Um levantamento recente conduzido pela plataforma Acordo Certo, divulgado com exclusividade ao g1, acende um alerta sobre o perfil dos apostadores endividados na região de Ribeirão Preto (SP). Os dados revelam que mulheres e indivíduos com 55 anos ou mais são majoritários nesse cenário preocupante, com a participação feminina superando significativamente a média nacional e a terceira idade sendo um grupo vulnerável.

O Perfil do Apostador Endividado na Região

O estudo, que entrevistou 237 pessoas endividadas em 21 cidades da região, incluindo Ribeirão Preto, Franca, Barretos e Sertãozinho, traça um panorama preocupante. Quase um terço dos entrevistados (32,5%) encontra-se negativado, e uma parcela ainda maior, 43,9%, estima dever mais de R$ 5 mil em decorrência das apostas. A pesquisa também aponta que aproximadamente um em cada dez apostadores recorreu a empréstimos, cheque especial ou cartão de crédito, ou deixou de pagar contas básicas nos últimos 12 meses para sustentar o hábito.

Mulheres em Maioria: Entre a Necessidade e a Vulnerabilidade

As mulheres representam 50,6% do público endividado por apostas na região, uma participação oito pontos percentuais acima da média nacional. Eduardo Cavalheiro, um dos organizadores do estudo, aponta que muitas dessas mulheres são mães, chefes de família com baixa renda, que veem nas apostas uma desesperada esperança de complementar o orçamento doméstico. Essa busca por aumento de renda, pagamento de contas ou recuperação de perdas é motivada em 56% dos casos por mulheres, sendo que 65% delas possuem renda familiar de até dois salários mínimos. Uma pesquisa nacional externa, a Mulheres & Bets, reforça esse quadro ao indicar que 72% das apostadoras têm filhos, evidenciando a dimensão social e familiar do problema.

Idosos e o Fator Solidão nas Apostas Online

O levantamento também revela que pessoas com 55 anos ou mais constituem 35,4% dos endividados por apostas na região. Este grupo, frequentemente detentor de renda recorrente como aposentadorias e pensões, ou mesmo reservas financeiras acumuladas ao longo da vida, apresenta uma dinâmica diferente para o engajamento em jogos. Cavalheiro compara o comportamento atual ao de décadas atrás, onde muitos idosos que participavam de bingos agora migram para as apostas online. Um fator emocional crucial, segundo o especialista, é a solidão, que impulsiona a busca por passatempos rápidos e a gratificação instantânea que os jogos proporcionam, funcionando como uma 'epidemia de dopamina' em um contexto de poucas opções de lazer.

Cassinos Online Predominam: O 'Tigrinho' Como Porta de Entrada

Contrariando a percepção comum de que as apostas se concentram no futebol, o estudo mostra que na região, as apostas esportivas mal atingem 1% das preferências entre os endividados. O que domina são os cassinos online, com 58,1% dos jogadores optando por jogos como o 'Tigrinho', 'Dragão' e similares, que mimetizam máquinas caça-níqueis. Outros 3,2% preferem jogos específicos como 'Avião' e 'Mines'. Eduardo Cavalheiro alerta que as apostas esportivas frequentemente servem como 'porta de entrada' para esses jogos de cassino, onde a dinâmica intrínseca garante que 'a casa sempre ganha'. Cerca de 48,1% dos entrevistados expressaram ter se sentido enganados, seja pela não obtenção de prêmios, bloqueio de contas ou envolvimento em golpes.

Pequenas Apostas, Grandes Dívidas

Apesar de 67,7% dos apostadores gastarem até R$ 50 por mês e 61,3% terem começado a jogar há menos de seis meses, Cavalheiro enfatiza que o baixo valor inicial não minimiza o problema. Muitas vezes, esses 'trocados' são retirados de despesas essenciais, como supermercado, para apostas, gerando um ciclo vicioso de endividamento que impacta gravemente a subsistência.

Metodologia e Alcance da Pesquisa

É importante ressaltar que os resultados apresentados são preliminares e refletem o universo dos endividados cadastrados na plataforma Acordo Certo que responderam ao questionário entre 31 de julho e 28 de setembro. O estudo não abrange a totalidade da população da região, mas oferece um retrato valioso das tendências e vulnerabilidades dentro do grupo de pessoas já em situação de endividamento.

Os achados deste levantamento sublinham a urgência de debater o impacto social e financeiro das apostas online, especialmente em grupos mais vulneráveis como mães chefes de família em busca de renda e idosos lidando com a solidão. A facilidade de acesso aos jogos de cassino e a promessa de ganhos rápidos, mesmo em pequenas apostas, demonstram ser um vetor significativo de endividamento, demandando maior conscientização e políticas de prevenção.

Fonte: https://g1.globo.com

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