As recentes ações do governo dos Estados Unidos, como o bloqueio marítimo a navios petroleiros da Venezuela e um notável resgate financeiro à Argentina, sublinham a crescente importância da América Latina na agenda do então presidente Donald Trump. Uma nova Estratégia de Segurança Nacional, divulgada pela Casa Branca, detalha a intenção de Washington de expandir sua presença militar e influência no continente. Este documento, assinado pelo próprio Trump, reflete uma abordagem que busca restaurar o poderio americano interna e externamente, projetando uma política externa decidida a conter a imigração ilegal, combater o narcotráfico e fortalecer relações com aliados ideológicos e comerciais na região. Esta reorientação estratégica, apelidada de “Doutrina Donroe”, representa uma releitura de princípios históricos que moldaram a política externa americana no hemisfério ocidental.

O Resgate da Doutrina Monroe e a “Donroe”

Fundamentos Históricos e a Nova Interpretação

A nova Estratégia de Segurança Nacional americana, publicada em 4 de dezembro, delineia uma política externa que revisita e reimagina preceitos históricos, notadamente a Doutrina Monroe. Este princípio, estabelecido em 1823 pelo então presidente James Monroe, declarava a intenção dos Estados Unidos de proteger as nações americanas contra o avanço de potências coloniais europeias, sintetizado no lema “A América para os Americanos”. O documento atual reafirma categoricamente a decisão de Washington de “reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no hemisfério ocidental”, marcando uma ruptura com anos de o que é percebido como negligência na região.

Esta abordagem contemporânea rapidamente ganhou o apelido de “Doutrina Donroe” — uma fusão dos nomes Donald e Monroe — após aparecer em destaque em publicações de grande circulação e ser adotada por analistas internacionais. Especialistas como Will Freeman, pesquisador de Estudos Latino-Americanos, interpretam essa retomada como uma “justificativa ideológica” para uma postura mais assertiva ou até “linha dura” na região. Embora o foco aparente recaia sobre a imigração, a estratégia também endereça explicitamente a preocupação com cartéis de drogas e o que são descritas como incursões estrangeiras hostis, ecoando as premissas originais da Doutrina Monroe.

A ideia de adaptar a Doutrina Monroe não é inédita. Em 1904, o presidente Theodore Roosevelt já havia estabelecido seu próprio “corolário Roosevelt”, justificando intervenções em nações latino-americanas que falhassem em cumprir compromissos financeiros ou em manter democracias estáveis. No entanto, o “corolário Trump”, como também é chamado, ainda é visto por alguns como uma declaração de princípios mais do que um plano estratégico consolidado. Analistas como Freeman sugerem que a política externa de Trump carece de uma consistência que a qualifique como uma doutrina plenamente desenvolvida, faltando declarações que liguem as ações a objetivos mais abrangentes. Contudo, a clara indicação é que, para os Estados Unidos consolidarem seu poder global, a reafirmação de sua influência no hemisfério ocidental é considerada uma premissa fundamental para a segurança e prosperidade nacionais.

Interesses Estratégicos e os Pilares da Abordagem

Imigração, Narcotráfico e a Disputa por Influência

A estratégia de segurança nacional do então presidente Trump posiciona a América Latina como um epicentro de desafios e soluções para os Estados Unidos. O documento aponta a “migração ilegal e desestabilizadora” como uma das maiores preocupações, dado que uma parcela significativa dos imigrantes residentes nos EUA provém de países latino-americanos, com o México sendo um vizinho de particular relevância. Para o pesquisador Will Freeman, a região é de interesse primordial para os objetivos de política interna de Washington, especialmente aqueles relacionados à segurança de fronteiras e controle migratório.

Além da imigração, o narcotráfico emerge como outra ameaça central. A estratégia destaca que a vasta maioria da cocaína consumida nos Estados Unidos tem origem em apenas três nações sul-americanas: Colômbia, Peru e Bolívia. Essa perspectiva reforça a tese de que a América Latina é vista por Washington como uma extensão de sua fronteira de segurança interna, conforme analisa o professor Bernabé Malacalza, especialista em relações internacionais. Segundo Malacalza, o continente adquiriu uma prioridade que não possuía anteriormente, impulsionada pelo protagonismo da segurança hemisférica na agenda americana.

Um pilar adicional da nova estratégia é a preocupação com “incursões estrangeiras hostis”, uma referência, ainda que não nominal, à crescente influência da China na região. Pequim tem expandido sua presença econômica e política na América Latina, o que Washington percebe como um desafio direto à sua hegemonia tradicional. No âmbito comercial, a abordagem de Trump, guiada pelo lema “America First” (Estados Unidos em primeiro lugar), busca renegociar acordos e utilizar “alíquotas e acordos comerciais recíprocos como ferramentas poderosas”. Essa política já foi aplicada a diversas nações do continente, com resultados variados, e tem como objetivo consolidar acordos de nearshoring, transferindo parte da produção para países geograficamente próximos, reconfigurando as cadeias de valor e fortalecendo as economias aliadas.

A meta não é apenas o crescimento das empresas americanas, mas também a consolidação de economias nacionais robustas em países parceiros. O documento sublinha que “um hemisfério ocidental economicamente mais forte e sofisticado se transforma em um mercado cada vez mais atraente para o comércio e os investimentos dos Estados Unidos”. Freeman complementa que os países da região exercem um “impacto desproporcional” sobre os assuntos internos de Washington, que são cruciais para a base política de Trump, evidenciando a interligação entre a segurança externa e a estabilidade doméstica na visão estratégica americana.

Táticas de Pressão e Incentivo na Nova Era Geopolítica

A implementação da Estratégia de Segurança Nacional de Trump na América Latina manifesta-se através de uma combinação de pressão e incentivos, uma política de “represálias e recompensas” que visa moldar o comportamento dos governos regionais. A presença naval, simbolizada pelo porta-aviões USS Gerald R. Ford no Caribe, próximo à costa venezuelana, serve como um claro sinal da disposição americana de projetar poder militar. O documento sinaliza a intenção de destacar uma “presença [militar] mais adequada” e realizar “destacamentos específicos” para o controle de fronteiras terrestres e rotas marítimas, chegando a contemplar o “uso de força letal para substituir a fracassada estratégia baseada apenas na aplicação da lei das últimas décadas”.

Essa postura militar é fundamentada na crença de que “a força é o melhor elemento de dissuasão”, uma evocação do lema “paz pela força” do ex-presidente Ronald Reagan, que advogava o uso do poderio militar para assegurar a estabilidade global. No entanto, o professor Bernabé Malacalza observa que essa política de segurança não busca configurar uma arquitetura regional ou hemisférica abrangente, mas sim “fazer com que os países se alinhem aos Estados Unidos e, em última instância, a Trump”. Isso implica uma abordagem mais bilateral e transacional, onde a cooperação é condicionada ao alinhamento com os interesses de Washington.

Em contrapartida às possíveis represálias, Washington oferece uma série de recompensas para seus aliados. O documento explicita que os Estados Unidos “recompensarão e incentivarão os governos, partidos políticos e movimentos da região que se alinharem amplamente aos nossos princípios e estratégia”. Essa política visa apoiar líderes e governos capazes de promover uma “estabilidade razoável” na região, contribuir para frear a migração ilegal e neutralizar os cartéis de drogas. Exemplos recentes incluem o resgate financeiro de US$ 20 bilhões concedido à Argentina e os acordos para redução de alíquotas de importação assinados com Equador, El Salvador e Guatemala, além da própria Argentina.

Apesar da complexidade dessa estratégia, a análise de especialistas consultados aponta para uma visão predominante de que a “Doutrina Donroe” percebe a América Latina principalmente como uma fonte de ameaças, em vez de um repositório de oportunidades. Will Freeman resume essa perspectiva ao afirmar que há uma preocupação muito maior em “evitar que as ameaças perigosas da América Latina cheguem aos Estados Unidos (…) do que em aproveitar as oportunidades oferecidas pela região”. Essa priorização da segurança e da contenção de riscos internos molda profundamente a política externa americana para o continente, transformando-o em um tabuleiro estratégico central para a defesa dos interesses nacionais dos Estados Unidos na era Trump.

Fonte: https://g1.globo.com

Share.

Comments are closed.