Nos recantos mais insuspeitos da memória, por vezes, reside um passado velado por segredos de proporções globais. Para a escritora argentina Laura Ramos, a figura afetuosa de sua babá na Montevidéu dos anos 1960 não era apenas uma costureira ou dona de casa. Ela era, na verdade, África de las Heras, uma coronel do serviço de inteligência soviético (KGB), cujo codinome era 'Patria'. Essa descoberta tardia transformou as lembranças infantis de Ramos em uma intrincada jornada de investigação, culminando em revelações que redefinem completamente a imagem da mulher que a alimentava e cuidava.

A Intrincada Rede da Agente 'Patria'

Por trás do nome Maria Luisa, que utilizava no Uruguai, ocultava-se uma das mais notáveis e enigmáticas espiãs da Guerra Fria. África de las Heras, uma militante comunista espanhola, forjou uma carreira clandestina de décadas a serviço da União Soviética. Sua trajetória incluiu a resistência contra o General Francisco Franco em Barcelona, atuando como telegrafista nas florestas da Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial, em combate à ocupação nazista. Sua participação se estendeu a eventos de alta relevância, como o planejamento do assassinato de León Trotsky no México, e a execução de atividades de espionagem em Paris.

Não apenas uma operadora de campo, De las Heras também foi instrutora de espiões em Moscou, antes de estabelecer sua base de operações no Uruguai, de onde coordenou uma rede de inteligência por duas décadas. Com a patente de coronel e inúmeras condecorações, ela morreu antes do colapso da União Soviética, levando consigo segredos incalculáveis, muitos dos quais jamais vieram à tona, permanecendo um mistério para a maioria das pessoas que a conheceram em sua vida de fachada.

O Enigma Revelado: A Investigação de Laura Ramos

A verdade sobre 'María Luisa' permaneceu oculta por anos, até que o irmão de Laura Ramos desvendou o véu. Chocada com a revelação, Ramos embarcou em uma investigação exaustiva de cinco anos, cujo resultado foi o livro 'Mi niñera de la KGB'. Esta obra é notável por ser o primeiro relato de alguém que conheceu África de las Heras pessoalmente, mergulhando nas profundezas de sua passagem pela América Latina e desvendando aspectos surpreendentes e, por vezes, aterrorizantes de sua vida oculta. Entre as descobertas mais impactantes, Ramos viria a compreender a dimensão de eventos sombrios, como o envenenamento do marido da espiã, ocorrido no mesmo sofá onde a menina Laura recebia leite, um contraste brutal que sublinha a dualidade da agente.

Uruguai: O Ponto Estratégico na Guerra Fria

A chegada de África de las Heras ao Uruguai, um país considerado 'fora do radar' geopolítico da época, foi uma manobra calculada. A espiã, ainda em Paris, seduziu e casou-se com o escritor uruguaio Felisberto Hernández, mudando-se para Montevidéu no final de 1947. O Uruguai se tornou, então, a base ideal para coordenar operações de inteligência e obter documentos falsos para agentes soviéticos. A principal meta de Moscou, no início da Guerra Fria, era obter informações sobre a bomba atômica dos Estados Unidos, e De las Heras desempenhou um papel crucial nessa missão.

Seu método para a criação de identidades falsas era engenhoso e macabro: visitava cemitérios no interior do Uruguai em busca de túmulos de crianças falecidas. Com as certidões de nascimento obtidas nos cartórios locais, ela confeccionava documentos para 'crianças que não haviam vivido', fornecendo coberturas perfeitas para outros agentes.

A Fachada de Montevidéu e as Memórias de Infância

Para manter uma fachada impecável em Montevidéu, a espiã se infiltrou no círculo intelectual uruguaio, aproximando-se de amigos de seu marido. Ela se apresentava como uma pessoa apolítica, oferecia-se para cuidar de crianças e realizava trabalhos de costura, atividades que a tornavam uma figura discreta e acima de qualquer suspeita. A mãe de Laura Ramos a conheceu nesse período e, anos depois, já de volta a Montevidéu com os filhos, retomou o contato com a então 'María Luisa'.

Laura Ramos guarda memórias vívidas de 1964, quando a agente da KGB cuidava dela e de seu irmão. 'Maria Luisa' os buscava na Escuela Francia e os levava para casa, onde lanchavam. Ramos descreve a espiã como uma mulher de meia-idade, cabelos grisalhos, um tanto robusta, de baixa estatura, que sempre usava saia e blusa e não possuía sotaque espanhol perceptível. Embora sua voz fosse tranquila, narrando histórias da biografia soviética 'La cuarta altura', Ramos a recorda como uma pessoa 'seca', longe de ser doce, refletindo talvez a disciplina e a rigidez inerentes à sua verdadeira profissão.

Legado de Sombras e Segredos Não Contados

A história de África de las Heras é um testemunho da profunda e muitas vezes assustadora capacidade humana de viver uma vida dupla, mantendo um véu quase impenetrável sobre a verdadeira identidade. A descoberta de Laura Ramos não apenas revelou a extraordinária trajetória de uma espiã de elite, mas também iluminou a fragilidade das aparências e o impacto duradouro dos segredos históricos na vida pessoal. A memória da 'babá' de Ramos, agora vista sob uma nova e complexa luz, permanece como um lembrete vívido dos muitos mistérios que ainda residem nas páginas não escritas da história da Guerra Fria.

Fonte: https://g1.globo.com

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