O trágico desfecho da pequena Sophia Emanuelly de Souza, de apenas 3 anos, que faleceu na última terça-feira (17) em Ribeirão Preto (SP) após supostas sessões de tortura e maus-tratos, choca o país. A investigação policial revelou um cenário de profunda negligência e crueldade, com o avô da criança, José dos Santos, de 42 anos, e sua companheira, Karen Tamires Marques, de 33, presos preventivamente sob suspeita de homicídio triplamente qualificado. Um dos aspectos mais dolorosos do caso emergiu quando a mãe e a avó materna de Sophia, residentes em Itapetininga (SP), descobriram o falecimento da menina apenas dias depois, evidenciando um abismo de informações e uma dolorosa ausência.
A Descoberta Tardia e o Drama Familiar
A família materna de Sophia vivia à margem da dimensão dos maus-tratos e da própria morte da criança. A delegada Michela Ragazzi informou que a mãe e a avó, que moram em Itapetininga, foram contatadas pela polícia na sexta-feira seguinte ao óbito, e a notícia do falecimento da menina foi um choque devastador. A condição humilde da família exigiu a intervenção do poder público municipal de Itapetininga para custear o deslocamento até Ribeirão Preto. Somente na segunda-feira subsequente, o corpo de Sophia, que permanecia no Instituto Médico Legal (IML) desde a semana anterior, foi finalmente reconhecido e liberado, após as duas prestarem depoimento à delegacia. O translado para Itapetininga, onde ocorrerá o velório e o enterro, está sendo providenciado.
A Dinâmica da Custódia e a Confissão da Agredida
Sophia estava sob a guarda do avô, José dos Santos, desde 2024. A investigação aponta para a companheira de José, Karen Tamires Marques, como a principal executora da violência. Karen confessou à polícia que não tinha afeto pela criança e que a estrangulou porque Sophia se recusava a comer. Essa confissão corroborou a suspeita de que ela foi a responsável direta pela morte. O avô, por sua vez, é considerado coautor do crime, não apenas por sua omissão em proteger a neta, mas também por ter tentado encobrir a situação ao chegar à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Avenida Treze de Maio com a criança já sem vida, alegando que ela havia vomitado no trajeto – versão prontamente desmentida pela equipe médica e pela investigação, que reforçou sua suspeita de cumplicidade. Ambos foram presos em flagrante na quarta-feira (18) e tiveram a prisão preventiva decretada em audiência de custódia no mesmo dia.
Evidências de Maus-Tratos Crônicos e o Laudo do IML
As revelações sobre a extensão do sofrimento de Sophia são particularmente perturbadoras. O laudo do IML, emitido na sexta-feira (20), confirmou que a causa da morte foi asfixia mecânica por estrangulamento. Contudo, o exame necroscópico foi além, indicando que a menina era vítima de maus-tratos frequentes. Foram identificados hematomas de diversas colorações em seu corpo, um claro sinal de que as agressões não foram incidentes isolados, mas sim um padrão de violência contínua ao longo de um período significativo. Essa evidência reforça a gravidade do crime e aponta para um histórico de abuso que culminou na trágica morte da criança.
A Condução do Inquérito e a Busca por Respostas
A Polícia Civil intensifica os esforços para elucidar todos os detalhes do caso. A equipe de investigação ouvirá vizinhos do apartamento onde o avô, a companheira e a neta viviam, no Parque São Sebastião, Zona Leste de Ribeirão Preto. O imóvel passará por perícia minuciosa em busca de vestígios do delito. Além disso, serão analisados relatórios e documentos do Conselho Tutelar de Itapetininga, visando compreender até que ponto a “invisibilidade” de Sophia pode ter contribuído para o seu falecimento. Os investigados devem responder por homicídio triplamente qualificado, e a polícia avalia se as acusações incluirão tortura seguida de morte, uma conduta prevista na Lei dos Crimes Hediondos. Enquanto o advogado de José alega inocência e promete recorrer da prisão preventiva, a Defensoria Pública, que representa Karen, mantém o silêncio, como praxe em processos criminais em andamento. A expectativa é que o inquérito seja concluído até o final da semana.
A morte de Sophia Emanuelly de Souza expõe uma das faces mais cruéis da violência contra a criança, evocando profunda tristeza e repúdio. As investigações buscam não apenas punir os responsáveis, mas também lançar luz sobre as circunstâncias que levaram ao silenciamento de uma vida tão jovem, reafirmando o compromisso da justiça em proteger os mais vulneráveis e assegurar que crimes hediondos como este não fiquem impunes.
Fonte: https://g1.globo.com

