Hong Kong, outrora um farol de liberdade de expressão e um porto seguro para ideias que desafiam as narrativas oficiais do continente, vê suas livrarias independentes enfrentarem um cerco cada vez mais apertado. Estes espaços, que proliferaram após os intensos protestos pró-democracia de 2019, tornaram-se pontos de encontro cruciais para leitores em busca de perspectivas alternativas. No entanto, o aumento do controle de Pequim sobre a cidade tem transformado o ambiente cultural, levando a prisões e fechamentos que reverberam além das fronteiras do território.

Um exemplo marcante dessa pressão é a Livraria Hunter, estabelecida há quatro anos por um ex-vereador. Conhecida por seu catálogo de obras consideradas “sensíveis” pelas autoridades, como relatos de ativistas pró-democracia, alegorias sobre o autoritarismo como <i>A Revolução dos Bichos</i>, de George Orwell, ou a série de mangá <i>Ataque dos Titãs</i>, o local era um oásis para mentes curiosas. Localizada no vibrante distrito de Sham Shui Po, entre vendedores de tecidos e cafés modernos, a Hunter representava para muitos, como a jovem Chen Zhu da China continental, uma ponte para um mundo mais livre, onde perguntas proibidas podiam finalmente encontrar respostas.

A Lei de Segurança Nacional e o Cerco Judicial

A crescente vigilância sobre as livrarias é intrinsecamente ligada à imposição da abrangente Lei de Segurança Nacional (LSN) em Hong Kong. Embora Pequim justifique a legislação como essencial para a estabilidade, muitos residentes e grupos de direitos humanos a denunciam como um instrumento de repressão à liberdade de expressão. Esta lei, que tem levado a uma série de prisões e condenações, já resultou na saída de milhares de pessoas, incluindo ativistas e ex-parlamentares, da cidade.

Em 24 de junho, a Livraria Hunter foi alvo de uma batida policial. Sua proprietária, Letitia Wong, de 33 anos, e um homem de 32 anos foram detidos sob acusações de sedição e lavagem de dinheiro, ambos negando as imputações e subsequentemente liberados sob fiança. Este incidente não foi isolado. Em março, as autoridades já haviam prendido o dono da livraria Book Punch e três funcionários sob acusações semelhantes, apreendendo, segundo relatos, cópias de uma biografia do ativista pró-democracia Jimmy Lai, atualmente detido.

O impacto da LSN se intensificou em 15 de julho, data de abertura da Feira Anual do Livro de Hong Kong, quando a polícia de segurança nacional realizou batidas em mais duas livrarias independentes: a Greenfield Bookstore e a Have a Nice Stay. Cinco pessoas foram presas por sedição e também liberadas sob fiança. Poucas semanas depois, a Greenfield, uma instituição com 50 anos de história, anunciou seu fechamento nas redes sociais, lamentando o fim de uma era. Sua saída marcou a terceira livraria independente a encerrar as atividades em apenas um mês, sinalizando um preocupante padrão de desaparecimento.

Livrarias como Santuários Intelectuais para Leitores do Continente

Para muitos leitores da China continental, as livrarias independentes de Hong Kong representam muito mais do que simples pontos de venda de livros; elas são santuários intelectuais. Chen Zhu, de 23 anos, da cidade de Guangzhou, por exemplo, viajava mensalmente para a Livraria Hunter em busca de respostas. Em 2021, ao iniciar a universidade, sua curiosidade sobre capítulos pouco discutidos da história chinesa, como o massacre da Praça da Paz Celestial de 1989 — um tema tabu rigidamente apagado da internet no continente — a levou a uma profunda investigação.

Frustrada pela ausência de informações acessíveis sobre o massacre, que Pequim minimiza, mas documentos diplomáticos britânicos sugerem ter causado a morte de pelo menos 10 mil pessoas, Zhu estava determinada a encontrar o livro <i>O Livro Não Queimado</i>, do poeta taiwanês Yang Du. Em 2023, assim que a fronteira entre a China e Hong Kong reabriu após a pandemia, ela fez a viagem para adquirir a obra, descobrindo um cenário vibrante onde rotas a pé com guias de bairro e recomendações de livros eram compartilhadas online.

Essa busca por conhecimento não é exclusiva de Zhu. Li, uma jovem de 19 anos de Xangai, expressa que as livrarias independentes oferecem um espaço onde ela pode “enxergar tantas possibilidades e onde as ideias existentes podem ser desafiadas”. Para muitos, esses estabelecimentos proporcionam uma sensação de liberdade e comunidade que consideram ausente no continente, criando um elo vital entre Hong Kong e seus vizinhos chineses.

O Futuro da Liberdade de Expressão em Hong Kong

O fechamento e a perseguição de livrarias independentes em Hong Kong levantam sérias preocupações sobre o futuro da liberdade de expressão na cidade. Esses espaços não são apenas comércios; são guardiões de um diálogo mais amplo e crítico, servindo como pontos de resistência cultural contra a homogeneização imposta. O desmantelamento desses locais não apenas priva os moradores de Hong Kong e os visitantes do continente de acesso a uma gama diversificada de ideias, mas também sinaliza uma erosão progressiva da autonomia e dos valores democráticos que antes distinguiam a região.

À medida que mais portas se fecham, o temor de que Hong Kong esteja perdendo sua identidade única como centro de pensamento livre se intensifica. A cidade, antes um refúgio para vozes dissidentes e narrativas não filtradas, corre o risco de se tornar mais um eco do rígido controle do continente, silenciando os debates e as buscas individuais por conhecimento que tanto a definiram.

Fonte: https://g1.globo.com

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