O que começou como um contratempo em um treino de mountain bike transformou-se em uma história de resgate com contornos de providência. Em Ituverava, interior de São Paulo, o ciclista Agustinho Albino de Queiroz, de Uberaba (MG), teve seu GPS travado durante o reconhecimento de uma trilha. Esse desvio inesperado o guiou até o operador de máquinas José Carlos Cruz Júnior, que estava desaparecido há dois dias, gravemente ferido em uma vala às margens da rodovia vicinal Liliana Tenuto Rosa, entre Ituverava e Guará.
A Inesperada Rota do Resgate
Agustinho, que se preparava para uma prova, estava focado em seu percurso quando seu aparelho de navegação falhou, forçando-o a sair da rota planejada. Foi exatamente nesse momento que ele começou a ouvir pedidos de socorro abafados, vindos do meio da vegetação densa. Inicialmente, o ciclista pensou que poderiam ser animais ou trabalhadores na estrada, mas a persistência e o tom humano das vozes o impulsionaram a investigar mais de perto.
Impulsionado pela desconfiança, Agustinho adentrou o mato alto e logo avistou uma motocicleta caída. Poucos metros além, a cena era dramática: José Carlos estava ferido, visivelmente debilitado e quase sem conseguir falar, clamando por ajuda. Percebendo a gravidade da situação e o risco de piorar os ferimentos, o ciclista optou por não movê-lo, concentrando-se em buscar auxílio.
Dois Dias de Agonia e Luta pela Sobrevivência
José Carlos Cruz Júnior havia saído de Ituverava em 17 de junho para visitar um amigo em Guará quando o acidente aconteceu. Segundo seu relato, ao tentar corrigir a direção de sua moto, a roda dianteira saiu da pista, lançando-o violentamente para fora da rodovia. Ele caiu em uma vala profunda e oculta pelo mato alto, sofrendo uma fratura na coluna e múltiplas costelas quebradas já no impacto inicial.
Imobilizado pelos ferimentos, José Carlos passou dois longos dias e noites completamente isolado. Ele ouvia centenas de carros passarem, mas a densa vegetação impedia que qualquer pessoa o visse ou ouvisse seus frágeis pedidos de socorro. Sem comida ou água, e exposto às baixas temperaturas noturnas, seu estado de saúde deteriorava rapidamente. Nos momentos finais, antes de ser encontrado, ele já começava a delirar, em um limite entre a vida e a morte.
O Resgate e o Reencontro Emocional
Após encontrar José Carlos, Agustinho tentou desesperadamente sinalizar para os veículos que passavam na estrada. Inicialmente, ninguém parou, mas a persistência do ciclista foi recompensada quando um casal finalmente se deteve e reconheceu o homem ferido. “É o homem que está desaparecido há dias!”, exclamaram, revelando a Agustinho que o resgatado era procurado por sua família há dois dias.
Enquanto aguardavam a chegada do socorro, mais pessoas se aproximaram do local, incluindo uma das filhas de José Carlos, que o procurava incessantemente desde o desaparecimento. O reencontro foi marcado por uma forte emoção, com a filha em prantos ao ver o pai, mas aliviada por saber que ele estava vivo. Agustinho fez questão de tranquilizá-la, confirmando que, apesar dos ferimentos, a vida de José Carlos estava a salvo.
Um Testemunho de Fé e Gratidão
A providência do encontro foi um ponto comum nas reflexões de ambos os homens. Agustinho relatou que a decisão de viajar a Guará para conhecer a pista da competição foi tomada de última hora na noite anterior. A sequência de falhas no GPS, culminando no travamento exato que o levou ao local do acidente, foi interpretada por ele como uma intervenção divina. “Acho que foi Deus que me mandou até lá”, afirmou o ciclista.
Após ser resgatado e iniciar sua recuperação em um hospital, José Carlos fez questão de telefonar para Agustinho. A conversa foi carregada de emoção e gratidão. José Carlos agradeceu profundamente ao seu salvador, que, por sua vez, atribuiu o mérito a uma força maior: “Eu só servi de instrumento para que ele fosse encontrado”, disse Agustinho, reforçando a crença em um milagre que lhe permitiu sobreviver e a ele, ser o emissário da salvação. José Carlos foi posteriormente transferido para um hospital particular em Ribeirão, onde continua seu tratamento.
Fonte: https://g1.globo.com

