A televisão aberta brasileira está à beira de uma revolução histórica. Prevista para iniciar suas operações em 2027, a TV 3.0 ambiciona fundir a robustez da radiodifusão tradicional com a interatividade e os vastos recursos das plataformas digitais e da internet. Este salto tecnológico, que promete redefinir a experiência televisiva, foi um dos principais tópicos de debate no painel “A Revolução da Televisão Aberta no Brasil: O Valor da Televisão em um Mundo Conectado”, realizado recentemente durante a SET Expo 2026, em São Paulo.
A Nova Era da Televisão Aberta e Seus Pilares Tecnológicos
A implantação da TV 3.0 no Brasil já está em estágio avançado, com seu módulo de transmissão definido pela moderna tecnologia ATSC 3.0. Conforme informado por Wilson Diniz, secretário de Serviços de Radiodifusão, mais de 10 mil conversores já foram comercializados, enquanto emissoras se preparam para iniciar as operações em importantes capitais como Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Salvador e Recife. Para catalisar essa transição, estão em andamento linhas de crédito subsidiadas que totalizam R$ 7 bilhões, projetando o início das transmissões para o começo de 2027. Esta transformação não se limita à qualidade de transmissão; ela propõe um repensar do modelo linear da televisão, integrando-o com a TV sob demanda, o satélite e a conectividade em múltiplas plataformas digitais.
Fundamentos Regulatórios e a Disputa por Audiência Conectada
A jornada para a TV 3.0 também foi marcada por significativas adequações regulatórias nos últimos anos. Diniz destacou a Lei 14.812, que expandiu o limite de outorgas por grupo, e a Lei 15.182, responsável por uma ampla desregulamentação do setor e pela eliminação de cerca de 4 mil a 5 mil processos burocráticos. Essas mudanças visam otimizar o ambiente para a inovação. No entanto, o setor enfrenta o desafio de garantir espaço nas televisões conectadas, onde, segundo Otávio Penna Pieranti, conselheiro-diretor da Anatel, fabricantes têm historicamente favorecido serviços via internet. Ele ressaltou a importância de as emissoras de TV aberta recuperarem seu protagonismo nesses dispositivos. Pieranti também enfatizou o papel crucial das emissoras locais, que, além de informar, geram empregos e fomentam o debate cultural em suas regiões, e assegurou que a regulamentação não será um entrave para a TV 3.0.
O Papel Social da Radiodifusão na Era da Desinformação
A discussão sobre o futuro da TV 3.0 transcende a tecnologia, alcançando a relevância social. Cristiano Flores, presidente executivo da ABERT, salientou a complexa relação entre televisão, internet e acesso à informação no Brasil. Com brasileiros gastando cerca de nove horas diárias na internet e o país apresentando baixos níveis de alfabetismo digital, a televisão aberta emerge como um vetor fundamental no combate à desinformação disseminada em escala industrial. Flores propôs três eixos estratégicos para o futuro do setor: a defesa da liberdade de expressão e o fortalecimento do jornalismo, incluindo a proteção de conteúdo frente à inteligência artificial; a criação de regras claras e não discriminatórias para a distribuição em plataformas digitais e TVs conectadas; e o pleno desenvolvimento da TV 3.0. Ele também defendeu que a comunicação brasileira seja reconhecida como uma “Indústria Nacional Estratégica”, apontando a fragmentação das políticas digitais governamentais como um obstáculo à implementação de uma política de Estado coesa.
Emissoras: De Produtoras de Conteúdo a Empresas de Tecnologia
A constante evolução do cenário midiático exigiu que as emissoras de televisão aberta se reinventassem, adaptando-se a transformações como o advento da TV por assinatura, das plataformas de streaming e das redes sociais. Samir Nobre, representante da ABRATEL, destacou que, nesse processo contínuo de adaptação, as próprias emissoras se tornaram, em essência, empresas de tecnologia. Essa mudança de paradigma reflete a necessidade de inovar não apenas no conteúdo, mas também na forma como ele é produzido, distribuído e consumido, abraçando a convergência digital para manter a relevância e o engajamento com o público em um ecossistema de mídia cada vez mais fragmentado e interativo.
A TV 3.0, portanto, não é apenas uma atualização tecnológica, mas um movimento estratégico para assegurar o futuro da radiodifusão brasileira. Ao integrar as capacidades da internet, ela promete entregar uma experiência mais rica e personalizada, ao mesmo tempo em que reafirma o papel vital da televisão aberta como fonte de informação confiável, entretenimento e catalisador de debate cultural. A partir de 2027, o Brasil se prepara para um novo capítulo na história da televisão, onde a tradição se encontra com a inovação para formar um modelo de comunicação verdadeiramente conectado e adaptado aos desafios e oportunidades do século XXI.
Fonte: https://olhardigital.com.br

