Há sete décadas, uma vibrante boina amarela se estabeleceu como um símbolo inconfundível para os calouros da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Longe de ser um simples adereço de trote, este item, utilizado pelos novos estudantes durante os primeiros 100 dias de aula, transcendeu sua origem improvisada para se tornar um verdadeiro 'passaporte' de integração, solidariedade e pertencimento à comunidade acadêmica e profissional.

O acessório não apenas identifica os ingressantes da 75ª turma, mas também tece uma rede de apoio que perdura por toda a cidade e campus, conectando gerações de médicos e estudantes. Sua história, marcada por resiliência – inclusive durante períodos de proibição – revela a força de uma tradição que se reinventou, transformando um acaso em um emblema de orgulho e um pilar de acolhimento para os futuros profissionais da saúde.

A Gênese de um Símbolo Inesperado: Da Busca ao Amarelo Improvável

A curiosa origem da boina amarela remonta à primeira turma do curso de Medicina da FMRP-USP, ingressante em 1952. Como pioneiros, esses estudantes não contaram com veteranos para uma recepção tradicional. No ano seguinte, ao receber a segunda turma, decidiram criar um ritual de boas-vindas, inspirados por costumes de outros cursos da USP: os alunos de Odontologia ostentavam bonés vermelhos, enquanto os de Farmácia utilizavam gravatas borboleta amarelas.

A ideia inicial para os futuros médicos era adotar um boné verde. No entanto, a busca pelo item revelou-se um desafio. Hemil Riscalla, membro da primeira turma e encarregado da missão, foi até a capital paulista após não encontrar o boné verde desejado em Ribeirão Preto. Em uma reviravolta do destino, Riscalla deparou-se com um estoque de 60 boinas amarelas. Embora a cor fugisse completamente do plano original, o preço se encaixava no orçamento, levando-o a arriscar a compra.

O retorno de Riscalla com as boinas amarelas gerou controvérsia. A turma hesitou em aceitar o acessório, temendo que a cor vibrante não fosse levada a sério. Contudo, após intensos debates e a eventual aceitação, o que era para ser uma brincadeira pontual ou um 'trote' improvisado, consolidou-se rapidamente. Conforme Riscalla registrou nos arquivos do Centro Acadêmico, a boina amarela, que era 'provisória', tornou-se 'permanente', um item obrigatório e motivo de orgulho para todos, conforme atestam registros históricos da década de 1950.

Do Improviso ao Ritual Solene: A Cerimônia de Entrega e o Juramento

O que começou como uma solução prática e um tanto acidental, hoje se transformou em um ritual rigorosamente observado. A entrega da boina amarela ocorre tradicionalmente na quinta-feira da primeira semana de aulas, um período conhecido como semana de recepção. Este momento é cuidadosamente orquestrado pelos veteranos do segundo ano, em conjunto com o Centro Acadêmico Rocha Lima (CARL), garantindo uma experiência memorável para os calouros.

A cerimônia inclui um juramento solene, no qual os novos alunos se comprometem a usar a boina por 100 dias consecutivos, independentemente do local – seja no campus, no centro da cidade ou em suas atividades cotidianas. Mateus Tavares, vice-presidente do CARL, explica que o evento é permeado por um tom descontraído, com brincadeiras e piadas internas preparadas pelos veteranos, criando um ambiente acolhedor e leve para os ingressantes. Essa prática, que passou por proibições durante a ditadura militar, demonstrou sua capacidade de resistir, adaptando-se e fortalecendo-se ao longo do tempo.

Um Passaporte Amarelo: Integração e Legado Geracional na Comunidade

A boina amarela, mais do que um símbolo de identificação, funciona como um verdadeiro 'passaporte' social para os calouros da FMRP-USP. Sua visibilidade nas ruas de Ribeirão Preto e no campus garante aos novos estudantes um apoio imediato. Médicos já formados e veteranos da instituição, ao reconhecerem o acessório, frequentemente oferecem caronas, pagam refeições ou simplesmente compartilham um momento de conversa, demonstrando a forte união que a tradição fomenta.

Para calouros como Leonardo de Abreu Ribeiro, de 18 anos, a boina amarela materializa a conquista de um sonho que antes parecia distante. A cerimônia de entrega e o subsequente uso do acessório solidificam a percepção de pertencimento à renomada Universidade de São Paulo, marcando uma transição significativa em suas vidas. É um emblema que separa o antes e o depois da aprovação, reforçando a identidade de aluno da USP e integrando-os a uma rede que transcende o tempo.

Este legado geracional, que une a 75ª turma aos pioneiros de 1953, mostra como a boina amarela se consolidou como uma peça fundamental na experiência acadêmica da FMRP-USP. Ela simboliza não apenas a entrada em uma das faculdades de medicina mais prestigiadas do país, mas também a adesão a uma comunidade solidária, forjada na história e mantida viva pelas novas gerações que a cada ano vestem com orgulho este distintivo amarelo.

Assim, o que começou com uma escolha prática e um tanto fortuita, evoluiu para uma das mais ricas e singulares tradições acadêmicas do Brasil. A boina amarela da FMRP-USP não é apenas um adereço; é um elo que conecta passado, presente e futuro, garantindo que cada novo estudante seja acolhido não apenas por uma instituição, mas por uma verdadeira família de profissionais da saúde.

Fonte: https://g1.globo.com

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