A tranquilidade do distrito de Bonfim Paulista, em Ribeirão Preto (SP), foi abruptamente rompida por uma série de graves acusações que abalam a Paróquia Senhor Bom Jesus do Bonfim. Denúncias de assédio sexual contra um padre da comunidade, trazidas à tona por vítimas que decidiram procurar a Polícia Civil, deflagraram uma onda de revelações. O caso, que inicialmente mobilizou as autoridades policiais, também reacendeu memórias dolorosas de pessoas que, hoje adultas, relataram ter sido vítimas dos mesmos abusos anos atrás, quando ainda eram crianças e serviam como coroinhas na igreja. As alegações desencadearam investigações conjuntas da Delegacia de Defesa da Mulher e da Arquidiocese Metropolitana de Ribeirão Preto, resultando no imediato afastamento do sacerdote.
O Centro da Controvérsia: Identidade e Função do Sacerdote
O alvo das investigações é o padre Mário Reis da Silveira, que exercia a função de pároco na Paróquia Senhor Bom Jesus do Bonfim. Como figura central das atividades religiosas e administrativas da comunidade de Bonfim Paulista, sua presença era marcante. Contudo, em virtude das acusações, o sacerdote foi afastado de todos os seus ofícios eclesiásticos por determinação expressa do arcebispo metropolitano, Dom Moacir Silva. Essa medida, implementada em março, visou assegurar a integridade e imparcialidade das apurações, com um novo padre já designado para assumir temporariamente as responsabilidades paroquiais.
As Graves Denúncias e a Cronologia dos Fatos
O padre Mário Reis da Silveira é atualmente investigado por suspeita de assédio sexual contra, pelo menos, cinco indivíduos. As denúncias foram formalizadas por famílias e pelas próprias vítimas, que na época dos supostos crimes eram crianças atuando como coroinhas na paróquia. Os relatos abrangem um longo período, indicando que os abusos teriam ocorrido em diferentes momentos, alguns datando de até duas décadas. O volume de informações e a consistência dos novos relatos, que surgiram em meados de 2023, foram cruciais para que as investigações ganhassem corpo e fossem levadas às autoridades policiais, conforme apontado pelo advogado que representa as vítimas.
Relatos das Vítimas: O Padrão de Abuso Alegado
As vítimas detalham um padrão de comportamento por parte do sacerdote, que se aproveitaria de momentos de conversa privada, frequentemente na sacristia após as missas, para cometer atos inadequados. Estes incluíam toques em partes íntimas e tentativas de beijo. Um dos relatos mais impactantes veio de um homem de 32 anos, que descreveu a experiência traumática aos 12, afirmando: "Meu primeiro beijo na boca foi com um padre." Além do contato físico indesejado, as denúncias sugerem que o padre explorava momentos de vulnerabilidade dos jovens, aproximando-se de forma manipuladora e agindo de maneira imprópria, o que causou profundos abalos psicológicos.
Resposta da Arquidiocese e Críticas à Gestão Passada
Diante da gravidade das denúncias, a Arquidiocese de Ribeirão Preto agiu prontamente. O arcebispo Dom Moacir Silva instaurou uma investigação prévia em 12 de março e decretou a suspensão imediata de todas as atividades eclesiásticas de Mário Reis da Silveira. A Igreja tem reiterado sua cooperação com as autoridades policiais, e o próprio arcebispo prestou depoimento à Polícia Civil para detalhar as providências internas. No entanto, há críticas significativas sobre a lentidão da resposta institucional em anos anteriores. Uma das vítimas relatou uma tentativa de denúncia à Arquidiocese aos 17 anos, que não progrediu porque a instituição exigiu uma carta de próprio punho, um obstáculo intransponível para o jovem emocionalmente abalado na época. A defesa das vítimas enfatiza que, apesar de relatos terem sido feitos à Igreja no passado, medidas efetivas só foram tomadas recentemente.
O Andamento da Investigação Policial
Paralelamente às ações eclesiásticas, a Polícia Civil, por meio da Delegacia de Defesa da Mulher de Ribeirão Preto, instaurou um inquérito policial há aproximadamente um mês. As investigações estão em estágio avançado, com a polícia já tendo colhido depoimentos de vítimas, familiares e do próprio arcebispo. Um passo crucial para a conclusão do inquérito é a perícia no celular do sacerdote, que foi apreendido para análise de mensagens e outros dados relevantes. A delegada responsável pelo caso manifestou a intenção de interrogar o investigado presencialmente, preferencialmente após a obtenção dos laudos periciais, embora a data para tal ainda não tenha sido definida.
Consequências Imediatas para o Sacerdote
Após seu afastamento da arquidiocese em março, o padre Mário Reis da Silveira deixou o distrito de Bonfim Paulista. Ele foi posteriormente localizado na cidade de Guaxupé (MG), onde seu aparelho celular foi apreendido pela polícia como parte das investigações. Atualmente, o sacerdote permanece afastado de todas as suas funções paroquiais e administrativas por tempo indeterminado, aguardando o desfecho das apurações civil e eclesiástica sobre as graves acusações.
Este complexo caso em Ribeirão Preto sublinha a importância da voz das vítimas e a responsabilidade das instituições em lidar com denúncias de abuso. A mobilização da Polícia Civil e da Arquidiocese demonstra um esforço conjunto para esclarecer os fatos e buscar justiça, enquanto a comunidade de Bonfim Paulista lida com a repercussão dessas chocantes revelações.
Fonte: https://g1.globo.com

