinação de medidas inclui um bloqueio contínuo no Estreito de Ormuz, o que "impedirá que qualquer coisa entre ou saia dos portos iranianos". Essa abordagem contrasta nitidamente com declarações anteriores do próprio secretário, que, no início de agosto, chegou a mencionar um acordo "iminente" com Teerã para reabrir a passagem vital. O presidente Donald Trump também havia expressado otimismo, afirmando que o Irã desejava um acordo.

A brusca mudança de postura em poucos dias pegou o mercado de surpresa. As falas iniciais de distensão haviam provocado uma alta em Wall Street e a queda dos preços do petróleo, reflexo da esperança em uma resolução. Contudo, o atual endurecimento das ameaças reflete a estagnação das negociações e a crescente frustração de Washington.

Do Protocolo de Acordo à Impasse Total

A trajetória das negociações recentes tem sido marcada por reviravoltas. Em meados de junho, Teerã e Washington chegaram a assinar um protocolo de acordo, mas este "implodiu" no início de julho. Desde então, o governo Trump enfrenta dificuldades em encontrar uma solução diante das exigências iranianas, que são consideradas drásticas pelos EUA. Inicialmente, Trump havia condicionado qualquer acordo à abertura "completa e total" de Ormuz e ao "fim da ameaça nuclear iraniana".

Contudo, a recente declaração de Bessent sugere que a prioridade mudou para uma abordagem baseada na pressão econômica. Essa tática de "sofrimento econômico" é vista como o caminho para levar o Irã a ceder, agora que a via diplomática parece paralisada, relegando temporariamente as preocupações com o programa nuclear iraniano a um segundo plano imediato.

O Estreito de Ormuz: Ponto Central da Contenda

O Estreito de Ormuz, por onde transitavam aproximadamente 20% do petróleo mundial antes do início do conflito, permanece como o principal foco de divergência. Atualmente, a passagem está fechada pelo Irã, que exige autorização para navios utilizarem a via e planeja impor taxas de serviço a longo prazo, propostas veementemente rejeitadas por Washington.

Apesar de as armas nucleares terem sido o motivo primordial para a intervenção militar dos EUA e Israel, a nova estratégia americana, conforme articulada pelo vice-presidente JD Vance, prioriza o abastecimento de petróleo e gás a preços acessíveis para os americanos, com a garantia de que o Irã nunca obtenha uma arma nuclear figurando como segundo objetivo.

Adoção de Modelos de Sanções Severas

Para ilustrar a severidade das sanções planejadas, Scott Bessent comparou a estratégia contra Teerã aos casos de Cuba e Venezuela. Ele afirmou que a Venezuela "entrou em colapso imediatamente" após a imposição de um bloqueio, indicando a intenção de replicar um impacto econômico similar no Irã. Essa analogia sublinha a intenção de aplicar uma pressão máxima para desestabilizar a economia iraniana e forçar uma mudança de comportamento.

A Resposta Iraniana: Acusações de "Cálculos Ruins"

Em resposta às ameaças americanas, o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, acusou os Estados Unidos de "cálculos ruins" e falhas de inteligência. Em uma declaração no X, Araghchi citou a guerra contra o Irã como um exemplo de erro de cálculo, e agora, o que ele descreve como um "erro de cálculo ainda mais grave sobre o Estreito de Ormuz". A retórica de Teerã sugere uma postura de desafio e uma subestimação da capacidade de resiliência iraniana por parte de Washington.

Com o prazo final do memorando se aproximando, a comunidade internacional observa com apreensão a escalada da tensão. A aposta dos EUA na pressão econômica extrema contra a determinação iraniana em manter o controle sobre o Estreito de Ormuz coloca o cenário regional em um patamar de incerteza sem precedentes, com potenciais repercussões globais para o comércio e a estabilidade.

Fonte: https://g1.globo.com

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