Dez anos após o estrondo global causado pelos Panama Papers, a organização Oxfam lança um alerta contundente sobre a persistência da evasão fiscal por parte da elite mundial. Uma nova análise da entidade revela que a riqueza não tributada, meticulosamente escondida em paraísos fiscais pelo 0,1% mais rico do planeta, atinge a assombrosa cifra de US$ 3,55 trilhões. Este montante não apenas sublinha a crescente desigualdade global, mas também supera a riqueza total da metade mais pobre da humanidade, um grupo que engloba cerca de 4,1 bilhões de pessoas.
A Escala da Riqueza Oculta e Seu Impacto Econômico
A magnitude da riqueza offshore, estimada em US$ 3,55 trilhões para 2024, projeta uma sombra sobre as economias mundiais. Conforme a Oxfam, este valor exorbitante é superior ao Produto Interno Bruto (PIB) da França e representa mais que o dobro do PIB combinado dos 44 países menos desenvolvidos do mundo. A concentração é ainda mais alarmante: o diminuto grupo do 0,1% mais rico detém aproximadamente 80% dessa riqueza não tributada, o que equivale a impressionantes US$ 2,84 trilhões, mantendo-a longe do alcance da fiscalização e da tributação.
O Legado dos Panama Papers e a Impunidade Persistente
A análise da Oxfam foi divulgada em 31 de março, coincidindo com o décimo aniversário do escândalo dos Panama Papers. Em 2016, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) expôs uma complexa rede de empresas offshore, frequentemente utilizadas para ocultar fortunas e dificultar o rastreamento dos verdadeiros beneficiários. A investigação, que envolveu mais de 370 jornalistas de 76 países na análise de milhões de documentos vazados, revelou um sistema global que permite aos super-ricos sonegar impostos e ocultar ativos. Uma década depois, a realidade é que essas estruturas continuam a ser amplamente exploradas.
Christian Hallum, coordenador de Tributação da Oxfam Internacional, ressalta a dimensão do problema: “Os Panama Papers levantaram o véu sobre um mundo sombrio onde os mais ricos movimentam silenciosamente fortunas imensas para além do alcance dos impostos e da fiscalização. Dez anos depois, os super-ricos continuam escondendo verdadeiros oceanos de riqueza em cofres offshore.” Sua declaração sublinha a ineficácia das medidas tomadas até então e a continuidade da impunidade fiscal para a parcela mais abastada da população global.
Consequências Sociais e o Apelo Urgente por Justiça Fiscal
As ramificações da evasão fiscal em massa são profundas e devastadoras. A Oxfam argumenta que, ao permitir que bilhões de dólares permaneçam intocados em paraísos fiscais, governos e sociedades perdem recursos vitais. Hospitais públicos e escolas são privados de financiamento, o tecido social é fragilizado pelo aumento da desigualdade, e cidadãos comuns são forçados a arcar com os custos de um sistema que parece beneficiar apenas uma pequena elite. Essa dinâmica, segundo a organização, posiciona milionários e bilionários acima das obrigações que recaem sobre o restante da sociedade, evidenciando uma grave falha em termos de poder e equidade.
Diante deste cenário, a Oxfam faz um apelo urgente por uma ação internacional coordenada. A organização defende a necessidade premente de tributar a riqueza extrema e de erradicar o uso de paraísos fiscais. Tais medidas são consideradas essenciais para restaurar a justiça fiscal e garantir que os recursos necessários cheguem aos serviços públicos e às iniciativas sociais que podem reduzir a pobreza e a desigualdade.
Progressos Desiguais e os Desafios do Sul Global
Embora a Oxfam reconheça alguns avanços na redução da riqueza offshore não tributada, que atualmente corresponde a aproximadamente 3,2% do PIB global, esse progresso tem sido notavelmente desigual entre os países. A introdução do sistema de Troca Automática de Informações (AEOI), atribuído por pesquisadores à redução da parcela não tributada da riqueza offshore, ainda não alcança todos. Grande parte dos países do Sul Global permanece excluída desse mecanismo crucial de transparência financeira.
Essa exclusão é particularmente preocupante, pois essas nações frequentemente enfrentam uma necessidade urgente de receita tributária para financiar seu desenvolvimento e combater a pobreza. A dificuldade em rastrear e tributar a riqueza de seus cidadãos mais abastados, que utilizam estruturas offshore, agrava ainda mais suas vulnerabilidades econômicas e aprofunda as disparidades globais.
Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil, enfatiza que a problemática global dos paraísos fiscais tem um reflexo direto no Brasil. “O que os Panama Papers revelaram há dez anos continua atual no Brasil: há uma arquitetura global que protege grandes fortunas enquanto a maioria da população paga proporcionalmente mais impostos. Justiça fiscal passa necessariamente por tributar os super-ricos”, afirma. Sua declaração reforça a universalidade do desafio e a imperatividade de reformas tributárias que promovam maior equidade social.

