A aguardada cinebiografia de Michael Jackson, intitulada simplesmente “Michael”, finalmente chegou às telonas, prometendo revisitar a multifacetada trajetória do Rei do Pop, desde sua infância no grupo Jackson 5 até o estrondoso sucesso da era “Thriller”. No entanto, como é comum em produções biográficas, o filme optou por diversas licenças artísticas, mesclando fatos reais com elementos ficcionais para construir uma narrativa mais dramática e coesa. Embora algumas alterações possam ter sido motivadas por questões jurídicas, outras permanecem um mistério, levantando questionamentos sobre a precisão histórica da obra. Esta análise detalhada explora as principais divergências entre a trama cinematográfica e a verdadeira vida de Michael Jackson.
Familiares Ausentes: Lacunas na Trajetória dos Jackson
Uma das ausências mais notáveis no filme é a de Janet Jackson, irmã de Michael que, na vida real, já construía uma sólida carreira musical e se apresentava ativamente com os irmãos nas décadas de 1970 e 1980. Sua presença foi completamente omitida da narrativa cinematográfica, o que, segundo relatos da família, teria sido uma escolha da própria Janet em não participar do projeto. Adicionalmente, Randy Jackson, outro irmão que integrou o The Jackson 5 a partir dos anos 1970, com participações significativas em turnês e composições, também foi deixado de fora, assim como Rebbie Jackson, a irmã mais velha, que residia com a família durante o período retratado, mas foi esquecida na trama.
Pets Icônicos: Cronologia Adaptada para a Tela Grande
O filme antecipa a aparição de dois dos mais famosos animais de estimação de Michael Jackson. O célebre chimpanzé Bubbles é retratado ao lado do cantor ainda no final dos anos 1970. Contudo, na realidade, Bubbles nasceu em 1983, tornando sua introdução na trama anterior a este marco histórico. Da mesma forma, uma girafa que se tornaria parte da exótica coleção de animais de Michael é mostrada em um período mais precoce do que sua verdadeira chegada, que ocorreu em meados de 1986. Essas alterações de tempo parecem ter sido empregadas para solidificar a imagem de Michael como um indivíduo excêntrico e amante dos animais em fases anteriores de sua vida.
Desmistificando a Carreira Solo: Além de Off the Wall
A produção cinematográfica posiciona o aclamado álbum “Off the Wall”, lançado em 1979, como o ponto de partida da carreira solo de Michael Jackson. Esta abordagem, entretanto, ignora um período crucial de sua discografia. Antes do sucesso estrondoso de “Off the Wall”, Michael já havia lançado outros quatro álbuns solo sob o selo Motown – “Got to Be There” (1972), “Ben” (1972), “Music & Me” (1973) e “Forever, Michael” (1975) –, demonstrando um caminho independente prévio que o filme optou por não explorar.
Os Bastidores de Thriller: Fatos e Ficção na Criação e Recepção
A origem da icônica canção “Thriller” também sofre modificações no filme. A narrativa sugere que a inspiração para a faixa teria vindo do próprio Michael Jackson, após assistir a filmes de terror em casa. Contudo, a autoria e composição da música pertencem a Rod Temperton, que a concebeu com um título inicial diferente. Além disso, o filme dramatiza uma forte resistência da MTV em veicular os videoclipes de Michael Jackson durante a era “Thriller”. Embora seja inegável a discussão sobre a baixa representatividade de artistas negros nos primórdios da emissora, a situação de Michael já era muito diferente. Na época do lançamento do clipe de “Thriller”, o artista já era uma das maiores estrelas da MTV, impulsionado pelo sucesso de “Billie Jean” e “Beat It”, que já haviam garantido sua presença massiva na programação.
A Dinâmica dos Jackson: Turnês e Legado do Grupo
Outro ponto de divergência reside na representação da família Jackson após a saída de Jermaine do grupo. O filme sugere que o The Jacksons (antigo Jackson 5) teria enfrentado um período de enfraquecimento significativo sem a presença dele. No entanto, a realidade foi outra: o grupo permaneceu ativo e com grande êxito, muitas vezes com Randy Jackson assumindo um papel mais proeminente, e continuou a realizar turnês e produzir material de sucesso, desmentindo a ideia de uma dissolução ou diminuição de sua força artística.
Em suma, “Michael” se posiciona como uma cinebiografia que, embora celebre a vida e o legado de um dos maiores artistas de todos os tempos, não hesita em tomar liberdades criativas para moldar sua narrativa. As alterações cronológicas, as omissões de membros da família e as modificações nos detalhes de marcos de sua carreira servem para construir uma história que talvez priorize o impacto dramático e temático sobre a fidelidade estrita aos fatos. Para os fãs e o público geral, o filme oferece uma visão interpretativa, enquanto o aprofundamento na biografia real do Rei do Pop revela as nuances e complexidades que a tela, por vezes, simplifica ou adapta.
Fonte: https://www.tecmundo.com.br

