A fronteira entre Paquistão e Afeganistão, outrora palco de uma aliança estratégica complexa, transformou-se em uma zona de conflito aberto. Após semanas de crescentes tensões e trocas de acusações, os dois países iniciaram uma escalada militar intensa, com bombardeios e ataques retaliatórios que marcam uma deterioração alarmante nas relações bilaterais. Este embate não apenas desafia um histórico de proximidade, mas também expõe profundas divergências geopolíticas e a persistente ameaça de grupos militantes transfronteiriços.

A Complexa Aliança em Crise

Por décadas, o Paquistão foi um pilar fundamental no apoio ao Talibã afegão, desempenhando um papel crucial em sua ascensão no início dos anos 1990. Essa aliança era vista por Islamabad como um meio de assegurar 'profundidade estratégica' diante de sua rivalidade com a Índia. Contudo, a retomada do poder pelo Talibã em 2021, embora inicialmente saudada pelo então primeiro-ministro paquistanês, marcou o início de uma série de desafios diplomáticos e de segurança. A aproximação do Afeganistão com o governo indiano, evidenciada por envios de ajuda humanitária desde 2022 e o anúncio de parcerias em 2025, foi particularmente malvista por Islamabad, que percebe essa reaproximação como uma ameaça aos seus interesses regionais.

A Sombra do Terrorismo Transfronteiriço

Um dos principais catalisadores da atual escalada é a atuação do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), um grupo terrorista que tem travado uma guerra contra o Estado paquistanês desde 2007. Com o objetivo de impor um rígido modelo de governo islâmico no Paquistão, similar ao do Talibã afegão, o TTP intensificou seus ataques nos últimos meses. Incidentes como o atentado suicida em uma mesquita xiita em Islamabad, que deixou 31 mortos, e outro ataque que causou 12 mortes em frente a um tribunal, demonstram a capacidade destrutiva do grupo. O Paquistão acusa veementemente o Afeganistão de abrigar a liderança e combatentes do TTP, além de insurgentes do Baluchistão. Cabul, por sua vez, nega qualquer apoio a militantes e revida, acusando Islamabad de fornecer refúgio a combatentes do Estado Islâmico, seu inimigo declarado, uma alegação que o Paquistão também refuta.

Escalada Recente e Reações

Embora uma escalada semelhante tenha sido evitada em outubro, quando um cessar-fogo foi negociado com mediação da Turquia, Catar e Arábia Saudita, a trégua mostrou-se frágil, marcada por repetidos confrontos e fechamentos de fronteiras. A tensão culminou em uma série de ataques na última semana. No dia 21, o Paquistão lançou ataques aéreos no Afeganistão, afirmando ter como alvo militantes responsáveis por atentados suicidas recentes em seu território. Enquanto Islamabad alegou ter eliminado 70 terroristas, Cabul e as Nações Unidas relataram a morte de pelo menos 13 civis, classificando o ato como uma 'violação de soberania'. A retaliação não demorou: no dia 24, militantes, reivindicados pelo TTP, emboscaram um veículo policial e realizaram um ataque suicida a um posto de controle no Paquistão, resultando na morte de sete policiais e dois civis. Poucos dias antes, outro ataque perpetrado por um afegão ligado ao TTP já havia vitimado 11 membros das forças de segurança paquistanesas e dois civis.

Desequilíbrio de Forças e Perspectivas Futuras

A assimetria militar entre os dois países é notável. O Paquistão possui uma das maiores forças armadas do mundo, com mais de 600 mil militares na ativa, armas nucleares, milhares de veículos blindados e centenas de aeronaves de combate, conforme dados de 2025. Em contraste, o Talibã afegão conta com aproximadamente 172 mil soldados, menos de um terço do efetivo paquistanês, e carece do mesmo poderio tecnológico. Analistas da agência Reuters preveem que o Paquistão provavelmente intensificará sua campanha militar em resposta aos ataques, enquanto a retaliação afegã poderá se manifestar em ataques a postos de fronteira, aumentando a instabilidade em uma região já volátil. A dinâmica do conflito, portanto, sugere uma intensificação da pressão militar paquistanesa e respostas limitadas, mas impactantes, do lado afegão.

O cenário atual entre Paquistão e Afeganistão é de profunda incerteza e grave risco regional. O rompimento de uma aliança histórica, impulsionado por questões geopolíticas, desconfiança mútua e a persistência do terrorismo transfronteiriço, cria um ambiente propício para a escalada. Sem uma solução diplomática eficaz à vista, e com a crescente militarização da fronteira, a comunidade internacional observa com preocupação os desdobramentos de um conflito que pode desestabilizar ainda mais o sul da Ásia.

Fonte: https://g1.globo.com

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