A controvérsia em torno das ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) atingiu um novo patamar de indignação após a morte a tiros de uma moradora de Minneapolis por um agente da agência. Este incidente provocou uma onda de protestos e, de forma notável, gerou uma forte condenação por parte de Joe Rogan, um dos mais influentes influenciadores e podcasters conservadores, conhecido por seu apoio a Donald Trump. Em um movimento que chocou muitos de seus seguidores e observadores políticos, Rogan comparou os métodos do ICE aos da polícia de Adolf Hitler na Alemanha nazista.

Joe Rogan e a Linha Vermelha Cruzada

A declaração de Joe Rogan ganha peso significativo devido ao seu histórico como um dos mais midiáticos e estratégicos apoiadores do ex-presidente Donald Trump. Seu podcast é o mais ouvido dos EUA, com milhões de assinantes no Spotify e YouTube, e ele possui uma audiência vasta, especialmente entre homens jovens com valores conservadores, que foram cruciais para a ascensão política de Trump. Embora Rogan tenha reconhecido que a perseguição a imigrantes é parte do plano para o qual Trump foi eleito, ele contestou veementemente os métodos empregados pela agência federal, afirmando:

“Não queremos militares armados circulando pelas ruas, prendendo pessoas aleatoriamente, muitas das quais acabam sendo cidadãos norte-americanos que simplesmente não estão com seus documentos no momento. Vamos realmente nos transformar na Gestapo? ‘Mostre seus documentos’. É isso mesmo que está acontecendo agora?” A analogia com a Gestapo nazista sublinha a gravidade de sua preocupação, marcando uma rara e potente divergência de um aliado tão proeminente.

Escalada da Violência e a Reação Pública

A violência atribuída ao ICE tem sido um catalisador para a indignação crescente em todo o país. Além do incidente em Minneapolis, que culminou na morte de Renée Good, manifestações contra agentes federais do ICE têm ocorrido em diversas cidades americanas. A preocupação se aprofunda com dados oficiais revelando um aumento alarmante no número de mortes sob custódia da agência. Pelo menos quatro pessoas morreram em 2026, e 2025 registrou o ano com mais mortes desde a criação do ICE em 2003, totalizando ao menos 30 óbitos. A questão transcendeu fronteiras, com o México solicitando oficialmente explicações sobre a morte de um de seus cidadãos sob detenção do ICE no estado da Geórgia.

Expansão de Poderes e Métodos Operacionais do ICE

A intensificação das ações do ICE está intrinsecamente ligada à significativa ampliação de seu orçamento e de sua margem de atuação sob a administração Trump. O orçamento destinado à implementação da política de imigração foi multiplicado por dez, atingindo US$ 170 bilhões para o Departamento de Segurança Interna. Esses recursos foram empregados na aquisição de equipamentos, armas, coletes de proteção e material letal e não letal, como tasers e munições de gás, conforme explicou a pesquisadora Charlotte Recoquillon, especialista em violência policial do Instituto Francês de Geopolítica.

Em julho, o ICE recebeu “autorização total” para adotar todas as medidas que considerasse necessárias para sua “proteção”, uma diretriz que, na prática, expandiu drasticamente a discricionariedade dos agentes durante operações e abordagens. Olivier Piton, advogado especializado em direito público em Washington, observou à Rádio Canadá que, embora as missões de combater a imigração irregular fossem claras, os decretos não estabeleciam limites legais definidos para enquadrar a atuação da agência. Além disso, o governo Trump estabeleceu metas ambiciosas de detenções, pressionando as agências a prenderem 3 mil imigrantes em situação irregular por dia, visando aumentar o número de deportações. A morte de uma cidadã norte-americana em Minneapolis é um indicativo de que a violência nos métodos empregados pelos agentes federais de imigração atingiu um novo e preocupante patamar.

Repercussões Políticas para o Cenário de Trump

O distanciamento de Joe Rogan, que já foi descrito como “o eleitor indeciso mais famoso dos EUA”, não é um bom presságio para Donald Trump. A crítica vinda de um apoiador tão leal e influente sugere uma erosão do consenso, mesmo dentro de sua base conservadora, sobre a abordagem implacável da imigração. Não é a primeira vez que a política imigratória de Trump enfrenta forte rejeição; vários outros apresentadores influentes de podcasts e programas de entrevistas voltados ao público masculino, que antes apoiavam o presidente, retiraram seu respaldo. Trump, por sua vez, continua a defender o ICE no caso da morte de Renée Good, mantendo sua postura linha-dura. A manifestação de descontentamento por parte de vozes como a de Rogan pode sinalizar um desafio crescente à capacidade de Trump de manter o apoio unificado de seu eleitorado, à medida que a violência e as polêmicas em torno das ações do ICE persistem.

A controvérsia gerada pelas ações do ICE e a subsequente condenação de Joe Rogan revelam uma fissura significativa no debate sobre imigração nos EUA. A tensão entre a política de linha-dura do governo Trump e as crescentes preocupações com os direitos humanos e os métodos das agências federais continua a gerar indignação pública e a remodelar o panorama do apoio político, mesmo entre os aliados mais improváveis.

Fonte: https://g1.globo.com

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