Com a intensificação do conflito no Oriente Médio, que vê Estados Unidos e Israel em confrontos com o Irã, e a permissão do Reino Unido para o uso de suas bases aéreas em operações defensivas, a atenção global se volta para o possível suporte que Teerã poderia receber de seus parceiros estratégicos. Rússia e China, embora mantenham profundos laços diplomáticos, comerciais e militares com a República Islâmica, revelam uma complexa rede de interesses que define os limites e a natureza de seu apoio diante da atual escalada.
Rússia: Um Apoio Ruidoso, Mas Estrategicamente Limitado
A resposta de Moscou aos ataques conjuntos contra o Irã, embora veemente, demonstrou cautela. Sergei Goryashko, da BBC News Rússia, descreveu a postura como 'ruidosa, mas limitada', expressando solidariedade e indignação sem, contudo, adotar medidas que pudessem arrastar a Rússia para um confronto direto. O porta-voz do governo russo, Dmitry Peskov, manifestou 'profunda decepção' com a degeneração da situação em 'agressão aberta', assegurando contatos constantes com a liderança iraniana e países do Golfo. Além disso, o Ministério das Relações Exteriores russo condenou a 'agressão não provocada' e denunciou o que considera assassinatos políticos e a 'caça' a líderes de Estados soberanos.
Apesar da retórica de apoio, a Rússia tem demonstrado uma clara priorização de seus próprios interesses. O presidente Vladimir Putin, ao enviar condolências pela morte do líder supremo do Irã, chamou o evento de 'violação cínica da moralidade humana e do direito internacional', um forte sinal diplomático. Contudo, Moscou tem evitado críticas diretas ao presidente dos EUA e até mesmo expressou gratidão por esforços americanos de mediação em relação à Ucrânia. Questionado sobre a confiança nos EUA, Peskov reiterou que a Rússia 'confia apenas em si mesma' e defende seus interesses, o que ajuda a explicar a natureza do apoio ao Irã.
Interesses Geopolíticos e a Doutrina Multipolar
A aproximação entre Rússia e Irã intensificou-se significativamente desde a invasão da Ucrânia, com o Irã fornecendo drones e auxiliando na evasão de sanções ocidentais. Essa parceria também se alinha à visão russa de uma ordem mundial multipolar, onde a soberania dos Estados prevalece sobre questões de direitos humanos, e governos exercem controle interno abrangente. A eventual queda de um regime alinhado a esse modelo representaria um revés para a projeção geopolítica de Moscou. No entanto, a história recente mostra que a Rússia não está disposta a correr riscos excessivos por seus parceiros, como demonstrado em situações envolvendo a Venezuela, a Síria, ou outros confrontos regionais de alta intensidade.
Adicionalmente, o envolvimento russo na Ucrânia limita sua capacidade de oferecer mais do que apoio diplomático e cooperação técnico-militar, consolidando uma estratégia de auxílio que evita o confronto direto. Essa prudência sublinha a prioridade de Moscou em seus próprios desafios e capacidades limitadas.
A Parceria Estratégica: Acordos Militares e Limites de Defesa
Um tratado de parceria estratégica entre Rússia e Irã, assinado em 17 de janeiro de 2025, estabelece compromissos para compartilhar informações, realizar exercícios conjuntos e 'garantir a segurança regional'. No entanto, crucialmente, este acordo não configura um pacto de defesa mútua, o que significa que nenhuma das partes prometeu defender a outra em caso de ataque. As relações econômicas bilaterais, embora existentes, permanecem modestas, com o comércio oscilando entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões anuais.
Em contraste, os vínculos militares e industriais estão em franca expansão. Relatos indicam um acordo significativo para o fornecimento russo de sistemas portáteis de defesa aérea Verba, avaliados em € 500 milhões. O Irã já recebeu aeronaves de treinamento Yak-130 e helicópteros de ataque Mi-28, e aguarda a entrega de caças Su-35, embora os sistemas Verba ainda não tenham sido fornecidos. A cooperação também se manifesta no uso de drones Shahed iranianos pelas forças russas na Ucrânia, embora a Rússia tenha investido na rápida ampliação de sua própria produção de drones, visando reduzir a dependência de armamentos estrangeiros.
China: Uma Aliança Discreta e Pragmatismo Geopolítico
Assim como a Rússia, a China mantém laços diplomáticos, comerciais e militares com o Irã. No entanto, o nível de apoio chinês no atual conflito é menos explicitamente detalhado e parece seguir uma linha mais discreta. Pequim, conhecida por sua diplomacia cautelosa e foco em interesses econômicos, provavelmente adota uma postura que busca estabilidade regional e a proteção de suas rotas comerciais e investimentos estratégicos, evitando posicionamentos que possam gerar atritos desnecessários com outras potências globais. A natureza exata de seu suporte concreto ao Irã, além dos laços comerciais e diplomáticos já estabelecidos, não é publicamente evidente na mesma medida que as declarações russas.
Conclusão: Aliados Estratégicos, Não Defensores Incondicionais
A análise das posturas de Rússia e China revela uma complexa dinâmica de alianças no cenário geopolítico atual. Embora o Irã seja um parceiro estratégico importante para ambos, especialmente para a Rússia em sua visão de um mundo multipolar e na evasão de sanções, o apoio oferecido é permeado por um pragmatismo que prioriza os interesses nacionais e evita a confrontação direta. Nem Moscou nem Pequim se comprometeram com uma defesa mútua irrestrita, sinalizando que, apesar dos laços crescentes, a intervenção militar direta em favor de Teerã não faz parte de suas agendas. O conflito atual, portanto, serve como um divisor de águas que delimita a extensão real da solidariedade nessas importantes parcerias internacionais.
Fonte: https://g1.globo.com

