Doze anos após os brutais episódios de tortura que chocaram o Brasil em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, o caso volta aos holofotes com desenvolvimentos cruciais que se estenderam até Portugal. As recentes condenações definitivas dos responsáveis, que esgotaram todos os recursos legais, culminaram na mobilização da Polícia Internacional (Interpol) e na prisão de dois dos principais acusados em solo europeu.

A saga judicial, marcada por uma complexa teia de investigações e recursos, alcançou um novo patamar em junho deste ano, quando o Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou as sentenças de 17 anos e seis meses de prisão para quatro indivíduos. Considerados foragidos pela justiça brasileira, três deles já foram capturados, revelando o alcance transnacional da perseguição àqueles que impunham sofrimento sistemático a pessoas em situação de vulnerabilidade.

A História Sombria da Clínica de Reabilitação

O cenário dos crimes era o Centro de Tratamento e Recuperação de Álcool e Drogas, localizado no bairro Recreio das Acácias, em Ribeirão Preto. As investigações foram deflagradas em 2014, impulsionadas por denúncias alarmantes de ex-internos e seus familiares à Promotoria de Justiça. Em 5 de agosto daquele ano, uma operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público confirmou as suspeitas, revelando um ambiente de violência institucionalizada.

Durante a intervenção, dez pacientes foram resgatados do local, e as autoridades apreenderam evidências contundentes dos abusos, incluindo pedaços de madeira, cordas e faixas hospitalares, que eram utilizados para conter e agredir os internos. Os depoimentos colhidos pintaram um quadro aterrorizante: as vítimas eram submetidas a espancamentos com pedaços de madeira e tacos de bilhar, eram amarradas por longos períodos e forçadas a passar por humilhações públicas, como caminhar nuas pelas instalações. Além disso, foi descoberto que uma perigosa mistura de sedativos controlados, apelidada de 'danoninho', era administrada sem prescrição médica para anular a resistência dos pacientes.

O Longo Caminho da Justiça e as Condenações Definitivas

O lapso de 12 anos entre as primeiras diligências policiais e as recentes prisões reflete a complexidade inerente ao processo legal e a exaustiva sequência de recursos apresentados pela defesa. A denúncia formal contra os quatro réus foi protocolada pelo Ministério Público apenas em junho de 2017, após uma fase investigatória detalhada. Durante a instrução processual, a Justiça colheu o depoimento de dezenas de pessoas, incluindo 24 ex-internos que testemunharam os horrores vivenciados, além de testemunhas de acusação e defesa, investigadores policiais e o delegado responsável pelo caso.

Apesar da morosidade, o sistema judiciário brasileiro finalmente confirmou as condenações, encerrando o ciclo de recursos e ratificando a pena de mais de uma década e meia de prisão para os envolvidos. Esta decisão do Superior Tribunal de Justiça marcou o ponto de virada que transformou os condenados em foragidos da justiça, dando início à fase de cumprimento das sentenças e à busca pelos indivíduos que tentavam escapar da punição.

A Fuga para Portugal e a Mobilização da Interpol

Com as condenações transitadas em julgado, o psicólogo Djalma Antonio Henares Junior e sua ex-esposa, a advogada Marluci Cabrera Bellini Henares, foram listados entre os indivíduos mais procurados pela Polícia Internacional (Interpol), indicando que haviam deixado o território nacional na tentativa de evadir-se da justiça. A inclusão de seus nomes na difusão vermelha da Interpol ativou uma vasta rede de cooperação policial entre países, demonstrando a seriedade e o alcance do crime cometido.

As operações internacionais renderam frutos rapidamente em Portugal. Djalma Henares, de 56 anos, foi localizado e detido em 9 de julho na cidade de Amadora, na região metropolitana de Lisboa. Dias depois, em 17 de julho, Marluci Bellini, de 49 anos, foi capturada na ilha de São Miguel, no arquipélago autônomo dos Açores. Ambos permanecem sob custódia preventiva das autoridades portuguesas, aguardando a avaliação do pedido de extradição formalmente apresentado pela justiça brasileira para que possam cumprir suas penas no Brasil.

Os Réus e o Próximo Capítulo Legal

Os quatro réus condenados pelos crimes de tortura na clínica de Ribeirão Preto são: Djalma Antonio Henares Junior, um dos sócios-proprietários; Marluci Cabrera Bellini Henares, ex-esposa de Djalma e também sócia-proprietária; Maria Tereza Cabrera Bellini, irmã de Marluci, que atuava como médica psiquiatra e responsável técnica da clínica; e Angelo Bellini Neto, monitor de segurança e sobrinho de Djalma e Maria Tereza.

Atualmente, Djalma e Marluci estão presos em Portugal, aguardando o processo de extradição. Angelo Bellini Neto foi detido em Cravinhos, na região de Ribeirão Preto, e já se encontra sob custódia da justiça brasileira. No entanto, a médica psiquiatra Maria Tereza Cabrera Bellini permanece foragida. Mandados de busca e apreensão foram expedidos para diversos endereços em Ribeirão Preto e Cravinhos, mas as autoridades ainda não conseguiram localizá-la, mantendo-a na lista dos procurados e ressaltando que a busca por justiça completa ainda não se encerrou.

Este caso sublinha a persistência do sistema de justiça em responsabilizar indivíduos por crimes graves, mesmo diante de anos de recursos e da complexidade de investigações que atravessam fronteiras. A cooperação internacional, mediada pela Interpol, foi fundamental para garantir que os condenados por atos de tamanha crueldade não encontrassem refúgio definitivo em outro país, reforçando a mensagem de que a impunidade não prevalecerá.

Fonte: https://g1.globo.com

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