Durante milênios, a singularidade de certas linhagens de peixes nos mares gelados da Antártida intrigou cientistas. Esses notáveis seres desenvolveram uma adaptação extrema: desativaram os genes responsáveis pela produção de glóbulos vermelhos e hemoglobina, resultando em um sangue completamente transparente. Por muito tempo, essa característica foi considerada um fenômeno isolado, uma anomalia biológica tão improvável que sua ocorrência em outro lugar parecia impensável. Contudo, descobertas recentes desafiam essa percepção, revelando que a natureza, em sua infinita capacidade de inovação, replicou esse extraordinário feito evolutivo em habitats radicalmente distintos, por caminhos genéticos surpreendentemente diferentes.
A Surpreendente Duplicidade do Sangue Incolor
A crença na exclusividade dos peixes-gelo-preto (Chaenocephalus aceratus) antárticos foi abalada pela descoberta dos peixes-macarrão (Salangichthys microdon). Estes pequenos habitantes de águas temperadas e tropicais, com uma distribuição geográfica que se estende do Vietnã à Rússia, também exibem sangue incolor. O que torna essa descoberta ainda mais notável é que essa característica não foi herdada de um ancestral comum com os peixes-gelo. Em vez disso, a perda dos glóbulos vermelhos ocorreu de forma completamente independente, constituindo um dos mais espetaculares exemplos de evolução convergente já documentados, onde diferentes espécies desenvolvem soluções semelhantes para desafios biológicos equivalentes.
Mecanismos Genéticos Distintos para a Mesma Adaptação
A equipe liderada por H. William Detrich, da Northeastern University, mergulhou nos genomas para desvendar as raízes moleculares dessa convergência. Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que os peixes-gelo da Antártida perderam blocos inteiros de genes da hemoglobina através de um evento de eliminação genômica de grande escala. Ao sequenciar 11 espécies de peixes-macarrão, os cientistas esperavam encontrar um padrão semelhante. Entretanto, foram confrontados com assinaturas moleculares radicalmente diferentes. Os peixes-macarrão, ao contrário de seus 'primos' antárticos, mantiveram os genes da hemoglobina em seu genoma, mas acumularam uma série de mutações menores e independentes que impedem a produção de proteínas funcionais. É como se dois projetos fossem elaborados para atingir o mesmo resultado – uma casa sem janelas –, onde um arquiteto removeu todas as paredes, enquanto o outro optou por vedar cada abertura com tijolos.
Estratégias de Sobrevivência em Ambientes Contrastantes
A ausência de hemoglobina, a proteína que transporta oxigênio, impõe limitações severas à vida, exigindo soluções de engenharia corporal complexas para a sobrevivência. Os peixes-gelo da Antártida se beneficiam de águas polares excepcionalmente frias e ricas em oxigênio dissolvido. Suas adaptações incluem corações aumentados, um volume sanguíneo superior e uma rede densa de vasos sanguíneos, que maximizam a captação e distribuição do oxigênio. Já os peixes-macarrão enfrentam um desafio ainda maior, vivendo em águas quentes que retêm significativamente menos oxigênio. Sua estratégia de sobrevivência envolve manter um tamanho corporal reduzido, raramente ultrapassando 25 centímetros, com corpos esguios e translúcidos que permitem a proximidade dos tecidos à superfície, onde o oxigênio dissolvido no sangue é suficiente. Além disso, exibem neotenia, um fenômeno em que atingem a maturidade sexual mantendo características larvais, incluindo a notável capacidade de absorver oxigênio diretamente pela pele.
O Acaso e a Complexidade da Trajetória Evolutiva
Este estudo, publicado na revista Current Biology, não apenas revela a plasticidade da vida, mas também ilumina o papel intrincado do acaso na história evolutiva. Os pesquisadores sugerem que a perda da mioglobina nos peixes-macarrão, um evento ancestral único, pode ter sido desencadeada por um transposon – um 'gene saltador' que inadvertidamente interrompeu uma função vital. A partir desse evento contingencial, a seleção natural atuou, moldando as adaptações necessárias com base nos recursos genéticos remanescentes. Essa contingência histórica explica por que, embora os dois grupos de peixes tenham chegado ao mesmo destino funcional de sangue incolor, o fizeram por rotas genéticas tão drasticamente diferentes. Cada novo caso como este ajuda os biólogos a refinar a compreensão sobre o que é previsível na evolução com base apenas na genética e o que ainda depende dos acidentes históricos.
A implicação dessa descoberta é profunda: o sangue branco não é uma excentricidade polar isolada, mas um experimento evolutivo recorrente, capaz de emergir sempre que as condições ambientais permitirem e a pressão seletiva for suficiente. A pesquisa agora se volta para vasculhar os genomas de outras espécies de peixes em busca de genes de transporte de oxigênio defeituosos. Essa busca pode revelar que o sangue incolor é uma característica muito mais comum do que se imaginava, aguardando ser descoberta em outros cantos remotos do planeta, onde a vida continua a encontrar soluções singulares para problemas universais.
Fonte: https://olhardigital.com.br

