Muito além de sua função primordial de conectar diferentes níveis em uma edificação, a escada transcendeu o mero utilitarismo para se firmar como um elemento arquitetônico de profunda expressão e identidade. Principalmente a partir do advento do modernismo no Brasil, nomes como Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha reimaginaram esse componente, transformando-o em verdadeiras esculturas que definem a experiência espacial. Conforme destaca Bibiana Wittmann Lanzarin, docente do curso técnico de Design de Interiores do Senac, em projetos emblemáticos, a escada surge como uma presença marcante, capaz de delinear vazios, articular fluxos entre áreas públicas e privadas, enfatizar a monumentalidade de uma obra ou criar pontos estratégicos para encontro e permanência. Essa valorização se consolidou ainda mais a partir dos anos 1970, com a proliferação de centros culturais, instituições de ensino e complexos habitacionais, elevando a escada à categoria de protagonista em diversas construções nacionais.

A Força Expressiva do Modernismo Paulista e Carioca

No coração da arquitetura moderna brasileira, algumas escadarias se destacam por sua capacidade de sintetizar a linguagem e os ideais de seus criadores. Um exemplo notável é o Edifício Eurípedes Simões de Paula, erguido em 1961 pelo arquiteto Eduardo Corona. Sede dos Departamentos de História e Geografia da FFLCH-USP, no bairro do Butantã, São Paulo, o projeto do arquiteto gaúcho (1921–2001) empregou a circulação vertical como um potente organizador dos fluxos acadêmicos e coletivos. A edificação, um exemplar da arquitetura moderna paulista, é caracterizada pela exposição de seus elementos estruturais em concreto, que, neste caso, recebem pintura ou se mantêm em sua textura natural. O acesso principal é facilitado por rampas de concreto com piso cerâmico, enquanto à esquerda, uma impressionante escada helicoidal pintada em vermelho se impõe, atraindo o olhar e marcando o percurso.

Contemporaneamente, a Residência Fernando Millan, projetada em 1970 por Paulo Mendes da Rocha (1928–2021), também conhecido como Casa Leme, apresenta outro icônico arranjo. Implantada em um terreno inclinado no Jardim Guedala, em São Paulo, a escadaria em espiral, moldada em concreto aparente, é uma síntese da linguagem brutalista que define o imóvel. Ela organiza os percursos internos, conectando a área de serviço subterrânea ao térreo e ao andar superior, ao mesmo tempo em que ostenta uma forte presença plástica. Bibiana Wittmann Lanzarin a descreve como uma “escultura habitável” dentro do espaço, evidenciando sua dualidade funcional e artística.

Monumentalidade e Leveza: O Itamaraty de Niemeyer

Em Brasília, o Palácio do Itamaraty, idealizado por Oscar Niemeyer (1907–2012) em 1959, abriga uma das escadarias mais fotografadas e reconhecíveis da arquitetura moderna brasileira. Inserida no grandioso saguão, a estrutura helicoidal desafia a gravidade, parecendo flutuar no espaço. Sua leveza notável, contrastando com a robustez da estrutura em concreto armado, integra os interiores ao exuberante jardim projetado pelo paisagista Roberto Burle Marx (1909–1994). Para Bibiana, a escada do Itamaraty surge como uma “rara força plástica: solta no espaço, sem perder sua função, conduz o percurso e, ao mesmo tempo, constrói uma cena”, reafirmando a capacidade de Niemeyer de transformar elementos funcionais em gestos poéticos e emblemáticos.

A Elegância Histórica do Art Déco e a Espiral Carioca

A história da escadaria no Brasil também remonta a períodos anteriores ao modernismo mais radical. O Edifício Santa Elisa, projetado em 1928 por Arnaldo Maia Lello (1904–1974) em colaboração com Francisco Camillo, é um marco na verticalização paulistana e na introdução da linguagem Art Déco na cidade, sendo um dos pioneiros a adotar essa estética. Embora não possua a dramaticidade escultórica característica do modernismo posterior, sua escada revela uma sofisticação ornamental e uma elegância espacial atemporal. O uso refinado de ferro fundido, presente tanto na escadaria quanto nos portões, confere à estrutura um charme distintivo, conectando o edifício a uma era de transição estética e urbanística.

No Rio de Janeiro, o Museu de Arte Moderna (MAM Rio), assinado pelo arquiteto francês Affonso Eduardo Reidy (1909–1964) em 1953, culmina em um de seus elementos mais emblemáticos: a escada helicoidal do Bloco de Exposições. Concluída em fevereiro de 1960, essa estrutura curvilínea não apenas facilita a circulação, mas também se estabelece como um ícone visual do museu, contribuindo para a identidade espacial e a fluidez dos percursos que conduzem os visitantes através das exibições. Sua forma harmoniosa e integração com o contexto brutalista do MAM sublinha a versatilidade e o poder estético das escadarias na arquitetura brasileira.

Conclusão: Escadas como Narrativas da Arquitetura Nacional

Os exemplos dessas escadarias icônicas em edifícios brasileiros demonstram que esse elemento arquitetônico vai muito além de sua mera funcionalidade. Elas são testemunhas da evolução do design e da engenhosidade construtiva, verdadeiras narrativas esculpidas em concreto, ferro e outros materiais. Desde a monumentalidade organizadora de fluxos acadêmicos e a síntese brutalista, passando pela leveza etérea que desafia a gravidade, até a sofisticação ornamental de épocas anteriores, cada escada reflete um momento, um estilo e a visão de um arquiteto. Elas convidam à contemplação, moldam a experiência do usuário e permanecem como legados visuais que enriquecem o panorama arquitetônico do Brasil, provando que um simples conjunto de degraus pode, de fato, se tornar uma obra de arte.

Fonte: https://revistacasaejardim.globo.com

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