De Franca, interior de São Paulo, surge uma sonoridade que desafia fronteiras e conquista reconhecimento internacional. O rapper Matuto S.A., cujo nome de batismo é Vinicius Comparini, rompeu paradigmas musicais ao ser indicado ao Grammy Latino 2026. Seu álbum, "Terra Vermelha: Do interior pro interior", compete na prestigiosa categoria de Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa, colocando a cultura caipira em evidência no cenário global do hip hop.
A obra é um manifesto sonoro que traça pontes inesperadas entre o tradicional e o contemporâneo, a ruralidade e a urbanidade. Através de uma fusão autêntica, Matuto S.A. criou um estilo que ele próprio define como "regional beat", onde a palavra, a improvisação e a habilidade de narrar histórias se encontram para redefinir a identidade da música brasileira. Esta indicação é celebrada pelo artista como uma grande vitória, expressando a alegria de representar a riqueza cultural do interior.
A Gênese do "Regional Beat": Cururu e Batalhas de Rima
A essência da sonoridade de Matuto S.A. reside na descoberta de uma profunda conexão entre o cururu, manifestação secular da cultura caipira, e as batalhas de rap. Essa aproximação começou a ganhar forma durante as pesquisas do rapper, que se deparou com o cururu através do poeta francano Carlos de Assumpção. O cururu, praticado em diversas cidades do interior paulista, caracteriza-se por desafios cantados e versos improvisados, acompanhados pela viola caipira.
Para o artista, a dinâmica do cururu espelha diretamente as batalhas de rima do hip hop, onde MCs improvisam versos sobre bases rítmicas. Ambos os universos compartilham a espontaneidade lírica, a agilidade mental e a capacidade de tecer narrativas. Essa revelação foi crucial para Matuto S.A., que percebeu que, apesar das aparentes diferenças sonoras, a roça e a rua possuíam um terreno comum de expressão e disputa poética.
A Orquestra do Interior: Viola, Trompete e Influências Globais
O "regional beat" de Matuto S.A. vai além da fusão entre cururu e rap, incorporando uma rica tapeçaria instrumental e de gêneros. A sonoridade do álbum integra bases urbanas de hip hop com o timbre inconfundível da viola caipira. Contudo, outro instrumento desempenha um papel fundamental nessa construção: o trompete.
O interesse de Matuto pelo trompete surgiu da sua observação atenta a samples utilizados no rap, citando como exemplo clássicos como "Vida Loka, Parte 2", dos Racionais MC’s. A forte presença de metais no reggae também influenciou a decisão de incorporar o instrumento, que agora divide o palco e as gravações com as rimas e as referências caipiras, enriquecendo ainda mais a paleta sonora do projeto com elementos de jazz, samba e samba-rock.
De Tião Carreiro a Black Alien: As Inspirações Por Trás da Fusão
As referências que nutrem o trabalho de Matuto S.A. são tão diversas quanto a sonoridade de "Terra Vermelha: Do interior pro interior". No panteão da música caipira, o rapper se inspira em ícones como Tião Carreiro e Rolando Boldrin, que moldaram a identidade musical do interior brasileiro. Paralelamente, no universo do rap, uma das suas grandes influências é o renomado Black Alien, conhecido por sua lírica afiada e flow singular.
A pesquisa constante é uma prática inerente à formação dos MCs, segundo Matuto S.A., manifestando-se na busca por referências e samples de outros gêneros. Essa metodologia permitiu ao artista construir uma obra que honra suas raízes ao mesmo tempo em que dialoga com a vanguarda do hip hop, demonstrando que a música rap é, por sua própria natureza, um convite à exploração de diversos estilos, do jazz à black music brasileira.
O Caminho até o Grammy: Reconhecimento e Celebração
A jornada de "Terra Vermelha: Do interior pro interior" rumo ao Grammy Latino é um testemunho da dedicação e visão de Matuto S.A. Embora o artista esteja no cenário do hip hop há cerca de uma década, o projeto focado na fusão com a cultura regional começou a ser desenvolvido em 2023. A produção do álbum foi viabilizada em 2025, após a aprovação pelo Programa de Ação Cultural de São Paulo (ProAC), culminando no lançamento em 17 de março de 2026, data de aniversário do rapper.
Antes de ser nomeado para o Grammy Latino, o disco já havia conquistado destaque, sendo incluído em uma seleta lista da Billboard Brasil dos 50 melhores álbuns do primeiro semestre deste ano. A indicação ao Grammy coloca Matuto S.A. em uma categoria desafiadora, disputando o prêmio com nomes de peso como AJULLIACOSTA, Budah, Don L e Emicida. A cerimônia de premiação está agendada para 12 de novembro, em Las Vegas, nos Estados Unidos, marcando um momento histórico para a música brasileira e, em particular, para a representatividade do interior no cenário mundial.
Fonte: https://g1.globo.com

