As redes sociais humanas transbordam com desinformação, um fenômeno que se manifesta em boatos, vídeos e imagens manipuladas, e uma vasta quantidade de fofocas sem base na realidade. Este cenário, embora pareça uma invenção da era digital, pode ter raízes muito mais profundas e uma abrangência surpreendente. Um estudo recente sugere que a desinformação não é uma invenção humana, mas sim uma característica intrínseca e antiga que permeia toda a vida terrestre. A pesquisa, que examinou décadas de estudos sobre a comunicação entre espécies, aponta que sinais enganosos são uma propriedade inerente dos sistemas biológicos. De bactérias a aves e grupos humanos, a capacidade de emitir e receber informações imprecisas ou deliberadamente falsas parece ser um componente fundamental da interação social, moldando ecossistemas e comportamentos de maneira complexa e muitas vezes benéfica para os enganadores.
A desinformação como pilar da comunicação biológica
Um extenso trabalho de revisão, que compilou e analisou décadas de investigações sobre como informações falsas ou imprecisas circulam na natureza, revela uma perspectiva inovadora: a comunicação social invariavelmente carrega consigo a informação enganosa, e frequentemente, a mentira é transmitida de forma intencional. Longe de ser uma anomalia ou uma patologia dos sistemas biológicos, a desinformação transmitida socialmente é apresentada como uma característica onipresente da comunicação. Isso significa que ela deve ser encarada como uma parte fundamental dos sistemas sociais, ecológicos e evolutivos.
Os pesquisadores argumentam que a presença de sinais enganosos é tão antiga quanto a própria comunicação. Em diversos níveis da vida, desde microrganismos até mamíferos complexos, a capacidade de distorcer a realidade por meio de sinais pode conferir vantagens adaptativas significativas. Essa visão desafia a noção tradicional de que a comunicação biológica visa apenas a troca de dados precisos e verdadeiros, mostrando que a ambiguidade e o engano são ferramentas poderosas na luta pela sobrevivência e reprodução. Ao compreender que a desinformação é um elemento intrínseco, abrimos caminho para uma análise mais profunda de como ela modela a estrutura e o funcionamento de grupos sociais em toda a natureza.
Os “mentirosos” do reino aviário: o caso do chapim-real
Dentre as espécies estudadas, um caso notável de mestre da desinformação é o chapim-real (Parus major), uma ave comum em muitas partes da Europa e Ásia. Observações detalhadas revelam que este pequeno pássaro emite alarmes falsos com uma frequência espantosa: cerca de dois terços dos gritos de alarme proferidos por eles em áreas de alimentação são, na verdade, inverídicos.
Parte desses alarmes pode surgir por erro, como uma reação exagerada à sombra de uma folha se movendo ou a um som inofensivo que é interpretado erroneamente como uma ameaça. No entanto, há evidências substanciais de que uma parcela significativa desses falsos alertas é produzida deliberadamente. A estratégia é simples e eficaz: ao “gritar fogo no restaurante”, ou seja, emitir um alarme de predador sem que haja um real perigo, o chapim-real provoca a fuga dos outros pássaros que estão se alimentando. Com a área subitamente desimpedida, o engenhoso enganador ganha acesso exclusivo aos recursos alimentares, roubando a comida do prato do vizinho.
O intrigante é que, apesar de serem mentirosos contumazes, os próprios chapins-reais (e outras aves) continuam a acreditar nos alertas, inclusive nos falsos, vindos de seus congêneres. Os pesquisadores explicam que isso é um resultado direto do alto custo de ignorar um alerta verdadeiro. Em um ambiente selvagem, a demora em reagir a um predador real pode significar a morte. Portanto, a decisão de fugir deve ser tomada rapidamente, e a prudência prevalece sobre a verificação da veracidade. Indivíduos que emitem sinais enganosos se beneficiam diretamente, obtendo acesso facilitado a alimentos ou parceiros sem a concorrência do grupo, o que lhes confere uma vantagem evolutiva clara.
Estratégias de engano em diversas espécies
Embora o chapim-real seja um exemplo eloquente de desinformação intencional, a biologia mostra que a eficácia de uma mentira na natureza depende, em grande parte, de sua frequência. Alarmes falsos ou sinais enganosos funcionam melhor quando são eventos raros. Se o engano se torna uma ocorrência comum, o grupo, ao longo do tempo, desenvolve a capacidade de ignorar os sinais daquele indivíduo ou de diminuir a sua credibilidade, tornando a estratégia ineficaz.
A disseminação de desinformação não está restrita apenas às aves. Ela pode ser observada em uma vasta gama de espécies, demonstrando a universalidade do fenômeno. Por exemplo, no mundo microscópico, bactérias utilizam sinais químicos para coordenar defesas coletivas contra ameaças. Contudo, algumas vezes, certas bactérias podem emitir esses sinais prematuramente ou de forma indevida, induzindo as demais a produzirem defesas fora do momento apropriado. Essa “falsa alarme química” pode esgotar recursos ou expor o grupo a perigos reais quando as defesas não estão mais disponíveis.
Em outro extremo do espectro biológico, observamos comportamentos semelhantes em mamíferos marinhos. Há registros de populações de baleias e golfinhos que copiam rotas migratórias desatualizadas. Ao confiar na liderança de um ou mais representantes de uma tradição coletiva, que pode ter sido eficaz no passado, mas se tornou obsoleta devido a mudanças ambientais ou climáticas, esses grupos podem ser expostos a maiores perigos, como áreas com escassez de alimentos ou predadores. Isso demonstra como a confiança na informação transmitida socialmente, mesmo que imprecisa ou enganosa (ainda que não intencionalmente neste caso), pode ter consequências sérias para a sobrevivência do grupo.
Implicações para a compreensão da sociedade
Após estabelecer um modelo teórico abrangente que demonstra o papel onipresente da desinformação, os pesquisadores buscam agora explorar os impactos práticos de entender este fenômeno. A relevância transcende o reino animal, oferecendo insights valiosos sobre como a desinformação pode tanto manter grupos coesos quanto separá-los.
Princípios semelhantes, sugerem os especialistas, podem atuar em cardumes, comunidades de primatas e, crucialmente, em plataformas digitais frequentadas por humanos. A tendência de as pessoas acreditarem mais na autoridade ou na popularidade de quem diz algo do que na própria veracidade da informação ecoa a dinâmica observada em diversas espécies. A “confiabilidade” da fonte pode, muitas vezes, suplantar a avaliação crítica do conteúdo, um mecanismo que a evolução forjou para agilizar decisões, mas que se torna uma vulnerabilidade em contextos onde a desinformação é proliferada.
A compreensão desses limites biológicos na percepção e transmissão de informações pode inspirar novas estratégias humanas para o controle de boatos e a mitigação da desinformação em nossa própria sociedade. Ao reconhecer que a propensão ao engano e à credulidade são características profundamente enraizadas em nossos sistemas biológicos de comunicação, podemos desenvolver abordagens mais eficazes para promover o pensamento crítico e a disseminação de informações precisas, tanto online quanto offline. A natureza, com sua sabedoria milenar, oferece lições cruciais sobre os desafios e as oportunidades da verdade em um mundo repleto de sinais.
Um novo olhar sobre a verdade e o engano na natureza
A pesquisa redefine nossa compreensão da desinformação, transcendendo a percepção de que é um mero subproduto da sociedade tecnológica humana. Ao invés disso, ela se revela como uma faceta fundamental e inerente à comunicação biológica, um mecanismo antigo que moldou a evolução de inúmeras espécies. De bactérias a pássaros e mamíferos marinhos, a capacidade de enganar e ser enganado é uma estratégia adaptativa complexa, com custos e benefícios claros para a sobrevivência e reprodução. Essa universalidade sugere que a desinformação não é uma falha no sistema, mas uma parte integrante e funcional do ecossistema informacional, tanto natural quanto social. Ao reconhecer essa realidade, ganhamos uma perspectiva valiosa para analisar os desafios contemporâneos da verdade e da mentira em nossas próprias comunidades.
Perguntas frequentes sobre a desinformação no reino animal
Qual é a principal descoberta do estudo sobre desinformação?
O estudo revela que a desinformação não é exclusiva dos seres humanos, mas sim uma característica intrínseca e onipresente dos sistemas biológicos de comunicação em toda a natureza, abrangendo desde bactérias até aves e mamíferos.
Como os animais se beneficiam da desinformação?
Animais que emitem sinais enganosos podem obter benefícios diretos, como acesso exclusivo a recursos alimentares ou parceiros, ao afastar competidores. O alto custo de ignorar um alerta verdadeiro faz com que outros indivíduos continuem a acreditar, mesmo em sinais falsos.
Quais espécies foram estudadas além das aves?
Além do chapim-real, que é um exemplo notável de ave enganadora, o estudo também analisou a desinformação em bactérias (que usam sinais químicos para defesas coletivas) e mamíferos marinhos como baleias e golfinhos (que podem seguir rotas migratórias desatualizadas por confiança).
Para explorar mais sobre como a natureza nos ensina sobre os desafios da informação em nossa própria sociedade, mantenha-se informado com nossas próximas análises.
Fonte: https://www.metropoles.com

