O recém-divulgado Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), revela um cenário preocupante para algumas das maiores cidades do interior paulista. Com dados referentes a 2024, o estudo aponta que municípios da região de Ribeirão Preto, como Franca, Sertãozinho e a própria Ribeirão Preto, registraram taxas de homicídio que superaram a média do estado de São Paulo, estabelecida em 6,6 crimes por 100 mil habitantes. Este panorama contrasta com a tendência nacional de queda, exigindo uma análise aprofundada das particularidades locais.
Desempenho Regional e a Metodologia dos "Registros Ocultos"
No detalhamento regional, Franca emergiu com o índice mais alarmante, atingindo 15,4 homicídios por 100 mil habitantes, totalizando 56 crimes. Esse patamar é notável por se aproximar do número absoluto de ocorrências em Ribeirão Preto (57), apesar de Franca possuir uma população que é aproximadamente metade da vizinha. Um fator decisivo para a elevação desses números foi a metodologia inovadora do Atlas, que utilizou aprendizado de máquina para reclassificar mortes violentas de causa indeterminada como homicídios, os chamados 'registros ocultos'. Em Franca, 38 dos 56 casos foram enquadrados nesse critério, somados aos 18 registros oficiais. A taxa de Franca em 2024 representa ainda um aumento significativo em relação a 2023, quando o índice era de 11,3.
Sertãozinho também registrou uma escalada dramática na taxa de homicídios, saltando de 1,5 em 2023 para 12,9 por 100 mil habitantes em 2024, com 17 crimes para uma população de cerca de 131,6 mil pessoas. Em contrapartida, Ribeirão Preto foi o único entre os grandes municípios da região a apresentar uma queda em seu índice, passando de 8,3 para 7,8 homicídios por 100 mil habitantes no mesmo período. Barretos, por sua vez, manteve-se em um patamar de 7,1 homicídios por 100 mil habitantes, sendo a menor taxa entre as cidades de grande porte analisadas na região.
A Perspectiva da Secretaria de Segurança Pública
Diante dos dados apresentados pelo Atlas da Violência, a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP/SP) trouxe uma perspectiva distinta. Em comunicado, a pasta informou que a região do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior 3 (Deinter 3), que engloba as cidades estudadas, tem demonstrado uma "queda histórica" nos índices de homicídios dolosos. A SSP/SP destacou que, no período compreendido entre abril de 2025 e março de 2026, a taxa regional foi de 5,23 homicídios dolosos por 100 mil habitantes. Este número representa uma expressiva redução de aproximadamente 66% em comparação com o início da série histórica, em 2001, quando o índice era de 15,46.
A secretaria atribuiu essa melhora à integração contínua das forças de segurança estaduais, ao reforço do policiamento ostensivo, à implementação de ações de inteligência e a programas específicos como o SPVida. Essa iniciativa promove a colaboração entre as forças na análise de ocorrências, visando tanto a solução quanto a prevenção de crimes. Além disso, a SSP/SP mencionou que as unidades da Polícia Militar e as delegacias da Polícia Civil utilizam ferramentas e aplicativos avançados para monitorar análises criminais, o que contribui para o aprimoramento constante das estratégias de prevenção da violência.
Panorama Nacional: Uma Queda Histórica com Desafios Concentrados
Apesar dos desafios pontuais observados na região de Ribeirão Preto, o Brasil registrou em 2024 a menor taxa de homicídios em 11 anos, com 20,1 crimes por 100 mil habitantes. Esse dado nacional, embora inferior ao das cidades analisadas no interior paulista, é consideravelmente mais alto que a média estadual de São Paulo, que foi a mais baixa do país. O Atlas da Violência 2026 também revelou que, dos 5.570 municípios analisados, 1.578 não registraram nenhum homicídio estimado no ano, evidenciando uma grande disparidade regional.
O estudo aprofunda a análise da distribuição da violência, mostrando que a média municipal de homicídios no país foi de 20 por 100 mil habitantes. Contudo, em metade dos municípios brasileiros, a taxa ficou abaixo de 15,3, indicando que um número relativamente pequeno de cidades com índices extremamente elevados de violência impulsiona a média nacional para cima. Um dado notável é que 50% dos homicídios do país em 2024 ocorreram em apenas 99 municípios, correspondendo a meros 1,8% das cidades brasileiras. Os dez municípios com o maior número absoluto de homicídios concentraram 19,4% do total nacional, com o Amapá sendo o estado com a maior taxa, registrando 45,7 homicídios por 100 mil habitantes.
Os dados do Atlas da Violência 2026 para a região de Ribeirão Preto revelam uma complexidade multifacetada na dinâmica da segurança pública. Enquanto o Brasil e o estado de São Paulo observam quedas históricas nos índices de homicídios, algumas de suas cidades mais populosas, impulsionadas pela reclassificação de mortes de causa indeterminada, enfrentam um desafio crescente. A disparidade entre os números apresentados pelo Atlas e a visão da Secretaria de Segurança Pública sublinha a importância de análises detalhadas e contínuas para a formulação de políticas públicas eficazes, que considerem tanto as tendências macro quanto as especificidades e as metodologias de levantamento de cada localidade.
Fonte: https://g1.globo.com

