As gêmeas Heloísa e Helena, de apenas 2 anos e 7 meses, faleceram no último domingo (16) durante a cirurgia final para separação no Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto (SP). O trágico desfecho, divulgado em coletiva de imprensa nesta terça-feira (18), foi atribuído a uma severa instabilidade hemodinâmica, com uma das crianças apresentando hipotensão e a outra hipertensão, culminando em paradas cardiorrespiratórias sucessivas.
O Desfecho Crítico da Última Intervenção
A fase derradeira do complexo procedimento de separação, que se estendeu por 15 horas, foi marcada por desafios constantes. Conforme relatou o cirurgião plástico Jayme Farina Júnior, um dos coordenadores da equipe, diversas instabilidades foram contidas e revertidas ao longo da intervenção. Contudo, o momento crucial da separação completa, por volta das 23h, viu um agravamento incontrolável da condição das meninas.
Após a separação física, Helena foi a primeira a sofrer uma parada cardiorrespiratória. Apesar de todos os recursos mobilizados e do esforço incansável da equipe médica, a reversão não foi possível. Pouco tempo depois, Heloísa também apresentou o mesmo quadro, selando o destino de ambas. A complexidade da união craniana e a fragilidade dos organismos infantis tornaram a fase final da desconexão, que envolveu os últimos 25% de cérebro e vasos sanguíneos compartilhados, extremamente delicada, provocando um impacto sistêmico irreversível.
Uma Jornada de Separação em Etapas e Planejamento Inovador
A jornada de Heloísa e Helena em busca da individualidade começou em agosto do ano anterior, quando iniciaram um programa cirúrgico dividido em cinco etapas. A estratégia, meticulosamente planejada pela equipe do HC, visava mitigar riscos inerentes e preparar gradualmente as estruturas anatômicas compartilhadas. A primeira cirurgia alcançou 25% da separação, enquanto a segunda, em novembro, estendeu-se por cerca de dez horas.
Em fevereiro deste ano, na terceira intervenção, os médicos haviam conseguido separar aproximadamente 75% das conexões cerebrais e vasculares. A quarta etapa, realizada em março, teve um propósito específico: a instalação de bolsas expansoras sob o couro cabeludo. Esse procedimento era fundamental para gerar pele adicional, essencial para o fechamento adequado dos crânios após a separação definitiva, demonstrando o nível de detalhe e previsão envolvido no planejamento.
Para todas as etapas, a preparação foi exaustiva, durando mais de um ano e empregando tecnologias de ponta. Foram realizados exames detalhados como tomografias e ressonâncias magnéticas, além de projeções em realidade virtual e a impressão de modelos tridimensionais, permitindo à equipe um estudo aprofundado e uma simulação precisa de cada passo cirúrgico.
Precedentes e a Tradição de Excelência do Hospital das Clínicas
O caso de Heloísa e Helena representa o terceiro em que o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto assume o desafio de separar gêmeas craniópagas, termo médico para crianças unidas pela cabeça. Historicamente, o HC acumulava êxitos notáveis nessa área complexa.
Em 2018, as irmãs Maria Ysabelle e Maria Ysadora, provenientes do Ceará, foram separadas com sucesso após dois anos de acompanhamento e múltiplos procedimentos. Mais recentemente, em agosto de 2023, o hospital celebrou a separação definitiva de Alana e Mariah, em uma cirurgia final que durou impressionantes 25 horas. Em todos esses casos, a expertise da equipe e a aplicação de tecnologias avançadas de imagem e planejamento foram pilares cruciais para os resultados positivos, tornando este desfecho ainda mais doloroso e um lembrete da imprevisibilidade da medicina em seus limites mais desafiadores.
O corpo das meninas foi sepultado em São José dos Campos (SP), cidade natal da família. A comunidade médica e os familiares lamentam a perda, reconhecendo o empenho máximo de todos os envolvidos em uma batalha pela vida que, infelizmente, não pôde ser vencida desta vez.
Fonte: https://g1.globo.com

