Em Gana, a morte é encarada não apenas como o fim, mas como uma oportunidade de celebrar a vida e o legado do indivíduo. Longe da sobriedade tradicionalmente associada aos funerais, uma vibrante tradição artística floresce, especialmente entre as comunidades do povo Ga nos arredores de Acra: a criação de caixões 'figurativos' ou 'de fantasia'. Estas peças únicas não são meros recipientes para o descanso final, mas obras de arte que encapsulam a essência, as paixões e as profissões daqueles que partiram.

Um exemplo marcante dessa tradição pôde ser visto no funeral de Frederick Teiko Ofori, um músico ganês cuja vida foi abruptamente interrompida. Para homenagear sua paixão e sua identidade, sua família encomendou um caixão na forma de uma imensa guitarra, acompanhando-o em sua jornada final. Este costume, embora surpreendente para muitos, é uma expressão profunda e íntima de amor e respeito pela história individual do falecido.

Caixões Narrativos: A Identidade Esculpida em Madeira

A prática de transformar a última morada em um espelho da vida do falecido é um traço cultural distinto de Gana. Cada caixão é meticulosamente projetado para contar uma história, tornando a despedida uma celebração visual do que a pessoa representou. Assim, pescadores podem ser sepultados em elaboradas esculturas de peixes ou canoas; agricultores encontram seu descanso em vagens de cacau; motoristas são homenageados com caixões em forma de carros; e líderes religiosos podem ser enterrados em Bíblias gigantes, simbolizando sua fé e devoção. Esta personalização vai além da estética, atuando como um poderoso rito de passagem que reforça a identidade do indivíduo na memória coletiva.

A tradição serve como um elo entre o mundo dos vivos e dos mortos, garantindo que o legado profissional, social e pessoal seja imortalizado de forma criativa. Mesmo após a morte, a guitarra de Ofori, por exemplo, continuou a ser parte integrante de sua identidade, reforçando a ideia de que a arte pode eternizar a memória de quem se foi de maneira singular.

Mestres Artesãos: A Arte e o Ofício da Memória

Por trás de cada caixão figurativo está a habilidade e a criatividade de artesãos dedicados. Daniel Oblie Mensah, conhecido carinhosamente como 'Hello', é um desses mestres. Com mais de três décadas de experiência, ele transforma ocupações, paixões e status social em memoriais de madeira. Para Mensah, cada encomenda relacionada à profissão do falecido é um desafio estimulante e uma oportunidade genuína de homenagear a pessoa e sua família. Ele foi o responsável pela guitarra de Ofori e pela caneta gigante do professor Samuel Commey Tetteh, conhecido por ter lecionado por mais de meio século.

Em oficinas espalhadas por Acra, carpinteiros como Lawrence Okoe Anang, que aprendeu o ofício com seu pai desde os 10 anos, continuam a dar vida a esses projetos únicos. Os clientes chegam com fotografias ou descrições da vida do falecido, e os artesãos usam sua imaginação para criar obras que podem levar semanas para serem concluídas, como o caixão em forma de crocodilo que Anang ajudou a construir para um sacerdote da região do rio Volta.

Uma Tradição que Conquista o Mundo e o Tempo

A origem moderna desses caixões escultóricos remonta a meados do século XX, entre os artesãos Ga, inspirada nas elaboradas formas dos palanquins usados por chefes locais. Embora a maioria dessas obras de arte detalhadas desapareça sob a terra, algumas transcenderam sua função original e encontraram seu lugar em museus de prestígio ao redor do mundo, como o caixão em forma de guitarra do artista ganês Paa Joe, que esteve exposto no Museu Metropolitano de Arte de Nova York.

A indústria, que hoje conta com o auxílio de ferramentas modernas para acelerar a produção e garantir um fornecimento de madeira mais confiável, ainda se baseia fortemente em habilidades transmitidas de geração em geração. Os caixões para funerais geralmente custam cerca de 10 mil cedis ganeses (equivalente a aproximadamente R$ 4.900), enquanto as peças destinadas a exposições são mais caras, devido à necessidade de materiais mais duráveis. O crescente interesse de museus e colecionadores estrangeiros tem expandido o alcance e o reconhecimento desse ofício singular. Para artesãos como Anang, a capacidade de transformar madeira em peixes, aviões, Bíblias, canetas ou guitarras faz com que eles se considerem não apenas carpinteiros ou fabricantes de caixões, mas verdadeiros artistas.

A tradição ganense dos caixões personalizados é um testemunho da capacidade humana de encontrar beleza e significado mesmo na finitude. Ao invés de um adeus sombrio, oferece uma celebração vibrante da vida, da paixão e da identidade, transformando o ato final em uma poderosa e comovente declaração artística.

Fonte: https://g1.globo.com

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