Há mais de meio século, os Estados Unidos travam uma 'guerra às drogas' iniciada por Richard Nixon em 1971, um esforço que, apesar de bilhões de dólares e inúmeras operações na América Latina, não conseguiu erradicar o mercado ilegal ou os cartéis. Agora, sob a administração de Donald Trump, essa campanha entra em uma fase distinta, marcada por uma escalada sem precedentes na militarização e uma retórica que redefine o combate ao narcotráfico, alinhando-o a objetivos geopolíticos mais amplos na região.
A Escalada Militar e a Repaginada da 'Guerra às Drogas'
A pesquisadora sênior da Brookings Institution, Vanda Felbab-Brown, especialista em economias ilícitas, aponta para uma 'militarização extrema e sem precedentes' como um dos pilares dessa nova era. Enquanto participações militares americanas na Colômbia já ocorreram historicamente, a diferença crucial agora reside na ausência de um foco em fortalecimento institucional, prioridade em gestões anteriores. A agenda atual, segundo Felbab-Brown, parece se desvincular de abordagens mais holísticas, mergulhando em um escopo puramente bélico e de projeção de força.
A Doutrina 'Donroe': Hegemonia e Ideologia Regional
O combate ao narcotráfico e ao crime organizado, para a administração Trump, transcende a mera repressão a ilícitos, sendo um componente central para 'restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental'. Essa visão se materializa na denominada 'Doutrina Donroe', uma reinterpretação da Doutrina Monroe de 1823, que defendia a hegemonia dos EUA no continente. Vanda Felbab-Brown ressalta que essa abordagem está intrinsecamente ligada a uma agenda de extrema direita, funcionando como um mecanismo para implementar objetivos políticos e ideológicos em países latino-americanos. John Walsh, diretor para Políticas de Drogas do Washington Office on Latin America (WOLA), corrobora, afirmando que a guerra às drogas serve como pretexto para 'impor o domínio' dos EUA na região, 'por coerção, se necessário'.
Narcoterrorismo: Diluindo as Fronteiras entre Criminalidade e Terrorismo
Um dos aspectos mais contundentes dessa nova fase é a fusão discursiva entre a 'guerra às drogas' e a 'guerra ao terror'. Desde o início do segundo mandato de Trump, mais de vinte cartéis e organizações criminosas na América Latina foram designados como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) pelos EUA. Essa lista inclui facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), apesar da oposição do governo brasileiro, além de grupos da Colômbia, El Salvador, Equador, Venezuela e México. Essa classificação pavimentou o caminho para uma série de ataques militares no Caribe e no Pacífico, que resultaram na morte de mais de 200 pessoas. A justificativa, frequentemente desprovida de evidências concretas, era que as vítimas seriam 'narcoterroristas' transportando drogas ilícitas, um argumento jurídico que remete à 'guerra ao terror' pós-11 de setembro de 2001, onde os EUA se declararam em 'conflito armado' com os cartéis.
Controvérsias e Violações: O Debate sobre a Legalidade das Ações
As ações militares e a reclassificação de traficantes como 'combatentes' em um 'conflito armado' geraram um amplo debate e críticas de especialistas em direito internacional. Muitos questionam a legalidade de atacar militarmente indivíduos que, embora suspeitos de crimes, são civis e deveriam estar sujeitos à lei penal, e não a operações de guerra. Ben Saul, relator especial da ONU para a proteção dos direitos humanos, classificou esses episódios como 'mortes extrajudiciais' e uma 'grave violação do direito à vida'. John Walsh enfatiza a natureza 'grotesca' dessa política, onde a 'metáfora da guerra' é acompanhada pelo 'emprego efetivo de forças de segurança militarizadas e das próprias Forças Armadas para usar força letal contra civis', desviando-se drasticamente de quaisquer precedentes.
A 'guerra às drogas' sob a administração Trump representa, portanto, uma ruptura significativa com estratégias passadas, priorizando a força militar e a projeção de poder hegemônico. Ao redefinir traficantes como terroristas e justificar ataques letais com base em uma doutrina que visa restaurar a proeminência americana, Washington não só acentua a militarização na América Latina, mas também levanta sérias questões sobre a soberania, o direito internacional e os direitos humanos na região. A eficácia a longo prazo dessa abordagem, que ignora o fortalecimento institucional em favor da coerção, permanece uma incógnita, enquanto os custos humanos e éticos já são evidentes.
Fonte: https://g1.globo.com

