O Departamento de Justiça dos Estados Unidos veio a público nesta terça-feira para desmentir veementemente o que descreveu como “afirmações falsas e sensacionalistas” direcionadas ao ex-presidente Donald Trump. Essas alegações surgiram em um novo lote de documentos confidenciais, recém-divulgados, relacionados ao escandaloso caso Jeffrey Epstein. O órgão federal, que operava sob a administração de Trump na época da declaração, não especificou quais das inúmeras menções ao então presidente seriam consideradas verídicas ou quais seriam as supostas falsidades. A divulgação desses arquivos, que somam mais de 30 mil documentos, reacende o debate sobre a vasta rede de exploração sexual mantida pelo bilionário Jeffrey Epstein, já condenado por abuso de menores, e as conexões de Epstein com figuras proeminentes da política e do entretenimento.
As Novas Revelações e as Acusações Controvertidas
A Posição do Departamento de Justiça e a Liberação dos Documentos
A declaração oficial do Departamento de Justiça foi categórica, afirmando que as acusações em questão foram submetidas ao FBI pouco antes da eleição presidencial de 2020. O órgão reforçou que tais alegações carecem de fundamentos e são inteiramente falsas, sugerindo que, se houvesse qualquer traço de credibilidade, elas certamente já teriam sido utilizadas como armamento político contra o presidente Trump em momentos cruciais. A liberação desses documentos faz parte de um processo mais amplo, imposto pelo Congresso americano e sancionado pelo próprio Donald Trump, que visa trazer à tona a totalidade das informações sobre a complexa teia de crimes de Jeffrey Epstein.
Esta mais recente remessa de arquivos inclui uma variedade de materiais, como fotos inéditas, registros de áudio, documentos judiciais detalhados, relatórios do FBI e centenas de vídeos. Entre as gravações, destacam-se imagens de vigilância capturadas em agosto de 2019, período em que Jeffrey Epstein foi encontrado morto em sua cela, um evento que por si só gerou inúmeras teorias e controvérsias. A liberação desses documentos ocorre dias após uma primeira leva, que já havia revelado fotografias de celebridades, menções a conexões com o Brasil e um número considerável de páginas censuradas, gerando críticas e acusações de lentidão e retenção de informações por parte do Departamento de Justiça, especialmente vindas da oposição democrata.
Embora o prazo para a publicação de todos os documentos relacionados ao caso Epstein tenha expirado anteriormente, as autoridades indicaram que a divulgação seria gradual. Um vice-procurador-geral chegou a mencionar a intenção de liberar centenas de milhares de documentos ao longo das semanas seguintes, mas ressaltou que a totalidade dos arquivos poderia não ser disponibilizada de uma só vez. A justificativa para a retenção parcial reside na necessidade de proteger informações pessoais de vítimas de tráfico sexual e dados de investigações ainda em andamento, embora a legislação proíba a censura baseada em “constrangimento, dano à reputação ou sensibilidade política”, levantando questões sobre a transparência completa.
Conexões e Conteúdo dos Arquivos Epstein
Celebridades, Figuras Políticas e Menções ao Brasil
A primeira grande remessa de arquivos sobre a investigação de Jeffrey Epstein já havia chocado a opinião pública ao expor fotos do bilionário ao lado de figuras icônicas como Michael Jackson e em jantares com o ex-presidente Bill Clinton e o roqueiro Mick Jagger. O contexto exato dessas imagens, no entanto, permanece obscuro em muitos casos. Além das celebridades, os documentos contêm referências a uma ampla gama de personalidades do alto escalão, reforçando a imagem de Epstein como um indivíduo com vasta influência e acesso a círculos de poder globais, alimentando especulações sobre a extensão de sua rede e os possíveis envolvidos em seus crimes.
Os arquivos também revelaram surpreendentes menções ao Brasil, indicando possíveis conexões sul-americanas na rede de Epstein. Em um dos documentos, datado de janeiro de 2005, há um recado direcionando Epstein a ligar para um novo número de telefone de uma mulher, com o assunto explícito “Brasil”. A identidade da pessoa que fez o pedido, contudo, foi censurada. Outra anotação manuscrita intrigante sugere que uma mulher foi fotografada sem seu consentimento. Esta pessoa, cujo nome também foi omitido, teria viajado ao Brasil aos 18 anos e retornado aos Estados Unidos dois anos mais tarde. Essas referências, embora fragmentadas, sugerem a internacionalidade das operações de Epstein e abrem novas frentes para futuras investigações ou especulações.
A lei que rege a divulgação desses documentos permite que o Departamento de Justiça omita informações pessoais de vítimas e dados de investigações em curso. No entanto, ela explicitamente proíbe a censura de material com base em “constrangimento, dano à reputação ou sensibilidade política”. Esta ressalva é crucial, pois tenta equilibrar a proteção de indivíduos vulneráveis com a exigência de transparência pública em um caso de tamanha magnitude. Epstein foi formalmente acusado de abusar de mais de 250 meninas menores de idade, e a constante batalha pela liberação desses arquivos reflete o clamor público por justiça e responsabilização, independentemente do status social ou político dos envolvidos.
A Dinâmica Política e as Implicações das Revelações
O caso Jeffrey Epstein tem se entrelaçado profundamente com a política americana, especialmente durante a administração e as campanhas de Donald Trump. Inicialmente, Trump havia prometido, durante sua campanha de 2024, que, se retornasse à Casa Branca, tornaria públicos os arquivos secretos do caso, chegando a expressar estranheza pela lista de clientes de Epstein nunca ter sido totalmente divulgada. No entanto, sua postura oscilou significativamente ao longo do tempo. Houve um momento em que a procuradora-geral de Trump afirmou ter uma lista de clientes em sua mesa para revisão, mas o Departamento de Justiça, posteriormente, declarou não ter encontrado provas de tal relação. Essa inconsistência frustrou muitos apoiadores de Trump, alimentando teorias da conspiração e gerando críticas.
A pressão política para a divulgação total dos documentos aumentou, vindo tanto da oposição democrata quanto de membros do próprio partido republicano. Em novembro, o Congresso dos EUA divulgou mensagens que sugeriam que Trump poderia ter conhecimento da conduta de Epstein. E-mails datados de 2018 e 2019 mostram Epstein mencionando que Trump “sabia sobre as garotas” e que uma vítima “passou horas” em sua casa com o então futuro presidente, com menção explícita a Mar-a-Lago, o resort de Trump. Essas comunicações levantaram sérias dúvidas sobre a profundidade da relação entre Trump e Epstein, contradizendo as declarações públicas de que eram apenas conhecidos.
Diante das crescentes revelações e pressões, Trump, em certo ponto, mudou sua posição, passando a defender a aprovação da proposta de liberação dos arquivos, afirmando que os republicanos “não tinham nada a esconder”. No entanto, sua administração e lideranças republicanas haviam tentado, inicialmente, barrar o projeto. A Casa Branca, através de sua porta-voz, tentou minimizar o impacto das mensagens, classificando as alegações como uma “armadilha” criada pela oposição e reiterando que o presidente “não fez nada de errado”. A complexidade do caso Epstein, com suas ramificações em esferas de poder e a constante disputa política em torno da verdade, continua a ser um teste para a transparência governamental e a capacidade de responsabilizar indivíduos, independentemente de sua influência, deixando a sociedade a clamar por respostas completas e definitivas sobre essa rede de crimes hediondos.
Fonte: https://g1.globo.com

