O cenário digital e político se entrelaçam em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, com o influenciador Hagara Espresola Ramos, conhecido nas redes sociais como 'Hagara do Pão de Queijo' e ex-candidato a deputado federal, tornando-se réu. A decisão judicial decorre de sua atuação controversa em junho deste ano, quando abordou flanelinhas nas proximidades do Estádio Santa Cruz, durante um show de Ana Castela. As acusações são de usurpação de função pública e constrangimento ilegal, com outras quatro pessoas que o acompanhavam também figurando como réus no mesmo processo. A gravidade dos fatos levou a uma ordem judicial para a remoção imediata dos vídeos das abordagens de plataformas como Instagram, Facebook e TikTok.
A Denúncia do Ministério Público e as Acusações Detalhadas
Segundo a denúncia do Ministério Público, o grupo liderado por Hagara Espresola Ramos teria chegado ao local em três veículos identificados com adesivos de uma empresa de segurança, equipados com luzes de emergência nas cores azul e vermelha. Hagara, por sua vez, vestia um colete que, de acordo com as autoridades, simulava uniformes policiais, intensificando a impressão de se tratar de uma operação oficial. O MP detalha que o influenciador teria agido de forma intimidadora, mandando um flanelinha colocar as mãos na parede, rasgando o colete de um e retirando à força o de outro, além de obrigar um homem a devolver dinheiro e expulsar outros da via pública. Em um dos vídeos, Hagara teria proferido a frase: “Ninguém mais cobrando, limpamos a rua, vagabundo não vai cobrar mais aqui em Ribeirão Preto, não”, evidenciando a intenção de controle sobre o espaço.
A Promotoria classifica a conduta como usurpação de função pública, crime cometido por quem exerce atividade própria do Estado sem a devida investidura. O fato de Hagara buscar engajamento e fortalecer sua imagem perante o eleitorado, visando vantagem, enquadra o crime em sua forma qualificada, o que pode agravar a pena. O influenciador é apontado como o líder do grupo. Além de Hagara, os outros quatro réus incluem outro influenciador digital, dois apoiadores e o filho do proprietário da empresa de segurança, que teria aparecido fardado nos vídeos. O dono da empresa, por sua vez, foi denunciado por falso testemunho, acusado de mentir à Polícia Civil ao negar prestação de serviços a Hagara na noite dos fatos, contrariando as evidências visuais dos vídeos.
A Trajetória Legal do Caso e Desdobramentos da Investigação
A investigação inicial, que chegou a apurar a suspeita de atuação como milícia privada, não foi incluída na denúncia atual. No entanto, o juiz Lúcio Alberto Eneas da Silva Ferreira, da 4ª Vara Criminal de Ribeirão Preto, acatou o pedido do Ministério Público para que cópias do processo fossem encaminhadas à Delegacia de Investigações Gerais (DIG). Esta delegacia será responsável por aprofundar a apuração sobre a possível existência de uma milícia em um inquérito separado, destacando a seriedade e complexidade do caso. O MP ressaltou a gravidade dos fatos, sua ampla divulgação nas redes sociais e o envolvimento de violência e grave ameaça, fatores que fundamentaram a decisão de não oferecer um acordo para evitar o processo judicial aos réus.
A Estratégia de Defesa e a Versão dos Acusados
A defesa de Hagara Espresola Ramos refuta veementemente as acusações, alegando que o influenciador não cometeu qualquer ato ilícito. Em nota, a equipe jurídica afirmou que Hagara ainda não foi formalmente citado e que não teve acesso à íntegra do processo, comprometendo-se a se manifestar detalhadamente após a análise dos documentos. A versão apresentada pela defesa indica que Hagara teria comparecido ao local após receber denúncias de cidadãos sobre constrangimentos e ameaças praticados por flanelinhas, alegando ter sido hostilizado por um dos envolvidos e, por essa razão, acionou a Polícia Militar.
Em depoimento à Polícia Civil, Hagara admitiu ter rasgado o colete de um dos flanelinhas, mas negou ter realizado revista ou utilizado violência física, reforçando que o colete que vestia era “recreativo” e sem qualquer semelhança com uniformes das forças de segurança. Ele também alegou que o encontro com os carros e funcionários da empresa de segurança foi casual. A defesa assegura que Hagara tem colaborado com as investigações, está tranquilo e confia na Justiça, comprometendo-se a prosseguir com seu trabalho “em defesa dos interesses da população”.
Conclusão: Um Julgamento com Amplas Repercussões
O caso de Hagara Espresola Ramos lança luz sobre os limites da atuação de figuras públicas e influenciadores digitais, especialmente quando suas ações se assemelham a funções estatais e envolvem o uso de força. A transformação do influenciador em réu por usurpação de função pública e constrangimento ilegal, juntamente com a investigação em curso sobre a possível formação de milícia, sublinha a seriedade com que o sistema judiciário brasileiro lida com a simulação de autoridade. Enquanto a defesa clama pela inocência e contextualiza as ações de Hagara como uma resposta a denúncias populares, o Ministério Público enfatiza a gravidade dos atos, a publicidade dada a eles e a necessidade de preservar a ordem pública e a exclusividade do Estado no uso da força. O desfecho deste processo será crucial para estabelecer precedentes na interseção entre influência digital, cidadania e a legalidade da segurança privada no país.
Fonte: https://g1.globo.com

