Há mais de duas décadas, um pedaço da história da aviação soviética repousa esquecido no Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Trata-se de um Yakovlev Yak-40, um avião de pequeno porte fabricado na extinta União Soviética nos anos 1960, considerado por especialistas como um exemplar único em território brasileiro. Sua presença, um misto de fascínio histórico e deterioração pelo tempo, levanta questões sobre o destino de bens apreendidos e o valor de relíquias aeronáuticas em solo nacional.

O Enigmático Jato Yakovlev Yak-40

O modelo Yakovlev Yak-40 é um jato com capacidade para até 40 passageiros, projetado para voos regionais e amplamente utilizado em seu país de origem. Com uma autonomia de cerca de três horas, a aeronave se destacava por sua robustez. Para James Rojas Waterhouse, professor de engenharia aeronáutica da USP São Carlos, o avião representa um 'laboratório vivo', ideal para o estudo de sistemas complexos, como turbinas e componentes hidráulicos, por estudantes da área. Sua singularidade no Brasil, no entanto, é também o cerne de sua complicada situação atual.

A Jornada Inusitada: Da África ao Pouso Forçado no Brasil

A trajetória deste Yak-40 até o interior paulista é digna de nota. Em 2001, a aeronave foi adquirida de São Tomé e Príncipe, na África, por um clube náutico de Belo Horizonte (MG). Com registro estrangeiro ('Sierra 9 Bravo Alfa Papa'), o avião operou voos fretados para associados, transportando-os para destinos como Búzios (RJ) e Foz do Iguaçu (PR) entre 2001 e 2002.

Foi em agosto de 2002 que a sua operação foi abruptamente interrompida. Durante uma dessas viagens, o jato realizou um pouso não programado em Ribeirão Preto. As autoridades da época, o Departamento de Aviação Civil (DAC) do estado de São Paulo, identificaram irregularidades no cumprimento das normas que regem o transporte aéreo em território nacional, culminando na apreensão definitiva da aeronave pela Receita Federal.

Disputas Legais e a Destinação Educacional Frustrada

Após a apreensão, uma longa batalha judicial se desenrolou. Os antigos proprietários do avião, o clube náutico, tentaram reaver o bem na Justiça. A questão permaneceu pendente até 2014, quando a decisão final foi favorável ao clube, que inclusive obteve o direito a uma indenização, sob o argumento de irregularidade na ação de apreensão inicial.

Paralelamente a essa disputa, o governo federal já havia determinado, em 2007, a destinação do Yak-40 à Escola de Engenharia de São Carlos, da USP, para fins educacionais. Contudo, a efetiva transferência nunca se concretizou. O professor Waterhouse explica que o principal entrave é o alto custo envolvido na operação. Seria necessário desmontar a aeronave, embalar as peças e transportá-las até a universidade, um processo estimado entre R$ 200 mil e R$ 300 mil.

A Deterioração Implacável e o Futuro Incerto

Ao longo de mais de vinte anos, exposto às intempéries do tempo, o Yak-40 sofreu uma degradação significativa. Suas peças estão em estado precário, comprometendo seu valor comercial e a viabilidade de qualquer restauração para torná-lo aeronavegável. A falta de mecânicos familiarizados com o modelo e a escassez de peças de reposição adicionam camadas de complexidade para qualquer tentativa de recuperação ou mesmo de sua plena utilização didática.

A Universidade de São Paulo, apesar do interesse em utilizar o avião como ferramenta didática, não dispõe dos recursos financeiros para cobrir os custos de desmontagem e transporte. A busca por verbas para viabilizar essa transferência tem sido contínua, mas, até o momento, sem sucesso. Assim, o Yakovlev Yak-40, um artefato da engenharia soviética e peça única no Brasil, continua sua existência como uma sucata valiosa, à espera de um desfecho para sua peculiar saga no interior de São Paulo.

Fonte: https://g1.globo.com

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