No coração do interior paulista, em Jeriquara, uma fazenda centenária se destaca não apenas pela longevidade de sua produção, mas por uma singularidade que a torna um farol de resiliência e tradição: ela é mantida viva há mais de cem anos sob o comando de quatro gerações de mulheres. Este patrimônio, que integra a rica paisagem cafeeira da região de Ribeirão Preto, é hoje liderado pela vitalidade de Bruna Fernandes Malta, neta da matriarca centenária Juliana de Oliveira, de 103 anos, cujas mãos e sabedoria moldaram o destino desta terra. A propriedade, um exemplo da força do agronegócio familiar, oferece um mergulho na história da cultura cafeeira e na dedicação feminina ao campo.

A Força da Herança Feminina no Coração do Café

A história da propriedade é um testemunho da sucessão feminina, onde cada geração adicionou sua própria contribuição. A centenária Juliana de Oliveira, com seus 103 anos, permanece a alma e a inspiração da fazenda. Ao seu lado, a filha Sueli Fernandes Malta, a neta Bruna e a bisneta Maria Rita tecem o futuro, garantindo a continuidade de um legado que é tanto familiar quanto cultural. Bruna Fernandes Malta, responsável pela gestão atual, coordena todas as etapas da cadeia produtiva do café, desde o plantio até a colheita. Ela divide as funções e supervisiona as atividades, orgulhando-se de liderar uma lavoura onde a visão e o empenho femininos são a força motriz, combinando a experiência ancestral com as demandas da modernidade e o gerenciamento estratégico da produção.

De Mata Virgem à Produção Moderna: A Evolução no Campo

A saga da fazenda teve início nos primeiros anos do século XX, quando vasta parte da propriedade ainda era coberta por mata fechada. Juliana de Oliveira recorda-se de um tempo em que o café ocupava apenas uma pequena porção do terreno quando ela chegou, após seu casamento. Juntamente com seu marido, ela dedicou-se arduamente ao cultivo e à expansão da lavoura, criando os filhos em meio ao trabalho rural e sob os pés de café. Essa jornada de transformação é visível na paisagem atual: os poucos pés de café do passado deram lugar a mais de 130 hectares plantados, refletindo um notável crescimento. As técnicas, outrora inteiramente manuais, baseadas na enxada e na colheita braçal, evoluíram significativamente. Hoje, a fazenda emprega maquinário moderno e equipamentos de ponta, otimizando a produção. Contudo, para a matriarca, a essência do cultivo permanece inalterada: o cuidado diário e a dedicação à terra, valores transmitidos através das gerações, continuam sendo o pilar fundamental para a qualidade do café produzido.

Alta Mogiana: O Território e Seu Café de Qualidade

A trajetória da família na fazenda de Jeriquara espelha a própria história da Alta Mogiana, uma das mais prestigiadas regiões cafeeiras do Brasil. Conforme explica o pesquisador Otávio Henrique da Silva Lemes, a cultura do café migrou do Vale do Paraíba, tanto fluminense quanto paulista, antes de se estabelecer em importantes polos como Campinas, Limeira, Ribeirão Preto, e posteriormente Franca e arredores. Esta região, estrategicamente situada na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, abrange 16 cidades paulistas e sete mineiras. O florescimento da Alta Mogiana foi intrinsecamente ligado à Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, vital para o escoamento da produção e o transporte de pessoas, conectando o interior a grandes centros. Embora o café possua uma “história amarga”, como lembra Lemes, por ter sido impulsionado historicamente pelo tráfico de pessoas negras, a chegada da Mogiana e a expansão da cultura consolidaram a importância econômica da região. Atualmente, a Alta Mogiana é sinônimo de excelência na produção de cafés especiais. A combinação única de altitude elevada e solos de origem vulcânica confere condições ideais para o cultivo do café arábica, resultando em grãos de alta valorização e reconhecimento internacional.

A fazenda de Jeriquara, sob a gestão destas quatro gerações de mulheres, transcende o conceito de uma mera propriedade rural; ela é um vívido repositório de memória, trabalho e inovação. Ao unir a sabedoria ancestral da matriarca Juliana com a visão moderna de Bruna e o futuro representado por Maria Rita, a família não só preserva uma tradição centenária, mas também demonstra a resiliência e a capacidade de adaptação do agronegócio familiar. Este legado feminino, imerso na rica história da Alta Mogiana, continua a florescer, garantindo que o aroma e o sabor do café de Jeriquara contem uma história de força e determinação por muitas gerações vindouras.

Fonte: https://g1.globo.com

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