Em Franca, interior de São Paulo, a história de Márcia Ferretto, de 57 anos, e seu filho Pedro, de 23, é um testemunho da força do amor incondicional e da resiliência humana. Pedro, um jovem vibrante que adora dançar, música e os passeios de fim de semana com amigos, vive uma rotina repleta de pequenos triunfos, cada um deles uma vitória para sua mãe. Nascido com um quadro de saúde complexo, que inclui microcefalia e a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), Pedro encontrou em Márcia não apenas um lar, mas uma incansável defensora de sua felicidade e bem-estar.

Apesar das limitações impostas por suas condições, que abrangem autismo severo, paralisia cerebral unilateral, epilepsia e atrofia cerebral, Pedro demonstra uma alegria contagiante. Sua jornada na vida é marcada por desafios constantes no desenvolvimento cognitivo e físico, que exigem cuidados médicos contínuos, medicação especializada e terapias diversas. Márcia, uma mãe solo, dedicou as últimas duas décadas à construção de um ambiente de suporte e afeto para o filho, transformando cada passo na vida de Pedro em um novo capítulo de sua própria história.

A Essência de Pedro: Rotina e Conquistas Diárias

Aos 23 anos, Pedro frequenta o segundo ano do ensino médio em uma escola estadual, um esforço que reflete a crença de Márcia na importância da socialização e da estimulação contínua. Embora não domine a leitura ou a escrita, ele se integra ao ambiente escolar com o apoio de um cuidador e de um Plano Educacional Individualizado (PEI), obtidos após batalhas judiciais. Fora da escola, suas tardes são preenchidas com projetos desenvolvidos especificamente para pessoas com deficiência, ampliando suas oportunidades de interação e aprendizado.

Em casa, Pedro auxilia Márcia nas tarefas domésticas, um sinal de sua independência crescente e da rotina estruturada que o beneficia. Sua predileção por pastel nos fins de semana e a paixão por ritmos musicais e dança revelam uma personalidade cativante e cheia de vida. Essas pequenas alegrias diárias são o combustível que impulsiona Márcia, que encontra na vivacidade do filho a recompensa por toda a dedicação e os sacrifícios.

A Decisão Transformadora: O Início de Uma Maternidade Atípica

Há 23 anos, Márcia Ferretto trilhava um caminho profissional distinto, como gerente de contas em uma multinacional. Sem filhos biológicos, mas com um profundo amor por crianças, ela dedicava seu tempo livre ao voluntariado em acolhimento temporário, prestando assistência a menores vítimas de abandono e maus-tratos. Foi nesse contexto que seu destino se cruzou com o de um bebê prematuro, filho de uma usuária de drogas, diagnosticado com microcefalia e outras complicações como a Síndrome Alcoólica Fetal.

A criança, que viria a ser Pedro, despertou em Márcia um senso de maternidade singular e imediato. Mesmo diante da gravidade e da complexidade de seu quadro de saúde, ela não hesitou em se habilitar para o processo de adoção. Sua intuição dizia que Pedro era especial, um presente divino. À medida que o tempo passava, Márcia desvendava novas facetas dos desafios de saúde de Pedro, incluindo crises de epilepsia, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD), assumindo com coragem cada nova descoberta.

Batalhas e Superações: A Luta Por Qualidade de Vida

A jornada de Márcia e Pedro tem sido marcada por incessantes batalhas. Muitos dos medicamentos de alto custo e as terapias especializadas essenciais para o desenvolvimento de Pedro foram garantidos apenas através de processos judiciais. Ela exemplifica a luta ao relatar o caso de um medicamento francês para epilepsia que, embora caro (cerca de R$ 6 mil por frasco, com Pedro utilizando dez por mês), era o único eficaz, e sua obtenção pela rede pública foi assegurada na Justiça.

Além dos desafios médicos, Márcia também precisou desenvolver estratégias para lidar com comportamentos específicos de Pedro, como momentos de agressividade que resultaram em cicatrizes físicas, e sua ausência de percepção de perigo. Ela relata incidentes como a vez em que Pedro, com a idade mental de uma criança de cinco anos, bateu os pés em um escorpião ou a propensão a entrar em piscinas sem dimensionar o risco, evidenciando a necessidade de vigilância constante e atenção redobrada.

A rotina de Márcia é exaustiva, oscilando entre os cuidados integrais com Pedro, as tarefas domésticas e a busca por estabilidade financeira, dependendo hoje do Benefício de Prestação Continuada (BPC) após o falecimento de sua mãe. Seus esforços para a aposentadoria se esbarram nas novas leis, adicionando mais uma camada de preocupação a um dia a dia já sobrecarregado. Para ela, a vida é uma corrida constante: levar Pedro à escola, cuidar da casa, buscá-lo e preparar o jantar, em um ciclo que se repete diariamente.

O Futuro e a Força de um Elo Indestrutível

Apesar de toda a resiliência e a alegria que Pedro traz para sua vida, Márcia vive com uma angústia constante: a preocupação com o futuro do filho quando ela não puder mais cuidar dele. O questionamento sobre quem terá a mesma paciência e o amor incondicional que ela dedica a Pedro é o seu maior medo, um reflexo do profundo vínculo que os une. Para Márcia, "eu respiro o Pedro; hoje eu não me vejo sem o Pedro", frase que encapsula a totalidade de sua entrega.

A história de Márcia e Pedro é um farol de esperança e inspiração, destacando a capacidade do amor de transcender as adversidades mais complexas. Ela ilustra que, mesmo diante de um caminho repleto de obstáculos, a força da dedicação materna e a celebração das pequenas vitórias podem construir uma vida plena de significado e afeto, pavimentando um legado de coragem e um elo verdadeiramente indestrutível.

Fonte: https://g1.globo.com

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