O cenário das telecomunicações no Brasil passa por uma transformação marcante, com a iminente desativação dos telefones públicos, popularmente conhecidos como orelhões. Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, encontra-se em uma posição peculiar neste processo, destacando-se entre as cidades brasileiras com o maior número de aparelhos ainda em operação. A decisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) marca o fim de um serviço que foi indispensável por décadas, mas que se tornou obsoleto com o avanço da tecnologia móvel.

O Cenário da Desativação: De Milhares a Nenhum

A partir deste mês, os 38 mil orelhões espalhados pelo território nacional começarão a ser progressivamente retirados das ruas. Em Ribeirão Preto, a presença desses equipamentos ainda é notável, com 342 unidades ativas, o que a coloca no topo da lista das cidades com mais telefones públicos no país. Na região, municípios vizinhos como Sertãozinho e Barretos também mantêm um número expressivo, cada um com 66 orelhões, ilustrando a transição que afeta todo o estado de São Paulo e o Brasil.

A Irreversível Obsolescência e o Fim das Concessões

A decisão de desativar os orelhões é um reflexo direto da evolução tecnológica. Outrora vitais para a comunicação, especialmente antes da disseminação dos telefones celulares, esses aparelhos perderam sua relevância. Dados recentes indicam que muitos registram menos de uma chamada por dia, evidenciando uma drástica redução em seu uso pela população ao longo dos anos.

A retirada também se fundamenta no encerramento das concessões do serviço de telefonia fixa, que expiraram no ano passado. Com o fim desses contratos, empresas como Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica (Vivo) deixam de ter a obrigação legal de manter a infraestrutura de telefones públicos. Contudo, a remoção não será imediata em todos os locais; a Anatel estabeleceu que os orelhões só devem ser mantidos em operação em cidades onde a cobertura de rede celular ainda é inexistente, e apenas até o ano de 2028.

Planos das Operadoras e a Transição para Novas Tecnologias

As operadoras de telecomunicações já estão alinhadas com a nova regulamentação da Anatel e delinearam seus planos para a transição. A Algar, por exemplo, enfatiza que os orelhões cumpriram um papel histórico e que a telefonia móvel e outras tecnologias superaram essa necessidade. A empresa se compromete a realizar a desativação da estrutura existente de forma responsável e sustentável, garantindo que os poucos aparelhos que ainda são a única opção de comunicação em certas regiões permaneçam em funcionamento até que alternativas tecnológicas sejam disponibilizadas.

A Vivo (Telefônica) também detalhou seu plano, informando que a migração do modelo de concessão para o regime de autorização liberou a empresa das obrigações de expansão e manutenção dos Telefones de Uso Público (TUPs). Este novo modelo permite à Vivo direcionar investimentos para tecnologias mais relevantes, como a ampliação da cobertura 4G e 5G em mais de mil municípios, o aumento da capacidade de rede e a modernização da infraestrutura de fibra ótica. No estado de São Paulo, a utilização dos orelhões caiu 93% nos últimos cinco anos, e a empresa iniciará a retirada dos aparelhos ao longo do ano, seguindo um cronograma que prioriza critérios operacionais, de segurança e conformidade regulatória, mantendo TUPs ativos em localidades exclusivas até 2028.

O Orelhão: Ícone da Comunicação e Patrimônio Afetivo

Por décadas, os orelhões foram mais do que simples aparelhos telefônicos; eles se tornaram um símbolo da comunicação no Brasil. Entre os anos 1970 e o início dos anos 2000, eram essenciais para contatos urgentes, serviam como pontos de encontro e, para muitos, representavam a única forma de se comunicar com quem estava longe de casa. A espera pela ligação a cobrar e a necessidade de 'cair a ficha' são memórias que ecoam na experiência de gerações de brasileiros.

Recentemente, a cabine telefônica oval, projetada por Chu Ming Silveira, ganhou nova evidência e reconhecimento cultural ao aparecer no cartaz do filme brasileiro 'O Agente Secreto', vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar. A imagem do personagem de Wagner Moura dentro de um orelhão ressalta a capacidade desse objeto de transcender sua função original e se perpetuar no imaginário coletivo como um elemento de nossa história e identidade.

A desativação dos orelhões em Ribeirão Preto e em todo o Brasil representa o encerramento de um capítulo importante na história das telecomunicações. É o adeus a um ícone que, embora não seja mais fundamental para a conectividade moderna, deixa um legado duradouro na memória e na cultura brasileira, abrindo espaço para um futuro cada vez mais digital e sem fronteiras geográficas ou tecnológicas.

Fonte: https://g1.globo.com

Share.

Comments are closed.