A cidade de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, foi palco de uma chocante tragédia que reacende o debate sobre reincidência criminal e a eficácia das medidas de progressão de regime no país. Hiago Moreira Schnornberger, de 29 anos, é o principal suspeito de assassinar a facadas sua esposa, Elisângela, na última quarta-feira (21). O crime ganha contornos ainda mais dramáticos ao se descobrir que Hiago havia sido posto em liberdade condicional em janeiro deste ano, após cumprir nove anos de prisão pela morte de sua ex-namorada, ocorrida em 2016.

A Tragédia Recente: O Assassinato de Elisângela em Rio Preto

O feminicídio de Elisângela ocorreu na residência do casal, localizada no bairro Parque da Cidadania, zona norte da cidade. Segundo relatos de familiares à polícia, o relacionamento de apenas seis meses era marcado por um ciúme excessivo e crises constantes por parte de Hiago. No dia do crime, uma discussão acalorada evoluiu, e o casal se dirigiu ao quarto. Minutos depois, a filha de 15 anos da vítima ouviu os gritos desesperados da mãe. Em um ato de desespero, a adolescente arrombou a porta do cômodo e presenciou o padrasto esfaqueando Elisângela.

A jovem tentou intervir, desferindo socos no agressor, que, contudo, conseguiu fugir a pé e descalço do local, um momento capturado por câmeras de segurança. A delegada Karina Fernandes Melo Santana, da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), confirmou que o corpo de Elisângela apresentava múltiplas perfurações de faca. A filha da vítima ainda relatou ter ouvido Hiago chorando e implorando para que Elisângela não terminasse o relacionamento, sugerindo que a não aceitação do fim da união teria sido a motivação para o brutal ataque. Apesar do rápido acionamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Elisângela não resistiu aos ferimentos e faleceu no local.

O Sombrio Precedente: O Assassinato da Ex-Namorada em 2016

A dinâmica do crime atual ecoa um passado perturbador de Hiago Moreira Schnornberger. Em 2016, ele foi o responsável pela morte de sua ex-namorada, Fernanda Aparecida da Silva, então com 18 anos, na cidade de Pitangueiras (SP). Documentos judiciais acessados pelo g1 revelam a semelhança chocante entre os dois casos. À época com 22 anos, Hiago não aceitava o término do relacionamento com Fernanda e, movido por uma crise de ciúmes, a atraiu para uma área de mata afastada da cidade sob o pretexto de um acampamento.

No local ermo, a denúncia do Ministério Público descreve que Hiago amarrou os braços e as pernas de Fernanda, vendou seus olhos e a esfaqueou repetidamente no peito. O corpo da jovem foi encontrado em 6 de dezembro de 2016. Hiago se entregou à polícia um dia após o crime, mas foi inicialmente liberado por ausência de flagrante, tendo sua prisão decretada dias depois. O instrumento perfurocortante utilizado no primeiro assassinato foi apreendido, evidenciando a frieza e a crueldade do ato.

Da Condenação à Liberdade Condicional: O Caminho Judicial de Hiago

Em 20 de setembro de 2018, Hiago Moreira Schnornberger foi condenado pelo júri popular a 24 anos de prisão em regime fechado, por homicídio triplamente qualificado – motivo torpe, emprego de meio cruel e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Contudo, a defesa, representada pela Defensoria Pública, recorreu da sentença. Argumentou-se que uma das qualificadoras havia sido considerada duas vezes no cálculo da pena e que a confissão do réu não foi reconhecida como atenuante. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) acatou parcialmente o recurso, reduzindo a pena de 24 para 14 anos de reclusão, uma diminuição de dez anos em relação à condenação inicial.

Após a redução da pena, Hiago progrediu para o regime semiaberto e, posteriormente, obteve a liberdade condicional. Esta última foi concedida em janeiro de 2023, cerca de nove meses antes de ser novamente apontado como suspeito de um feminicídio. O pedido de liberdade foi fundamentado no cumprimento do tempo de pena exigido, atestado de bom comportamento carcerário, frequência em ensino regular e trabalho dentro da unidade prisional, requisitos que, à época, o habilitaram para o benefício.

Um Padrão de Violência e a Reincidência Criminal

A sequência dos fatos em Rio Preto levanta questões críticas sobre os mecanismos de avaliação de risco em casos de libertação de indivíduos condenados por crimes violentos, especialmente aqueles com histórico de violência contra a mulher. A semelhança nos motivos – a não aceitação do término do relacionamento e o ciúme patológico – aliada à extrema violência empregada e à fuga após os crimes, sugere um padrão de comportamento perigoso e uma repetição de condutas, mesmo após anos de reclusão.

Conclusão: O Desafio da Prevenção e a Busca por Justiça

O caso de Hiago Moreira Schnornberger é um lembrete doloroso da persistência da violência de gênero e dos complexos desafios enfrentados pelo sistema de justiça na prevenção da reincidência. Enquanto as investigações sobre a morte de Elisângela prosseguem para garantir a punição do responsável, a sociedade se vê diante da necessidade de refletir sobre as lacunas que permitem que um indivíduo com histórico de feminicídio volte a cometer um crime de natureza tão brutal. A busca por justiça para Elisângela e Fernanda deve impulsionar uma análise aprofundada das políticas de progressão de regime e dos programas de reabilitação, visando proteger vidas e quebrar o ciclo da violência que ainda assombra lares brasileiros.

Fonte: https://g1.globo.com

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