Em um exemplo notável de inovação pedagógica, um professor da rede municipal de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, encontrou uma maneira engenhosa de capitalizar o entusiasmo das crianças pela Copa do Mundo. Ao invés de apenas observar a paixão pelo mundial, ele a transformou em uma ferramenta educativa poderosa, convertendo seus próprios alunos em figurinhas colecionáveis, cada qual com atributos únicos derivados de seu desempenho escolar. A iniciativa, que uniu arte, tecnologia e motivação, reverberou pelas salas de aula da EMEF Domingos Angerami, elevando a autoestima e o engajamento dos estudantes.
Da Imaginação à Carta: O Processo Criativo das Figurinas
A materialização dessa ideia começou com a criatividade dos estudantes do 4º e 5º anos. Cada criança foi incentivada a criar um autorretrato, imaginando-se como um craque e desenhando seu próprio uniforme. Essa explosão de criatividade em papel foi o ponto de partida para a fase digital. O professor Marco Aurélio Manzano Martins assumiu a tarefa de escanear os desenhos, formatá-los e, com base nas icônicas figurinhas da Copa do Mundo, transformar cada arte em um baralho personalizado. Cada carta não apenas exibia o rosto do aluno-jogador e seu uniforme, mas também ganhava atributos de “ataque”, “defesa” e “drible”, elementos cruciais para a dinâmica do jogo.
Desempenho Escolar como Atributo: A Mecânica Pedagógica por Trás do Jogo
O que realmente distinguiu o projeto foi a metodologia inovadora para definir a 'força' dos jogadores nas cartas. Longe de ser um sorteio aleatório, os valores numéricos de ataque, defesa e drible foram diretamente atrelados ao desempenho acadêmico e comportamental dos alunos. A entrega pontual dos cadernos, por exemplo, determinava a pontuação de ataque. A disciplina e o comportamento em sala de aula influenciavam a defesa, enquanto a participação ativa medição o drible. Essa correlação direta entre o esforço escolar e o poder no jogo transformou as avaliações em um incentivo palpável, alinhando a diversão do jogo com os objetivos de aprendizagem e conduta.
Inclusão e Autoestima: O Impacto Social do Projeto
Além do aspecto lúdico-pedagógico, a iniciativa de Marco Aurélio teve um profundo impacto social, especialmente em uma escola que atende muitas famílias de baixa renda, onde a aquisição de álbuns e pacotes de figurinhas oficiais pode ser um luxo inacessível. O professor, que se inspirou em sua própria infância humilde, buscou proporcionar um sentimento de pertencimento e valor. Ao verem seus próprios rostos e criações estampadas em cartas com qualidade de produção, as crianças sentiram-se incluídas e importantes. Alunas como Daniele Rezende Vital de Souza, de 9 anos, e Lorena Sofia Nogueira Saviano, de 10, expressaram um carinho especial por suas figurinhas 'porque fui eu que fiz', demonstrando que a autoria e a personalização superaram o apelo dos produtos comerciais.
Regras do Jogo e Ganhos na Disciplina: A Transformação em Sala de Aula
A dinâmica de jogo foi inspirada no clássico 'Super Trunfo', onde os participantes comparam atributos para conquistar as cartas do adversário. A genialidade residiu em fazer com que esses atributos fossem uma consequência direta do comportamento em sala. A estratégia funcionou de forma surpreendente: Marco Aurélio relatou uma mudança perceptível no comportamento dos alunos. Aqueles com histórico de indisciplina ou agitação, por exemplo, passaram a se empenhar mais e a manter a atenção nas aulas, compreendendo que suas ações influenciavam diretamente a 'força' de suas cartas. O desejo de ter uma 'figurinha mais forte' se traduziu em maior dedicação e disciplina, revelando o poder da gamificação bem aplicada para transformar o ambiente de aprendizado.
A iniciativa do professor Marco Aurélio Martins transcende a simples brincadeira. Ela se consolidou como uma abordagem multifacetada que utilizou a paixão pelo futebol para fomentar a criatividade, o engajamento acadêmico e a disciplina, ao mesmo tempo em que promoveu um inestimável senso de inclusão e valor individual entre os estudantes. Em Ribeirão Preto, a Copa do Mundo se tornou um campo fértil para o desenvolvimento integral dos alunos, mostrando que a inovação pedagógica pode surgir das paixões mais cotidianas, com resultados transformadores e duradouros.
Fonte: https://g1.globo.com

