A Polícia Civil de Minas Gerais concluiu uma investigação de grande impacto no setor cafeeiro, revelando um esquema de apropriação indébita e gestão temerária que resultou no desvio de mais de 22 mil sacas de café da Cooperativa dos Cafeicultores e Agropecuaristas de Ibiraci (Cocapil). O inquérito, finalizado nesta segunda-feira (12), aponta um prejuízo estimado em mais de R$ 52 milhões para produtores rurais de Minas Gerais e do interior de São Paulo, expondo uma complexa rede de irregularidades que culminou na decretação da prisão do presidente da cooperativa, atualmente foragido.
Desdobramentos da Investigação e Indiciamentos
Segundo o delegado Estevan Ferreira, responsável pelo caso, as apurações da Polícia Civil confirmaram a prática dos crimes de apropriação indébita e gestão temerária. O principal indiciado é Elvis Vilhena Faleiros, presidente da Cocapil, que teve sua prisão decretada, mas não foi encontrado pelas autoridades. A investigação também apontou o envolvimento de outros dois diretores da cooperativa. A apropriação indébita, conforme explicado pela polícia, ocorreu quando Elvis e seus diretores, cientes de sua condição de depositários, se apoderaram das sacas de café dos produtores sem autorização, enquanto a gestão temerária refere-se a decisões arriscadas e irresponsáveis que levaram à crise financeira da cooperativa. As denúncias de desvios, que se arrastam desde 2021, envolviam supostas travas de preços de sacas que não foram honradas.
O Impacto Devastador nos Cafeicultores
O drama dos cafeicultores começou a vir à tona em agosto do ano passado, quando muitos produtores foram à Cocapil para retirar seus grãos e descobriram que os armazéns estavam vazios. Desde então, dezenas de vítimas registraram boletins de ocorrência. Entre os mais afetados está Éder Valdomiro de Carvalho, que relata um prejuízo de aproximadamente R$ 1,2 milhão devido à perda de 260 sacas de café, um valor crucial para o sustento de sua família e os cuidados médicos de seu pai. Outro produtor, Evaldo Luis Vilhena Carvalho, que utilizava os serviços da cooperativa há cerca de 15 anos sem problemas, foi inicialmente informado de que as notícias eram apenas boatos antes de descobrir que seu café havia sido vendido sem sua permissão e que a cooperativa estava prestes a fechar.
Ao todo, 30 produtores foram ouvidos pela Polícia Civil, representando diversas cidades de Minas Gerais, como Ibiraci, Cássia, Capetinga e Claraval, e do interior de São Paulo, incluindo Franca e Cristais Paulista. Esses testemunhos coletivos delineiam a magnitude do golpe e a confiança traída por uma instituição que deveria proteger os interesses de seus cooperados.
Estratégias para Ressarcimento e o Futuro da Cooperativa
O advogado da Cocapil, Márcio Cunha, informou que o presidente Elvis Vilhena Faleiros não se apresentou às autoridades porque estaria buscando meios particulares para quitar os débitos pendentes. A cooperativa pretende ressarcir aproximadamente 170 pessoas, entre cooperados e produtores, por meio da venda de seus ativos. Já estão em negociação os barracões da Cocapil localizados em uma fazenda no município de Claraval, cujos imóveis foram avaliados e, segundo o advogado, são mais que suficientes para cobrir as dívidas.
Uma nova assembleia está agendada para o dia 24 deste mês, com o objetivo de definir o plano de pagamentos. A prioridade inicial será liquidar as dívidas dos produtores com menor número de sacas, escalonando o ressarcimento para aqueles com maiores volumes. Embora a cooperativa continue formalmente em funcionamento, a venda de seus bens imóveis sinaliza sua eventual extinção, marcando o fim de uma era para a Cocapil e um doloroso capítulo para a comunidade cafeeira regional.
Fonte: https://g1.globo.com

