O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anunciou nesta quinta-feira (15) a retirada da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública da pauta de votação em plenário. A medida visa proporcionar um ambiente mais propício ao debate e à construção de acordos em torno de emendas apresentadas ao texto, considerado prioritário pelo governo federal para o fortalecimento do combate ao crime organizado no país.

Adiamento Estratégico para Evitar Debates Precipitados

A decisão de Alcolumbre foi motivada pela necessidade de evitar uma "discussão açodada" da matéria, permitindo que os senadores alcancem um consenso sobre as diversas propostas de alteração. Segundo o presidente da Casa, o adiamento serve para dirimir divergências, especialmente sobre emendas que carecem de apoio unânime entre os parlamentares. Ele também ponderou sobre o momento da aprovação do calendário especial de tramitação, que ocorreu em meio a outra celebração legislativa, buscando assegurar um processo mais sereno e aprofundado para a PEC da Segurança.

Alcolumbre fez questão de esclarecer que a retirada da proposta da pauta não atende a pedidos ou pressões do Poder Executivo, reforçando a autonomia do Legislativo na condução dos trabalhos.

O Nó da Maioridade Penal: Emendas Controversas

Entre as cinco emendas apresentadas à Proposta de Emenda à Constituição, o tema da redução da maioridade penal emerge como o principal ponto de atrito. Duas proposições específicas abordam essa questão, gerando intensos debates e falta de unanimidade entre os senadores.

Propostas em Disputa

A Emenda 84, de autoria do senador Rogério Marinho (PL-RN), sugere uma redução geral da idade de responsabilização penal para 16 anos, com a possibilidade de ser aplicada a partir dos 14 anos em casos de crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas, terrorismo e participação em organizações criminosas. Por sua vez, a Emenda 87, apresentada pelo senador Camilo Santana (PT-CE), embora mantenha a regra geral dos 18 anos, propõe a redução da maioridade penal para 16 anos especificamente para a prática de crimes hediondos. A proposta do parlamentar petista, no entanto, não encontra amplo respaldo nem mesmo na base governista, refletindo a complexidade e a controvérsia do tema, que é historicamente debatido por organizações da sociedade civil dedicadas à defesa dos direitos de crianças e adolescentes.

A Jornada Legislativa da PEC da Segurança

A PEC da Segurança Pública, uma iniciativa do Poder Executivo, já percorreu um caminho significativo no Congresso Nacional. Após ser aprovada pela Câmara dos Deputados, a proposta ganhou celeridade no Senado, recebendo aprovação sem alterações na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Com um calendário especial de tramitação acolhido pelos parlamentares em votação simbólica, o texto estava pronto para ser votado em plenário em dois turnos, sem a necessidade de sessões deliberativas prévias. O texto base havia sido aprovado no início de setembro, restando apenas a análise de três destaques que estavam programados para votação.

A proposta é uma das prioridades do atual governo na área de segurança, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a prometer a criação de um Ministério da Segurança Pública após sua eventual aprovação.

Pilares da PEC: Fortalecendo o Enfrentamento ao Crime Organizado e a Cooperação Federativa

A essência da PEC da Segurança Pública reside no estabelecimento de um novo pacto federativo para o enfrentamento ao crime no Brasil, além de prever penas mais rigorosas e regimes de prisão mais restritivos para líderes de facções criminosas e milícias. O objetivo é criar um arcabouço legal robusto para combater a criminalidade organizada.

Reestruturação e Integração da Segurança Pública

Um dos pontos centrais da proposta é a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), através da alteração do Artigo 144 da Carta Magna. O texto prevê que a segurança pública seja exercida "em regime de cooperação federativa" e "por meio da atuação integrada e descentralizada" das diversas instituições envolvidas. Adicionalmente, o Artigo 144-A seria incluído, definindo que "os órgãos de segurança pública articular-se-ão em regime de cooperação federativa, por meio do Sistema Único de Segurança Pública, destinado a assegurar a eficiência da prevenção, da persecução e da execução penal".

Medidas Contra o Crime Organizado e Novas Atribuições

Para chefes de facções e milícias, a PEC estabelece penas mais duras e regimes especiais de prisão, como o confinamento em unidades de segurança máxima e a restrição ou vedação à progressão de pena. O texto também contempla medidas patrimoniais contra bens provenientes do crime, a responsabilização de pessoas jurídicas envolvidas e a proteção a denunciantes e seus familiares. Outra inovação é a possibilidade de criação de polícias municipais de natureza civil, submetidas ao controle externo do Ministério Público, com a responsabilidade de realizar policiamento ostensivo e comunitário. A PEC ainda amplia as atribuições da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e aumenta a vinculação de recursos do orçamento público para a segurança.

Fortalecimento do Financiamento da Segurança Pública

A PEC da Segurança também aborda o financiamento do setor, estabelecendo que 50% dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) e do Fundo Penitenciário Nacional (Funpen) serão repassados pela União a estados e municípios. Esta regra exclui as despesas de custeio e investimento da polícia penitenciária nacional do Funpen. Conforme o relator, essas regras de financiamento são projetadas para fortalecer os fundos existentes, criar vinculações e blindagens orçamentárias, e garantir repasses obrigatórios, aumentando a previsibilidade financeira e assegurando a perenidade das ações policiais em todo o território nacional. A proposta ainda contempla que 10% dos recursos…

…serão destinados a programas de prevenção à criminalidade e reintegração social, enfatizando uma abordagem multifacetada para a segurança pública.

Perspectivas para a Votação Futura

O adiamento da votação da PEC da Segurança Pública demonstra a complexidade da matéria e a importância de se construir um consenso amplo para sua aprovação. Ao buscar um acordo sobre as emendas, especialmente aquelas ligadas à maioridade penal, o Senado sinaliza um compromisso com a deliberação cuidadosa, visando a construção de um texto final que seja robusto, eficaz e amplamente aceito. A expectativa é que, com mais tempo para negociações, a proposta possa retornar à pauta com maior alinhamento entre os parlamentares, garantindo uma legislação que efetivamente contribua para o avanço da segurança pública no Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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